Apenas 10% dos presidentes de empresas consideram que o atual modelo de negócios de suas companhias permanece adequado às novas demandas do mercado. Os demais avaliam que as estruturas são inadequadas, pouco adequadas ou precisam passar por mudanças significativas, segundo pesquisa da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH Brasil) em parceria com a Empreenda Consultoria em Estratégia Empresarial.
O levantamento ouviu 178 executivos do alto escalão e foi apresentado por Cesar Souza, presidente da Empreenda, durante o 18º Fórum de Presidentes, realizado em 11 de agosto, em São Paulo. A divulgação ocorre em meio às discussões do CONARH 2026, congresso promovido pela ABRH Brasil no São Paulo Expo, com mais de 120 palestrantes, seis espaços de conteúdo e cerca de 300 estandes.
A percepção de defasagem não se restringe aos produtos e serviços oferecidos pelas empresas. Somente cerca de 9% dos entrevistados afirmam que o modelo de gestão adotado por suas organizações é coerente com os desafios atuais.
A capacidade de formar lideranças para os próximos anos também aparece como uma fragilidade. Apenas 9,6% dos executivos dizem dispor de profissionais capacitados, em quantidade e qualidade suficientes, para colocar em prática as estratégias empresariais previstas entre 2027 e 2030.
“O problema se torna ainda mais relevante em empresas familiares, nas quais a sucessão costuma estar diretamente associada à continuidade do negócio”, destacou César Souza, especialista em processos de mentoria e sucessão em companhias familiares.
A dificuldade de conduzir a sucessão executiva foi mencionada por 47% dos participantes entre os fatores que mais preocupam os presidentes. A escassez de talentos qualificados lidera a lista, citada por 64%. Os resultados colocam a gestão de pessoas no centro da estratégia corporativa, em um cenário marcado pela disputa por profissionais especializados e pela necessidade de desenvolver novas competências. “Capital humano tornou-se um risco estratégico de primeira ordem”, disse Leyla Nascimento, presidente da ABRH Brasil.
As inquietações da alta liderança também alcançam o ambiente institucional brasileiro. Para 75% dos entrevistados, a falta de um plano de longo prazo para o país representa o principal risco nacional. A insegurança jurídica e as mudanças abruptas nas regras foram apontadas por 56%, enquanto 48% mencionaram a crise de governabilidade e a polarização política.
Os dados indicam que os executivos associam a qualidade do ambiente de negócios não somente às condições macroeconômicas, mas também à estabilidade regulatória e institucional. “A ansiedade não é apenas com o tamanho do PIB, mas também com a falta de regras estáveis e de um Projeto de País de longo prazo”, afirmou Nascimento.
IA nas empresas
Embora ocupe espaço crescente nos debates sobre produtividade e futuro do trabalho, a inteligência artificial ainda se encontra em estágio inicial na maior parte das organizações pesquisadas. Cerca de 65% das empresas estão começando a explorar a tecnologia ou desenvolvendo projetos-piloto. Apenas 10% afirmam já ter incorporado a IA à estratégia empresarial.
O resultado expõe um descompasso entre o diagnóstico dos presidentes e as ações adotadas pelas companhias. Enquanto nove em cada dez reconhecem a necessidade de transformar seus negócios, poucas organizações integraram a tecnologia de maneira estratégica aos processos e à gestão.
Para os executivos, o desafio dos próximos anos será combinar crescimento em um ambiente econômico incerto com mudanças simultâneas em estratégia, pessoas, tecnologia e capacidade de adaptação.
“A pesquisa mostra que necessitamos repensar a proposta de valor da maioria das nossas empresas, sob pena de ficarem obsoletas e terem seu prazo de validade vencendo em breve”, completou Souza.




