A duplicata escritural está inaugurando uma nova etapa para o crédito empresarial no Brasil. Ao digitalizar e registrar recebíveis em uma infraestrutura regulada, o modelo busca trazer mais segurança, transparência e eficiência para empresas, financiadores e cadeias produtivas.
No podcast Brazil Economy, Rodrigo Caetano conversa com Calil Gedeon, CFO e sócio da Monkey, Fernando Fontes, fundador e CEO da CERC, e Alexandre sobre o avanço da digitalização das duplicatas e o potencial dessa mudança para o acesso ao crédito.
O que é duplicata escritural?
A duplicata é um título de crédito usado para formalizar vendas de produtos ou serviços a prazo entre empresas. Ela representa uma obrigação de pagamento: um fornecedor entrega um bem ou presta um serviço e o cliente realiza o pagamento em uma data futura.
A duplicata escritural é a versão digital desse instrumento. Em vez de depender de processos físicos e descentralizados, as informações da operação passam a ser registradas eletronicamente em entidades autorizadas pelo Banco Central.
Esse registro reúne dados como valor, vencimento, credor, devedor e situação do recebível. Com isso, o ativo ganha mais confiabilidade para ser antecipado, negociado ou usado como garantia em operações de crédito.
Como a duplicata escritural funciona na prática?
A digitalização cria um ambiente no qual fornecedores, empresas pagadoras e agentes financeiros podem operar com informações mais padronizadas e verificáveis.
O fornecedor, também chamado de sacador, emite a duplicata referente à venda realizada. A empresa compradora, ou sacada, pode confirmar ou recusar a obrigação. Uma vez escriturado, o título pode ser usado em uma operação de antecipação de recebíveis ou como garantia para a obtenção de crédito.
A lógica se aproxima de um cartório digital: o registro ajuda a confirmar a existência, a titularidade e a situação daquele ativo. Isso reduz incertezas e melhora a segurança jurídica da operação.
Quais são os benefícios para as empresas?
A principal promessa da duplicata escritural é reduzir a assimetria de informação no mercado de crédito. Hoje, o financiador muitas vezes precisa reunir documentos, validar dados e avaliar riscos com informações incompletas ou pouco padronizadas.
Com um recebível registrado, a análise tende a ser mais segura e ágil. Isso pode beneficiar empresas de diferentes portes.
Para pequenas e médias empresas, o impacto pode ser ainda maior. Muitas possuem vendas a prazo e recebíveis legítimos, mas enfrentam custos elevados ou barreiras para acessar capital de giro. Ao tornar esses ativos mais verificáveis, a nova infraestrutura pode ampliar o interesse de bancos, fundos, fintechs e outros financiadores.
Em um mercado mais competitivo, a expectativa é que as empresas encontrem mais alternativas de crédito e melhores condições para financiar suas operações.
O papel das grandes empresas na transição
A adoção do modelo ocorre inicialmente em uma fase de produção assistida, na qual as empresas podem aderir voluntariamente e emitir duplicatas escriturais com validade jurídica e efeitos econômicos reais.
As grandes companhias tendem a liderar essa transição, especialmente por seu papel nas cadeias de fornecedores. Mas a oportunidade não se limita a elas: empresas menores também podem se adaptar ao novo ambiente e explorar seus benefícios.
Para as empresas pagadoras, a transformação exige atenção operacional. Será necessário gerir manifestações sobre as duplicatas, integrar processos de contas a pagar e acompanhar eventuais mudanças de credor quando um recebível for antecipado. Em contrapartida, a maior visibilidade pode contribuir para controles mais eficientes e prevenção de fraudes.
Mais concorrência no crédito empresarial
A duplicata escritural pode abrir espaço para uma participação maior de diferentes agentes no financiamento da economia real. Além de bancos tradicionais, fundos, fintechs e empresas podem desenvolver novas soluções de crédito a partir de recebíveis mais transparentes.
Essa competição é relevante porque o crédito no Brasil ainda é concentrado. Ao democratizar o acesso a informações sobre ativos e operações, a infraestrutura tende a reduzir a dependência de relações fechadas e ampliar as possibilidades de financiamento.
O efeito esperado é um mercado em que o risco seja avaliado não apenas pelo porte da empresa tomadora, mas também pela qualidade e pela rastreabilidade do recebível que ela possui.
O futuro dos recebíveis no Brasil
A comparação com o Pix ajuda a ilustrar o potencial da transformação. Se o Pix simplificou pagamentos entre pessoas e empresas, a duplicata escritural pode modernizar as transações a prazo no ambiente corporativo.
Mais do que substituir papéis por registros digitais, a mudança cria uma nova infraestrutura para o crédito empresarial. Nos próximos anos, ela pode estimular inovação, melhorar a gestão financeira das empresas e tornar o capital de giro mais acessível — especialmente para pequenos e médios negócios.
Assista ao episódio completo do podcast BRAZIL ECONOMY e entenda por que a duplicata escritural pode se tornar uma das mudanças mais relevantes para o crédito e os recebíveis no Brasil.




