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domingo, agosto 2, 2026

Menos COP, mais ação: a nova diplomacia do clima na governança global

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A diplomacia climática global começa a mudar de eixo. Diante do recorrente impasse nas negociações da COP, a conferência climática da ONU, sempre prejudicadas pelo veto de grandes emissores, alguns países estão migrando para arranjos menores, mais alinhados e orientados à execução.

O Summit de Santa Marta, que reuniu, na Colômbia, 57 nações responsáveis por cerca de um terço do PIB global, evidenciou essa virada ao testar, na prática, uma diplomacia baseada em coalizões para acelerar a saída dos combustíveis fósseis. Ao priorizar a implementação em detrimento do consenso, essas alianças reposicionam a transição energética como agenda de competitividade, segurança e resiliência econômica, abrindo caminho para um novo desenho de poder climático global.

A ideia do summit, realizado entre os dias 24 e 29 de abril, surgiu durante a COP30, que aconteceu em Belém, em novembro. Na conferência brasileira, mais de 80 países tentaram, sem sucesso, incluir no texto final um roadmap para a saída dos combustíveis fósseis. Diante do impasse, Colômbia e Holanda articularam um fórum paralelo para levar adiante essa agenda fora do ambiente travado da ONU.

Grandes emissores ficaram de fora do summit, reduzindo o risco de veto. As discussões ocorreram em sessões fechadas, com formato menos protocolar e foco em decisões operacionais. Em vez de declarações amplas, o summit estruturou três frentes concretas de trabalho: roadmaps nacionais, reforma do sistema financeiro e transição do comércio, com mandato de implementação até 2027.

O modelo gerou resultados. A França detalhou um plano escalonado para eliminar o carvão até 2030, o petróleo até 2045 e o gás até 2050, com o fim da produção doméstica já em 2040. A Nigéria adotou um tom mais cauteloso, defendendo uma transição “gerenciável e politicamente viável”, refletindo a dependência do petróleo, que responde por cerca de 80% de suas exportações.

Já o Brasil indicou que trabalha em um esforço interministerial para reduzir a dependência do óleo, enquanto Tuvalu e Irlanda sinalizaram que irão aprimorar o desenho institucional do processo ao preparar a próxima edição do summit, em 2027.

O lançamento de um painel científico independente, com capacidade de produzir análises mais ágeis do que o IPCC, reforça a tese e indica a tentativa de acelerar a base técnica das decisões. O Science Panel for Global Energy Transition será liderado por Johan Rockström e Carlos Nobre, dois dos principais nomes da ciência climática global, e operará a partir da Universidade de São Paulo, reforçando o papel do Brasil como hub técnico na nova arquitetura da diplomacia climática.

A visão europeia

Wopke Hoekstra, comissário europeu para o clima, net zero e crescimento limpo, tornou-se uma das vozes mais diretas na crítica ao modelo multilateralista que rege a diplomacia climática. À frente da estratégia da União Europeia, ele sustenta que o formato atual das COPs não tem sido capaz de entregar respostas na velocidade exigida pela transição energética e pela crise de segurança energética global.

Segundo Hoekstra, o desenho das COPs, baseado em consenso universal, cria um sistema em que “a única coisa que conseguimos é o menor denominador comum”, já que qualquer país pode bloquear avanços mais ambiciosos. Ele descreve o processo como excessivamente marcado por disputas políticas e ajustes de última hora, com pouca capacidade de gerar implementação concreta.

Para o comissário, esse modelo precisa ser revisto para que a conferência deixe de ser apenas um espaço de negociação e passe a funcionar como instrumento de execução.

Hoekstra defende o avanço de coalizões menores e mais alinhadas, capazes de transformar compromissos em políticas efetivas. A leitura é pragmática: a transição energética não será destravada por acordos amplos e genéricos, mas por grupos de países dispostos a avançar em instrumentos concretos, como precificação de carbono e eletrificação.

Ao afirmar que “não é possível chegar a 90% de redução de emissões até 2040 sem eliminar radicalmente os combustíveis fósseis”, ele desloca o debate do campo diplomático para a realidade econômica, reforçando a ideia de que a nova diplomacia climática será guiada menos pelo consenso e mais pela execução.

O Brasil e seu soft power

O Brasil participou do Summit de Santa Marta alinhado a esse novo arranjo, integrando o grupo de países que optou por avançar na agenda de transição fora do impasse multilateral. No encontro, o país sinalizou que trabalha em um esforço interministerial, envolvendo as áreas de energia, fazenda e meio ambiente, para acelerar a redução da dependência do petróleo e estruturar seu próprio roadmap de transição.

A presença brasileira também reflete o papel que o país passou a desempenhar após a COP30, funcionando como ponte entre o processo formal da ONU e essas novas coalizões mais ágeis.

Essa posição foi sintetizada por Ana Toni, diretora-executiva da COP30, ao destacar que acelerar a implementação deixou de ser apenas uma necessidade ambiental. “Uma implementação rápida não é apenas vital para combater a mudança do clima, mas também para a segurança energética, a soberania e especialmente para a paz”, afirmou.

A fala resume o reposicionamento estratégico do Brasil nesse novo cenário, em que a diplomacia climática se reorganiza menos em torno de grandes consensos e mais a partir de alianças capazes de transformar compromissos em execução.






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