As categorias de base ocupam um espaço cada vez mais relevante no planejamento financeiro dos clubes de futebol. Além de abastecer as equipes profissionais e permitir a negociação de jogadores, a formação de talentos pode gerar receitas durante diferentes momentos da carreira dos atletas, especialmente por meio dos mecanismos de recompensa administrados pela FIFA.
Essa fonte de recursos ganhou maior previsibilidade após a implantação, em novembro de 2022, do FIFA Clearing House, conhecido pela sigla FCH. A plataforma foi criada para centralizar, processar e automatizar os pagamentos devidos às instituições formadoras. Nos dois primeiros anos de funcionamento, o sistema identificou US$ 356,4 milhões em direitos, dos quais US$ 156,6 milhões foram processados e destinados a mais de mil clubes.
A FIFA utiliza dois instrumentos principais para remunerar as equipes que contribuíram para o desenvolvimento de jogadores. A compensação por formação é paga em situações previstas nos regulamentos da entidade. Já o mecanismo de solidariedade estabelece que até 5% do valor de uma transferência internacional seja distribuído entre os clubes pelos quais o atleta passou dos 12 aos 23 anos.
Com a centralização dos procedimentos, se tornou mais fácil reconhecer as instituições envolvidas na trajetória de cada jogador e direcionar os valores correspondentes. O processo utiliza o Electronic Player Passport, documento digital que reúne o histórico esportivo do atleta e identifica as equipes responsáveis por sua formação. Desde a implantação da plataforma, foram gerados 36.989 passaportes eletrônicos.
O Brasil acumula saldo líquido positivo de US$ 6,8 milhões em recompensas desde o início do projeto e aparece entre os países que mais receberam recursos relacionados à formação. O resultado evidencia como a revelação de jogadores pode se transformar em uma fonte adicional de receita para equipes de diferentes portes.
No Cuiabá, a base é tratada como um projeto permanente, que depende de infraestrutura e acompanhamento em todas as fases da evolução dos jovens. A expectativa de retorno financeiro surge como consequência de um trabalho voltado inicialmente ao amadurecimento esportivo e pessoal do atleta.
“Investir na formação de atletas é um trabalho de longo prazo e exige uma estrutura preparada para acompanhar todas as etapas do desenvolvimento do jogador. O objetivo não é apenas revelar um talento, mas oferecer condições para que ele evolua dentro e fora de campo e esteja preparado para chegar ao futebol profissional. Quando esse processo é bem estruturado, o clube consegue gerar um valor esportivo e, consequentemente, também pode obter um retorno financeiro que contribua para a continuidade do próprio projeto”, afirmou Cristiano Dresch, presidente do Cuiabá.
As receitas obtidas com a base não se limitam à negociação inicial de um jogador. Dependendo de sua trajetória, o atleta pode continuar gerando pagamentos às instituições que participaram de seu desenvolvimento, inclusive em transferências realizadas anos depois de sua saída.
Para Pedro Weber, sócio-fundador da Chenus Holdings e CEO da Nextplay, empresa em processo de aquisição da SAF do Paraná Clube, a capacidade de capturar esse valor depende de planejamento e profissionalização. A identificação de jovens promissores, segundo ele, precisa estar associada a procedimentos capazes de acompanhar toda a cadeia de desenvolvimento.
“Os avanços nos mecanismos de recompensa mostram que a formação de atletas precisa ser acompanhada por uma gestão cada vez mais profissional. Não basta identificar um talento e esperar uma valorização no mercado. É necessário estruturar os processos e entender que cada etapa de desenvolvimento pode contribuir para construção de valor dentro de um projeto esportivo. Essa visão permite que os clubes tenham maior previsibilidade e estejam preparados para aproveitar as oportunidades que surgem ao longo da carreira de um jogador”, afirmou Weber.
O modelo também beneficia instituições que raramente aparecem como protagonistas das grandes transações do futebol. Embora não participem diretamente das negociações, esses clubes podem ter direito a uma parcela dos valores por terem contribuído para a preparação dos atletas.
No Inter de Minas, a expectativa é que os recursos recebidos sejam destinados à melhoria da infraestrutura e à continuidade do trabalho com novos jogadores. A remuneração reconhece a participação das equipes menores e ajuda a financiar as etapas seguintes do projeto.
“Para clubes que trabalham diretamente com a formação de atletas, os mecanismos de compensação e solidariedade representam uma oportunidade de transformar um trabalho de longo prazo em uma fonte de sustentabilidade. Ter um sistema que reconhece essa contribuição e possibilita o retorno financeiro permite que esses recursos sejam reinvestidos na própria formação, ampliando a capacidade de desenvolver novos talentos”, apontou Thiago Gosling, presidente do Inter de Minas.
A qualificação técnica e tática permanece, contudo, como parte central desse processo. A preparação dos jovens precisa considerar as mudanças no futebol profissional e desenvolver competências que permitam ao jogador interpretar diferentes situações, tomar decisões e desempenhar mais de uma função em campo.
Para Roger Machado, treinador e professor da CBF Academy, a transição para o alto rendimento exige coordenação entre metodologia, comissão técnica e departamentos responsáveis pelas categorias inferiores.
“A formação de atletas precisa ser encarada como um processo contínuo, que vai além apenas do desenvolvimento técnico. O jogador deve chegar ao futebol profissional preparado para responder às diferentes exigências do jogo, com capacidade de interpretar cenários, tomar decisões e se adaptar a funções distintas dentro de uma mesma partida. Essa preparação exige integração entre metodologia, comissão técnica e categorias de base, para que a transição ao alto rendimento aconteça de forma gradual e consistente. Quando o clube consegue estruturar esse processo, ele aumenta as chances de revelar atletas competitivos e consegue ir além ao construir um patrimônio esportivo que pode gerar valor ao longo de toda a carreira do jogador”, disse Machado.
Com a evolução das ferramentas da FIFA e a adoção de modelos mais profissionais de gestão, a base passa a ser compreendida como patrimônio esportivo e econômico. O desafio dos clubes é organizar esse potencial em um ciclo sustentável, no qual a revelação de jogadores produza recursos capazes de financiar a estrutura e preparar novas gerações de talentos.




