O aumento dos preços da gasolina nos Estados Unidos em 2026, causado pela guerra contra o Irã, começa a comprometer um dos principais pilares de alívio econômico defendidos pelo ex-presidente Donald Trump em seu novo pacote tributário, conhecido como One Big Beautiful Bill Act. A proposta, que prevê restituições fiscais ampliadas para famílias e empresas, pode ter seu efeito praticamente anulado pelo avanço dos custos com combustíveis ao longo do ano, segundo especialistas. O preço da gasolina nos Estados Unidos subiu 21% em março deste ano, atingindo patamares superiores a US$ 3,70 (R$ 19,60) o galão, em média. Em litros, o valor é equivalente a R$ 5,20 – preço considerado muito elevado para os padrões americanos.
De um lado, o pacote republicano busca devolver renda ao contribuinte por meio de cortes e reembolsos de impostos. De outro, a elevação no preço da gasolina, item de alta recorrência no consumo das famílias americanas, corrói esse ganho ao pressionar despesas mensais obrigatórias, especialmente em um país fortemente dependente do transporte rodoviário.
Segundo a economista Claudia Sahm, ex-diretora do Federal Reserve, “quando os custos com energia sobem, eles funcionam como um imposto regressivo imediato, reduzindo a eficácia de qualquer estímulo fiscal voltado ao consumo”. Para ela, a volatilidade dos preços da gasolina tem potencial de neutralizar políticas de transferência de renda no curto prazo.
O movimento ocorre em um contexto de maior volatilidade no mercado global de energia. Tensões geopolíticas, restrições de oferta e ajustes na produção por grandes exportadores têm mantido os preços do petróleo em patamares elevados, com reflexo direto nas bombas. Nos Estados Unidos, onde a gasolina possui forte sensibilidade política e econômica, esse fator tende a influenciar não apenas o consumo, mas também o humor do eleitorado.
Para Jason Furman, ex-presidente do Conselho de Assessores Econômicos da Casa Branca, “o impacto de um corte de impostos depende do que acontece com os preços dos bens essenciais. Se energia e alimentos sobem, o ganho real das famílias pode desaparecer rapidamente”. Ele acrescenta que políticas fiscais expansionistas enfrentam limitações quando pressionadas por choques de oferta.
Além disso, o efeito distributivo da medida levanta questionamentos. Famílias de renda mais baixa, que destinam parcela maior do orçamento a gastos essenciais como transporte e energia, tendem a ser mais impactadas pela alta da gasolina. Isso significa que, mesmo com restituições fiscais, o ganho real pode ser limitado ou inexistente para essa parcela da população.
Na avaliação de Mark Zandi, economista-chefe da Moody’s Analytics, “a inflação de energia tem um efeito desproporcional sobre as famílias de menor renda e pode anular rapidamente os benefícios de políticas fiscais expansionistas, especialmente quando essas políticas não são direcionadas”.
No campo político, a possível neutralização dos efeitos do One Big Beautiful Bill Act adiciona complexidade ao discurso econômico de Trump. Embora o pacote tenha sido concebido como instrumento de estímulo à renda e ao crescimento, seu impacto prático dependerá, em grande medida, de variáveis externas, especialmente o comportamento dos preços de energia.
Para o mercado, o episódio reforça a interdependência entre política fiscal e dinâmica de commodities. Para os consumidores, evidencia uma realidade mais imediata. Mesmo diante de alívio tributário, o custo de vida segue condicionado por fatores que escapam ao controle direto do governo.




