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segunda-feira, julho 20, 2026

Concorrência chinesa derruba preços de carros novos e usados no Brasil

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O avanço das montadoras chinesas está mudando a dinâmica do mercado automotivo brasileiro e aumentando a pressão sobre os preços dos veículos. Com a expansão da oferta de modelos eletrificados e valores mais competitivos, fabricantes tradicionais passaram a recorrer a descontos, redução de preços e bônus na troca de usados para preservar espaço entre os consumidores.

No primeiro semestre deste ano, o Brasil registrou 280,6 mil emplacamentos de veículos importados, segundo a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea). Quase metade desse volume teve origem na China. Em apenas um ano, a quantidade de automóveis chineses enviados ao mercado brasileiro passou de 71 mil para 140,8 mil unidades.

A maior concorrência tem reflexos tanto sobre os modelos zero quilômetro quanto sobre seminovos e usados, sobretudo nas faixas de preço acima de R$ 100 mil. A redução dos valores cobrados por veículos novos acaba alterando as referências utilizadas na precificação dos automóveis de segunda mão.

“Se a referência do carro usado é o carro novo, quando o carro novo reduz o preço, naturalmente o usado também tem uma regressão mais forte”, explica Geraldo Victorazzo, vice-presidente Comercial e de Marketing da Auto Avaliar.

Diante da nova configuração do mercado, fabricantes com atuação consolidada no Brasil intensificaram campanhas comerciais. A Toyota, por exemplo, oferece bônus de R$ 10 mil na troca de um veículo usado na aquisição de alguns modelos, como o Yaris Cross XR. Em determinados casos, como o da Hilux Cabine Dupla SRX Plus AT, a bonificação pode alcançar R$ 40 mil.

“A entrada de novos competidores, somada às transformações relacionadas à eletrificação, conectividade e digitalização, além de novas expectativas em relação à mobilidade, à experiência de compra e ao uso dos veículos, amplia as opções disponíveis e acelera a transformação ao longo de toda a cadeia de valor”, afirmou a Toyota em nota.

Outras fabricantes também adotaram estratégias para estimular as vendas. A Honda oferece bônus de até R$ 15 mil na troca de usados, enquanto a Volkswagen reduziu em aproximadamente R$ 10 mil o preço do T-Cross e lançou uma nova campanha promocional. A Fiat, por sua vez, baixou o preço do Fastback Impetus Turbo de R$ 173.490 para R$ 134.990, além de oferecer bonificações em determinados modelos.

A Stellantis, grupo responsável por marcas como Fiat, Jeep e Peugeot, informou que parte das condições especiais está relacionada às comemorações dos 50 anos da Fiat no Brasil. A companhia ressaltou ainda que sua política de preços considera variáveis como câmbio, custos de produção, logística e condições do mercado, acrescentando que permanece “sempre atenta às variações no cenário para seguir com o posicionamento adequado e competitivo”.

A ofensiva comercial ocorre em um momento de ampliação da variedade de automóveis disponíveis no país. As marcas chinesas vêm conquistando consumidores principalmente com veículos eletrificados, maior oferta de tecnologia embarcada e preços capazes de competir com modelos menores produzidos por fabricantes já estabelecidos no mercado nacional.

A BYD encerrou o primeiro semestre com 99.029 veículos emplacados e alcançou, em junho, a MARCA de 300 mil automóveis eletrificados comercializados em quatro anos de atuação no Brasil. A GWM, por sua vez, informou vendas de 35.218 unidades entre automóveis e comerciais leves nos seis primeiros meses do ano.

“Hoje você tem um veículo chinês de maior porte competindo com um modelo menor fabricado no Brasil. Esses carros chegam mostrando suas qualidades e dizendo ao mercado: ‘Eu também sou uma boa opção, tenho um preço extremamente competitivo’”, afirma Milad Neto, sócio e diretor-executivo da K.Lume Consultoria Automobilística.

A expansão das fabricantes asiáticas para o Brasil também está relacionada ao cenário enfrentado pela indústria automobilística chinesa. O país possui elevada capacidade produtiva e um mercado interno marcado por forte disputa entre fabricantes, situação que desencadeou uma guerra de preços e levou empresas a buscar consumidores em outros países.

Segundo relatório do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), os veículos eletrificados já respondem por 15% das importações brasileiras provenientes do país asiático.

Antônio Jorge Martins, professor dos cursos automotivos da Fundação Getulio Vargas (FGV), avalia que a competitividade dos preços chineses está associada tanto à intensa concorrência doméstica quanto à verticalização da produção. Muitas fabricantes controlam internamente a fabricação de componentes relevantes, o que ajuda a reduzir custos e amplia a margem para ajustes de preços.

“Hoje há muitas fabricantes de veículos elétricos na China. Isso significa que as montadoras precisam vender fora do mercado chinês para manter a rentabilidade. Aos poucos, vemos um número cada vez maior de empresas asiáticas atuando em outros mercados justamente por essa necessidade de ampliar a lucratividade”, explica.

Com a chegada de mais modelos e a disputa crescente por participação de mercado, a tendência é que a pressão competitiva continue influenciando as estratégias comerciais das montadoras. Para o consumidor, esse movimento abre espaço para encontrar veículos novos e seminovos por valores inferiores aos praticados anteriormente, enquanto fabricantes tradicionais são obrigadas a rever preços e condições de venda para enfrentar a expansão das concorrentes chinesas.






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