A corrida global pela inteligência artificial está provocando uma mudança significativa nas prioridades das grandes empresas e já começa a influenciar diretamente o mercado de fusões e aquisições (M&As). Um levantamento global da PwC aponta que companhias de diversos setores estão direcionando volumes crescentes de capital para infraestrutura tecnológica, reduzindo temporariamente o apetite por operações corporativas.
O movimento ocorre em meio à necessidade de construir a base tecnológica que sustentará a próxima geração de negócios digitais. Segundo o estudo, estimativas de mercado indicam que entre US$ 5 trilhões e US$ 8 trilhões deverão ser investidos nos próximos cinco anos em infraestrutura e tecnologias ligadas à inteligência artificial. O valor supera com ampla margem os cerca de US$ 3,5 trilhões movimentados globalmente em fusões e aquisições ao longo de 2025.
A diferença ajuda a explicar por que muitas organizações, mesmo diante de um cenário de liquidez, têm optado por uma postura mais cautelosa em relação à compra de empresas. Antes de buscar expansão por meio de aquisições, a prioridade passou a ser a adaptação ao novo ambiente tecnológico.
Para o conselheiro estratégico em fusões e aquisições Rodrigo Baraldi, o fenômeno não representa uma retração estrutural do mercado, mas uma mudança temporária na destinação dos recursos corporativos.
“Não se trata de uma desaceleração estrutural do M&A, mas de uma realocação temporária de capital. As empresas estão priorizando investimentos que garantam competitividade no novo ciclo tecnológico”, afirmou.
Na avaliação do especialista, a inteligência artificial deixou de ser uma aposta experimental para se tornar um componente indispensável da estratégia empresarial.
“A IA deixou de ser uma frente experimental e passou a ser infraestrutura essencial. Sem isso, qualquer estratégia de expansão via aquisições perde eficiência”, completou.
A transformação reflete uma mudança mais ampla no comportamento corporativo. Se, até poucos anos atrás, os investimentos em tecnologia eram vistos como uma forma de aumentar produtividade ou reduzir custos, agora eles passaram a ser encarados como condição básica para a sobrevivência e competitividade dos negócios.
Nova fase para o mercado de M&As
Apesar da desaceleração observada no curto prazo, o próprio levantamento da PwC aponta que a inteligência artificial deverá atuar como um dos principais motores de crescimento das fusões e aquisições nos próximos anos.
A expectativa é que os ganhos de produtividade, a digitalização acelerada dos processos e o surgimento de novos modelos de negócio impulsionem uma nova onda de consolidação empresarial. Nesse cenário, companhias buscarão adquirir competências tecnológicas, acesso a dados estratégicos e equipes especializadas para acelerar sua transformação digital.
Os sinais desse movimento já aparecem nas maiores negociações realizadas recentemente. De acordo com o estudo, aproximadamente um terço das 100 maiores transações corporativas concluídas em 2025 mencionou a inteligência artificial como elemento central da estratégia de negócio. Em setores como tecnologia, manufatura e energia, a presença do tema foi ainda mais relevante.
No segmento tecnológico, praticamente todas as grandes operações realizadas no período tiveram alguma relação direta com inteligência artificial, seja por meio da aquisição de plataformas, desenvolvimento de soluções proprietárias ou incorporação de talentos especializados.
Para Baraldi, os dados mostram que a lógica das operações corporativas está mudando de forma profunda.
“Estamos vendo uma mudança no racional das operações. As aquisições deixam de ser apenas sobre escala ou market share e passam a ser sobre capacidade tecnológica, acesso a dados e talento especializado”, explicou.
Essa transformação tende a ampliar a distância entre empresas capazes de financiar internamente grandes projetos de inteligência artificial e aquelas que precisarão buscar conhecimento e tecnologia por meio de aquisições.
Segundo o especialista, esse cenário pode desencadear uma nova rodada de consolidação em diversos setores da economia, especialmente entre empresas tradicionais que precisam acelerar sua modernização.
“Isso pode gerar um novo ciclo de consolidação, especialmente em setores mais tradicionais, que precisarão se reinventar rapidamente”, disse.
Preparação para um novo ciclo de crescimento
Embora o mercado global de fusões e aquisições enfrente um período de relativa moderação, o pano de fundo é de preparação para uma nova etapa de expansão. A inteligência artificial não apenas absorve investimentos bilionários em infraestrutura, mas também cria as condições para o surgimento de novas lideranças empresariais e para a reorganização de setores inteiros.
O que hoje parece uma pausa nas negociações pode representar, na prática, uma fase de construção das bases que sustentarão o próximo ciclo de crescimento corporativo. À medida que as empresas concluírem seus investimentos em infraestrutura tecnológica e começarem a capturar ganhos de eficiência, a tendência é que o capital volte a fluir com maior intensidade para operações estratégicas.
Nesse contexto, a inteligência artificial surge simultaneamente como destino dos investimentos atuais e como catalisadora da próxima geração de fusões e aquisições, em um movimento que promete redefinir o mapa corporativo global ao longo da próxima década.




