A expansão das montadoras chinesas no Brasil está obrigando fabricantes tradicionais a rever preços, margens e estratégias comerciais. Com veículos equipados com novas tecnologias e vendidos por valores competitivos, empresas como BYD e GWM avançam no mercado nacional e ampliam a concorrência com marcas europeias, americanas e japonesas.
Na avaliação do economista Charles Mendlowicz, sócio da consultoria de gestão de patrimônio Ticker Wealth e criador do canal Economista Sincero, a reação das empresas instaladas há mais tempo no País expõe fragilidades acumuladas pelo setor, como a baixa capacidade de inovação e a manutenção de margens elevadas.
“Os chineses estão colocando a indústria nacional contra a parede. Quando eu vejo um desconto de R$ 60 mil ou R$ 70 mil, eu penso que essas fábricas não estão vendendo para o consumidor com prejuízo. A verdade é que as margens usadas até então estavam exageradas. A indústria parou no tempo em relação à qualidade e tecnologia, mas o preço correu solto”, avalia.
A competitividade dos veículos chineses, segundo Mendlowicz, está associada à escala de produção, ao domínio de diferentes etapas da cadeia de fornecimento e aos incentivos concedidos pelo governo do país asiático.
“A China dominou toda a cadeia dos componentes com uma escala colossal. É por isso que os carros são baratos, fora o subsídio do governo. Trata-se de uma política de inundar os países com veículos chineses”, afirmou Mendlowicz.
O movimento também se insere na disputa comercial e tecnológica entre China e Estados Unidos. Enquanto o governo norte-americano adota barreiras para limitar a entrada desses automóveis, mercados emergentes como o Brasil ganham importância nos planos internacionais das fabricantes. “O movimento pressiona diretamente marcas europeias, americanas e japonesas”, destacou Charles.
A transição dos motores a combustão para sistemas elétricos e híbridos deslocou parte relevante da competição para as baterias, um dos componentes mais caros desses veículos. Embora os recursos tecnológicos despertem o interesse dos consumidores, Mendlowicz recomenda cautela diante da quantidade de fabricantes que começam a operar no País.
“Não acho que todas essas marcas vão ficar no Brasil. Se nem todas ficarem, o consumidor poderá ter problemas no futuro. O carro pode precisar de peças fora de estoque no País, ou de um suporte pós-venda que, se a MARCA for embora, será inexistente. O risco é ficar sem alternativa viável e ter que mandar o carro para um desmanche”, alertou.
A eventual saída de empresas pode dificultar o fornecimento de componentes, a realização de reparos e a manutenção das garantias. Esse cenário também tende a influenciar o valor de revenda dos automóveis e a confiança do consumidor em marcas ainda pouco conhecidas no mercado brasileiro.
Demanda por galpões
Os efeitos da expansão chinesa não se limitam às concessionárias e aos preços dos veículos novos e seminovos. O aumento das importações de automóveis e componentes exige estoques maiores, centros de distribuição, oficinas especializadas e redes de suporte técnico próximas aos principais mercados consumidores.
Essa reorganização pode beneficiar empreendimentos imobiliários voltados à logística e, consequentemente, fundos de investimento imobiliário com exposição a galpões. “Pode afetar também alguns investimentos. Ninguém fala sobre isso, mas alguns fundos imobiliários podem ter alguma vantagem. Tem fundos imobiliários que alugam espaço para empresas que fazem parte da cadeia desses veículos, como uma distribuidora de peças da BYD, que é locatária de fundos como BTLG11 e HGLG11”, explicou o economista.
De acordo com Mendlowicz, os possíveis beneficiários incluem fundos com imóveis logísticos de alto padrão, classificados como prime, capazes de atender montadoras e fornecedores que precisam distribuir peças com rapidez nas proximidades dos grandes centros urbanos. Segundo ele, esses ativos “capturam a demanda de novas montadoras e fornecedores de autopeças necessitando de pontes de distribuição rápida próximo aos grandes centros urbanos”.
Apesar das oportunidades, a fragmentação do setor representa um risco. Se parte das novas fabricantes não consolidar suas operações, imóveis e estruturas montados para atender essas empresas poderão enfrentar redução de demanda, enquanto consumidores terão dificuldades para encontrar peças e assistência técnica.
Para Mendlowicz, porém, a intensificação da concorrência e a revisão das estratégias comerciais constituem movimentos duradouros. “O modelo de negócio que dominou o Brasil no último século ficou para trás. O mercado mudou e nunca mais será o mesmo”, conclui.




