Os fundamentos do mercado de crédito americano estão mais fracos, mas o comportamento errático dos investidores está ampliando os problemas, o investidor Howard Marks escreveu em seu memorando mais recente, publicado ontem.
Num texto recheado de insights interessantes sobre a psicologia do mercado financeiro, Marks diz que – por ganância ou falta de informação – muitos olharam apenas os altos retornos, ignoraram os riscos e se decepcionaram quando aconteceu o que é esperado de tempos em tempos: os ciclos de baixa.
“Na vida real, as coisas variam entre razoáveis e medianas, mas na cabeça dos investidores, elas vão de perfeitas a desesperadoras.”
Na expansão do crédito privado que ocorreu depois da crise de 2008, com os bancos se retraindo devido às mudanças regulatórias, o segmento que mais cresceu foi o direct lending: empréstimos feitos geralmente para empresas de médio porte, investidas de private equity e sem grau de investimento.
Com os juros baixos nos EUA, os retornos oferecidos por essas empresas pareciam cada vez melhores, atraindo quem tinha pouco ou nenhum conhecimento sobre a dinâmica desse mercado.
“O sucesso dos primeiros investidores desperta inveja nos que ficaram de fora, convencendo-os a entrar também. Como escreveu Charles P. Kindleberger: nada perturba mais o bem-estar e o julgamento de alguém do que ver um amigo ficar rico,” escreveu Marks.
As limitações de liquidez do crédito privado, o alto risco de algumas emissões e a falta de clareza sobre a precificação dos ativos deveriam ser pontos de atenção conhecidos pelos investidores, disse o gestor – assim como as possíveis implicações da AI para a indústria de software, a maior exposição setorial das BDCs.
“Mas as pessoas podem não ter feito perguntas suficientes ou prestado atenção durante os bons tempos… as usual,” escreveu. “A questão crucial — raramente levantada por investidores eufóricos — é qual preço é seguro pagar para participar.”
Para o co-fundador da Oaktree, “o ditado mais importante nos investimentos é: ‘o que o homem sábio faz no começo, o tolo faz no final.’ Warren Buffett disse de forma mais divertida: ‘primeiro o inovador, depois o imitador, depois o idiota’.”
“Os que chegam por último aceitam promessas, adotam padrões baixos e elevam os preços, fazendo com que a maioria das tendências vá longe demais.”
Apesar desta visão desapaixonada sobre o comportamento dos investidores, Marks não vê um colapso do direct lending.
“As disrupções e manchetes são, em grande parte, resultado de fluxos e sentimento de mercado, e não de uma deterioração efetiva do crédito,” escreveu ele.
Na visão do gestor, esse segmento pode se comportar como o high yield nos anos 1980 e 1990. Na época, esses papéis eram uma inovação, e “muitos investidores exageraram”.
“O mercado foi abalado por uma guerra no Oriente Médio, e os investidores correram para vender”, afirmou. “Substitua high yield por direct lending, adicione a disrupção tecnológica — e temos dinâmicas semelhantes (incluindo tensões geopolíticas).”
O high yield não só sobreviveu como prosperou, e o mesmo pode acontecer com o direct lending, disse Marks. Mas pode precisar passar por um ciclo de crédito antes de chegar a um ponto mais saudável.




