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sábado, junho 27, 2026

Ekôa Park e a inteligência da natureza como estratégia para o futuro das organizações

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No coração da Grande Reserva Mata Atlântica, o Ekôa Park completa oito anos consolidando um posicionamento que vai além do turismo de experiência. Localizado em Morretes, no Paraná, o espaço tornou-se um laboratório vivo onde conservação ambiental, educação, bioeconomia e inovação organizacional se encontram. Inserido na maior área contínua remanescente de Mata Atlântica do mundo, com cerca de três milhões de hectares distribuídos entre Paraná, Santa Catarina e São Paulo, o parque transformou a floresta em um ambiente de aprendizagem estratégica.

Desde sua criação, em março de 2018, o Ekôa recebeu mais de 60 mil visitantes. Ao longo dessa trajetória, famílias, estudantes, educadores, agentes públicos, empreendedores e lideranças empresariais passaram por experiências que combinam imersão na natureza, aprendizado prático e reflexão sobre novos modelos de organização. O projeto amadureceu e hoje se apresenta como uma plataforma de desenvolvimento humano e organizacional baseada na inteligência dos sistemas naturais.

No centro dessa proposta está a biomimética. O conceito parte da observação da própria vida como fonte de soluções para desafios humanos. A ideia é simples e profunda ao mesmo tempo: se a natureza conseguiu desenvolver sistemas eficientes ao longo de bilhões de anos de evolução, há muito a aprender com esses mecanismos. Popularizada nos anos 1990 pela bióloga norte-americana Janine Benyus, a biomimética ganhou espaço em áreas como engenharia, arquitetura e design. No campo da gestão organizacional, entretanto, ainda é uma fronteira em expansão. É justamente nesse território que o Ekôa passou a atuar com mais intensidade.

Desde 2019, quando o parque estruturou de forma sistemática suas formações inspiradas na biomimética, mais de 70 empresas participaram de jornadas imersivas no local. Cerca de três mil profissionais já passaram por essas experiências voltadas ao fortalecimento de liderança, colaboração, visão sistêmica e capacidade de adaptação. Considerando todos os eventos corporativos realizados desde a criação do parque, já são mais de 150 encontros e mais de 5.500 lideranças impactadas.

Somente em 2024, o Ekôa realizou mais de 60 eventos corporativos, reunindo aproximadamente duas mil pessoas e mais de 60 empresas. Entre elas estão organizações como Grupo Boticário, Volvo, Renault, Electrolux, Sumitomo, EBANX, Cargill, SEBRAE, General Motors e Fundação Grupo Boticário.

Para Tatiana Perim, diretora e CEO do Ekôa Park, o diferencial da proposta não está apenas na experiência de imersão na Mata Atlântica, mas na metodologia aplicada. Segundo ela, grande parte das organizações foi estruturada para operar em ambientes lineares, hierárquicos e previsíveis. A natureza, por outro lado, funciona em redes interdependentes, baseadas em cooperação e adaptação constante. Quando esses princípios são traduzidos para o ambiente corporativo, surgem estruturas mais resilientes e integradas.

Formada em Comunicação e Marketing pela University of Miami, com especializações em Business pelo INSPER e em Gestão Ambiental pela Universidade Federal do Paraná, Tatiana aprofundou sua formação em biomimética por meio de cursos internacionais. Para ela, a biomimética não deve ser tratada como inspiração simbólica, mas como método estruturado de pensamento e estratégia.

As experiências realizadas no parque começam com reuniões de briefing aprofundadas com as empresas participantes. A partir da compreensão da cultura organizacional, dos desafios estratégicos e da linguagem interna de cada companhia, são desenhadas jornadas formativas personalizadas.

Modelos naturais como as micorrizas, redes subterrâneas de cooperação entre fungos e raízes, colmeias, fluxos de rios e fragmentos de áreas naturais tornam-se metáforas vivas para discutir colaboração, comunicação eficiente e gestão sistêmica. Esses elementos permitem transformar conceitos abstratos em experiências concretas.

Em uma atividade realizada com a Sumitomo, uma das maiores empresas japonesas de comércio e investimentos globais, os participantes construíram coletivamente um terrário dentro da companhia. O pequeno ecossistema passou a simbolizar internamente a interdependência entre áreas da organização e tornou-se um lembrete permanente da importância de integração, diversidade e uso equilibrado de recursos.

Na Renault, a experiência gerou mudanças simbólicas e práticas. Departamentos passaram a ser chamados de ecossistemas, enquanto estratégias internas foram estruturadas para conectar diferentes fragmentos organizacionais, reforçando a integração entre áreas e regiões.

O impacto dessas vivências também se reflete no campo do desenvolvimento humano e organizacional. Para Halana Salvadori Chornobay, analista de Desenvolvimento Humano e Organizacional da JNS Seguradora, a experiência representou uma mudança de perspectiva. Segundo ela, o encontro com os princípios da natureza permitiu observar os desafios cotidianos sob novas lentes e compreender que soluções mais humanas e inteligentes surgem quando há reconexão com os sistemas naturais.

Em 2025, o Ekôa inaugurou um novo centro de eventos corporativos, ampliando sua infraestrutura voltada à formação de lideranças. O espaço ocupa uma casa construída nos anos 2000 e reformada para integrar tecnologia, conforto e paisagem natural. O auditório possui capacidade para cem pessoas e é acompanhado por salas menores e ambientes envidraçados voltados para a floresta.

A proposta é criar condições que favoreçam estados mentais mais criativos e colaborativos, afastados da lógica acelerada dos escritórios tradicionais. As atividades incluem trilhas sensoriais, desafios colaborativos, práticas de escuta ativa, construções coletivas com técnicas sustentáveis e o voo cativo de balão, utilizado como metáfora para ampliar a visão sistêmica e estimular a tomada de decisões estratégicas.

O impacto do Ekôa, porém, ultrapassa a dimensão corporativa. Inserido na Grande Reserva Mata Atlântica, o parque tornou-se referência em iniciativas que conciliam conservação ambiental, desenvolvimento territorial e geração de valor econômico.

Para Ricardo Borges, coordenador de comunicação e parcerias estratégicas da Grande Reserva Mata Atlântica, o Ekôa representa na prática o conceito de produção de natureza ao demonstrar que conservação, responsabilidade social e viabilidade econômica podem caminhar juntas.

No âmbito local, o reconhecimento também é evidente. O prefeito de Morretes, Junior Brindarolli, afirma que o parque se tornou parte da identidade do município ao valorizar a natureza e promover reflexão ambiental, posicionando a cidade como referência em preservação e turismo responsável.

O secretário municipal de Turismo e Cultura, Gilton Dias Jr., destaca que o empreendimento se integrou ao território de forma respeitosa, gerando oportunidades de trabalho, valorizando a mão de obra local e fortalecendo a comunidade ao longo da Estrada da Graciosa.

O turismo especializado também encontra no parque um ponto estratégico. Segundo Luciano Amaral Breves, que atua há quase duas décadas com observação de aves na Serra do Mar e no Lagamar Paranaense, o Ekôa consolidou-se como um importante hotspot para espécies endêmicas e ameaçadas, ampliando o alcance do turismo de natureza qualificado.

A conexão entre conservação ambiental e empreendedorismo também se expressa nas parcerias com iniciativas ligadas à bioeconomia e à pesca artesanal. Projetos como a Jurema Natural e o empreendimento social Olha o Peixe encontram no parque uma plataforma de visibilidade e fortalecimento.

O oceanógrafo Bryan Renan Müller, fundador do projeto voltado à valorização da pesca artesanal no litoral do Paraná, destaca que a parceria com o Ekôa fortalece não apenas a empresa, mas também a causa da preservação cultural e ambiental da região.

A empreendedora Hannah Alzamora, fundadora da MARCA de biocosméticos Jurema Natural, também ressalta que a colaboração construída desde 2021 se baseia em valores compartilhados, como a valorização da biodiversidade, dos saberes tradicionais e da educação ambiental como ferramenta de transformação.

Em um cenário global marcado por volatilidade, complexidade e rápidas transformações tecnológicas, a capacidade de adaptação tornou-se um fator decisivo para a sobrevivência das organizações. Estudos internacionais apontam que muitas empresas desaparecem justamente por não conseguirem se ajustar a ambientes de mudança acelerada. Nesse contexto, a biomimética surge como um caminho estratégico. Ao observar como ecossistemas lidam com escassez, competição, cooperação e resiliência, organizações podem redesenhar seus próprios sistemas internos.

Ao completar oito anos de atuação, o Ekôa Park se consolida como um território onde natureza e estratégia se encontram. Mais do que um parque, o espaço funciona como um convite à desaceleração e à observação. Em tempos de transformação profunda nas estruturas econômicas e sociais, talvez a inovação mais radical seja reaprender com a inteligência da própria vida.






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