23.6 C
São Paulo
domingo, julho 26, 2026

“Molecagem” de Trump no Irã ameaça cadeias globais e eleva risco de recessão

DEVE LER



A escalada do conflito envolvendo o Irã consolidou um novo regime de risco nos mercados globais. O que começou como um episódio geopolítico localizado rapidamente passou a ser precificado como um choque sistêmico, com impacto direto sobre energia, cadeias de suprimentos, inflação e crescimento. Instituições como Goldman Sachs e JP Morgan já trabalham com cenários de guerra prolongada, com duração potencial de meses ou anos.

Na prática, o mercado já começou a reagir. Na última semana, os principais índices acionários globais operaram em queda, refletindo o aumento da aversão ao risco e o rebalanceamento de carteiras em escala global. O Nasdaq recuou 1,3% e o S&P 500 caiu 1,4%, enquanto o Ibovespa apresentou queda de 0,5%, aos cerca de 179 mil pontos, ainda acumulando alta de 10,8% em 2026.

O movimento foi acompanhado por valorização do dólar frente ao real, com alta de 0,6%, levando a cotação a R$ 5,29. No exterior, o índice DXY avançou 1,6%, evidenciando a busca por ativos considerados mais seguros.

O epicentro do risco segue concentrado no Golfo Pérsico. O Irã detém cerca de 9% das reservas globais de petróleo e está inserido em uma região por onde passa aproximadamente 20% do petróleo e gás comercializados no mundo.

A interrupção quase total da navegação no Estreito de Ormuz e a paralisação de operações energéticas já começaram a impactar diretamente os preços. Na última semana, o petróleo avançou 7,7%, com o WTI próximo de US$ 98,50, consolidando a incorporação de prêmio geopolítico relevante.

Para Olívia Flôres de Brás, CEO da Magno Investimentos, o movimento reflete uma mudança estrutural na leitura de risco. “O mercado deixa de discutir narrativas e passa a recalibrar prêmio de risco quando o epicentro do conflito está diretamente conectado ao fluxo global de energia”, disse.

Esse diagnóstico é reforçado por Fatih Birol, diretor-executivo da Agência Internacional de Energia, que tem alertado para a vulnerabilidade do sistema energético global. Segundo ele, choques prolongados no Oriente Médio podem gerar não apenas volatilidade de preços, mas desorganização física do abastecimento, especialmente em economias dependentes de importação.

Já Kristalina Georgieva, diretora-geral do Fundo Monetário Internacional, tem destacado que o aumento das tensões geopolíticas representa um dos principais riscos para o crescimento global no curto e médio prazo. Em recentes declarações, ela afirmou que choques simultâneos de energia e comércio podem comprometer a recuperação econômica e reacender pressões inflacionárias.

A alta do petróleo é apenas o primeiro estágio de transmissão do choque. A elevação dos custos energéticos se espalha rapidamente por toda a economia, pressionando transporte, logística e produção industrial.

“Há um efeito dominó: energia mais cara, transporte mais caro, logística mais cara e, no final da cadeia, produtos mais caros para o consumidor”, afirmou o especialista Daniel Toledo, advogado especializado em direito internacional e análise geopolítica.

Com cerca de 80% do comércio global dependente de rotas marítimas, a instabilidade no Oriente Médio tem potencial de desorganizar fluxos logísticos em escala global.

O economista americano Jeffrey Sachs reforça que o risco é sistêmico. Em sua avaliação, a combinação entre bloqueio de rotas e destruição de infraestrutura energética pode desencadear uma crise econômica de grande escala. “O risco de calamidade global está absolutamente crescendo dia após dia”, afirmou. Sachs classificou a ação de Trump no Irã como uma “molecagem irresponsável e mal calculada”.

Os dados recentes da economia americana já indicam perda de tração em um momento sensível. O PIB do quarto trimestre de 2025 avançou 0,7%, abaixo do esperado, enquanto os pedidos de bens duráveis frustraram expectativas. O PCE avançou 0,3%, mantendo a inflação em patamar que limita a atuação do Federal Reserve.

Esse cenário se conecta diretamente com o alerta feito por Mohamed El-Erian, que tem defendido que choques geopolíticos recentes aumentam o risco de uma “nova fase de inflação estrutural”, dificultando o trabalho dos bancos centrais e elevando a probabilidade de erros de política monetária.

No Brasil, o impacto já começa a ser precificado. O IPCA de fevereiro subiu 0,70%, acima do esperado, enquanto os contratos de DI passaram a incorporar prêmios relevantes ao longo de toda a curva, refletindo maior percepção de risco.

Nos bastidores, cresce a avaliação de que houve um erro estratégico relevante na condução inicial do conflito. A expectativa de uma resposta limitada do Irã não se confirmou, abrindo espaço para um conflito assimétrico e prolongado.

Sachs aponta improvisação e excesso de confiança como fatores centrais para a escalada, elevando o risco de desdobramentos fora de controle.

Esse cenário amplia a probabilidade de envolvimento indireto de outros países da região, prolongando o conflito e seus impactos econômicos.

Risco de recessão global e inflexão estrutural

A combinação de choque energético, disrupção logística, aperto financeiro e instabilidade geopolítica sustenta uma avaliação crescente de risco de recessão global entre 2026 e 2027.

Para economias emergentes, como o Brasil, os efeitos são ambíguos. Há ganhos potenciais com commodities, mas também pressões inflacionárias, volatilidade cambial e aumento de custos.

“A economia global está profundamente conectada. Os reflexos acabam chegando inevitavelmente ao consumidor final”, afirmou o empresário Beny Fard, empresário iraniano radicado no Brasil e especialista em geopolítica e macroeconomia.

No limite, o conflito expõe fragilidades estruturais do modelo de globalização baseado em cadeias longas e altamente dependentes de estabilidade geopolítica.

Se os cenários de longa duração se confirmarem, a guerra no Irã pode marcar não apenas um ciclo recessivo, mas uma inflexão estrutural na economia global, acelerando a transição para cadeias mais regionalizadas, menos eficientes e estruturalmente mais caras.






Fonte Link

- Publicidade -spot_img

Mais Artigos

- Publicidade -spot_img

Último Artigo