Em períodos de instabilidade econômica, tensões geopolíticas e mudanças aceleradas no mercado de trabalho, as empresas enfrentam um desafio que ultrapassa os resultados financeiros: manter profissionais engajados, seguros e dispostos a permanecer nas organizações. Nesse contexto de incertezas, o clima organizacional deixa de ocupar um papel secundário e passa a impactar diretamente a produtividade, a retenção de talentos e a sustentabilidade dos negócios.
Nesse cenário desafiador, o engajamento dos colaboradores deixa de ser apenas uma métrica de Recursos Humanos e assume posição estratégica para a sustentabilidade empresarial. A ausência desse envolvimento gera impactos significativos, como mostra o relatório State of the Global Workplace 2026, da Gallup, que estima perdas de aproximadamente US$ 10 trilhões em produtividade na economia global em razão do baixo engajamento. Em momentos de crise, equipes desmotivadas ampliam os riscos de paralisação operacional e evasão de profissionais qualificados, enquanto o engajamento efetivo atua como um mecanismo de proteção para manter a organização alinhada aos seus objetivos.
Para que essa proteção seja efetiva, a alta liderança precisa abandonar a ideia de que motivação se sustenta apenas por salários competitivos ou benefícios superficiais, como mesas de pingue-pongue e eventos corporativos. Nenhuma dessas iniciativas compensa metas irreais ou ambientes marcados por gestões tóxicas. O engajamento genuíno exige, antes de tudo, comunicação clara, acessível e transparente, com decisões compartilhadas em diferentes níveis hierárquicos e lideranças dispostas a reconhecer vulnerabilidades e admitir quando não possuem todas as respostas.
Aliada à transparência, a promoção da segurança psicológica tornou-se indispensável para atender às novas demandas de equilíbrio entre vida pessoal e profissional. Ambientes psicologicamente seguros contribuem para reduzir significativamente os casos de burnout e funcionam como importante instrumento de retenção de talentos.
Ainda assim, muitas empresas seguem cometendo um erro estrutural ao adotar políticas homogêneas para toda a força de trabalho. Estratégias superficiais e genéricas acabam alimentando desconfiança e cinismo organizacional. O engajamento precisa ser construído sob uma perspectiva interseccional, reconhecendo a existência de diferentes “microculturas” internas e o fato de que crises afetam indivíduos de maneiras distintas. As motivações de um profissional em início de carreira são diferentes das demandas enfrentadas por uma mulher negra em posição de liderança, por uma pessoa com deficiência ou por trabalhadores seniores.
Para identificar essas necessidades com maior precisão, a escuta ativa e contínua deve substituir avaliações pontuais de clima organizacional, que frequentemente criam uma percepção artificial de avanço sem promover mudanças concretas nas estruturas de trabalho. Também se torna essencial romper o estigma relacionado à saúde mental. Pesquisa da NAMI (National Alliance on Mental Illness), divulgada em 2025, mostrou que 42% dos trabalhadores ainda temem sofrer represálias profissionais caso abordem o tema no ambiente corporativo.
Adaptar as empresas a essas exigências demanda medidas práticas e intencionais. Entre elas estão a adoção de modelos de flexibilidade focados em entregas, e não em horas trabalhadas, a concessão de dias voltados à saúde mental sem exigência de atestados médicos e o financiamento efetivo de comitês consultivos de funcionários. Essas iniciativas demonstram, na prática, que a voz do colaborador possui relevância dentro da organização. Além disso, a capacitação de gestores exerce papel decisivo, já que lideranças treinadas para identificar fatores de risco relacionados à saúde mental conseguem reduzir de maneira significativa o medo de julgamento entre os integrantes das equipes.
As políticas corporativas, incluindo códigos de ética e programas de inclusão, também precisam ganhar profundidade e clareza processual, transformando diversidade em princípio estruturante das organizações, e não apenas em uma obrigação formal presente em relatórios.
Por fim, torna-se cada vez mais urgente que o mercado compreenda que engajamento e saúde mental não pertencem exclusivamente ao universo do RH. Esses temas passaram a integrar as agendas de Compliance e Governança Corporativa, representando parte central do “G” da sigla ESG (Environmental, Social and Governance). Ignorar o clima organizacional e a segurança psicológica dos funcionários amplia riscos operacionais, jurídicos e reputacionais, além de desencorajar relatos preventivos sobre falhas éticas.
Promover trabalho decente, assegurar o respeito aos Direitos Humanos e investir no cuidado integral do colaborador deixou de ser apenas uma iniciativa desejável. Trata-se de uma estratégia empresarial fundamental para organizações que pretendem se manter sustentáveis, inovadoras e competitivas no longo prazo.
*Rayhanna Fernandes é especialista em Direito do Trabalho, autora do livro ‘O Lugar do Feminino Negro no Mercado de Trabalho: Para Além do Salário e da Remuneração’




