A inteligência artificial construiu os primeiros resultados na Cury. Um agente adotado pela construtora na área de cobrança recuperou cerca de R$ 700 mil em seu primeiro mês de operação. O valor, embora pareça pequeno, equivale ao que uma equipe formada por quatro profissionais conseguia obter no mesmo período.
Em funcionamento desde março, o sistema de IA entra em contato com clientes que possuem saldo devedor, conduz a negociação de acordo com as políticas e campanhas da Cury e acompanha a realização dos pagamentos. A tecnologia também amplia a janela de atendimento: se o cliente quiser negociar fora do horário comercial, o agente consegue conduzir a conversa.
“O agente sozinho fez o valor que as quatro pessoas faziam”, disse Renato Mendonça, superintendente de TI da Cury, em entrevista ao programa Revolução IA, do NeoFeed, que tem apoio da Casas Bahia.
O resultado permitiu à Cury realocar os funcionários para outras áreas da operação. Agora, a companhia pretende expandir o agente para outros grupos de inadimplentes.
A escala ganha relevância diante do tamanho atual da operação. Voltada principalmente ao segmento de baixa renda em São Paulo e no Rio de Janeiro, a Cury encerrou o segundo trimestre de 2026 com receita líquida recorde de R$ 1,69 bilhão, alta de 25,5% sobre igual período do ano anterior.
O lucro líquido atribuído à Cury somou R$ 270,5 milhões, crescimento anual de 14,3%. A margem líquida, porém, recuou de 17,6% para 16%. Já a margem bruta ajustada ficou em 39,8%, praticamente estável na comparação anual.
A companhia produziu 5.737 unidades entre abril e junho, avanço de 41,8%, e encerrou o período com um banco de terrenos de R$ 26,1 bilhões em VGV potencial. A geração de caixa cresceu 40,2%, para R$ 144,9 milhões, marcando o 29º trimestre consecutivo no campo positivo.
Na outra ponta, as vendas líquidas recuaram 9,5% em relação ao segundo trimestre de 2025, para R$ 2,05 bilhões. Do total vendido no período, 95,8% correspondia a imóveis com preço de até R$ 600 mil.
Apesar de autônomo em parte da jornada, segundo Mendonça, o agente de cobrança não trabalha sem supervisão. Durante a implantação, a equipe acompanhava diariamente as respostas enviadas, as negociações conduzidas e a conversão alcançada. Esse monitoramento passou a fazer parte da rotina dos profissionais, enquanto a ferramenta assumiu uma parcela do trabalho manual.
“Não é só colocar um agente de inteligência artificial e achar que ele vai substituir tudo, que o processo está resolvido e nunca mais precisa ser revisitado. Pelo contrário”, explicou Mendonça.
A primeira iniciativa de IA da Cury, porém, nasceu em 2023, na área de desenvolvimento de produtos, e foi implementada ao longo de 2024. Antes, a elaboração de uma alternativa para um empreendimento podia consumir entre um dia e meio e dois dias. Agora, o sistema produz, em cerca de 15 minutos, mais de 100 possibilidades e apresenta um ranking das opções consideradas mais adequadas.
O modelo leva em conta parâmetros urbanísticos de São Paulo e do Rio de Janeiro, além das características dos produtos da construtora, e a escolha final permanece nas mãos dos profissionais.
“A inteligência artificial é um copiloto. O humano está no centro, tem a estratégia e opera esses agentes para ganhar escala e eficiência”, afirmou o superintendente de TI da Cury.
Construtora AI First
A construtora também começou a capacitar funcionários das áreas de negócio para desenvolver protótipos e aplicações mesmo sem domínio avançado de programação. A experiência foi usada no Inova Cury, programa interno de empreendedorismo, no qual os participantes transformaram ideias em produtos mínimos viáveis antes de apresentá-las ao conselho da companhia.
A estratégia de inovação avança em uma empresa que encerrou junho com R$ 1,63 bilhão em caixa e equivalentes e dívida bruta de R$ 1,34 bilhão. O caixa líquido era de R$ 290,6 milhões. No primeiro semestre, a receita líquida alcançou R$ 3,3 bilhões, alta de 28,9%, enquanto o lucro atribuído à Cury cresceu 27,3%, para R$ 573,3 milhões.
O próximo passo da IA pode estar justamente onde a tecnologia ainda aparece menos: nos canteiros de obras. Mendonça acredita que robôs e sistemas automatizados chegarão à construção civil no médio e longo prazo, em um movimento semelhante ao vivido pela indústria. “Não acredito que seja ficção científica. Isso vai acontecer”, disse o executivo.




