A Reforma Tributária começou 2026 deixando claro que o principal desafio não está na legislação, mas na infraestrutura digital que vai sustentar o novo modelo. O próprio desenho da transição reforça a lógica de “implementação por software”. Em 2026, o país entra em ano de testes, com período educativo e sem penalidades no início, justamente para que empresas e administrações validem sistemas e processos. A convivência entre o modelo atual e o IVA dual é progressiva, com implementação total apenas em 2033. Isso transforma a adequação tecnológica em uma agenda contínua, e não força um “go live” imediato.
Para as empresas, o eixo mais sensível dessa virada é a lógica de créditos em um regime não cumulativo mais amplo. Na prática, isso desloca o “centro de gravidade” para dentro dos ERPs: qualidade e governança de dados, regras de determinação, integração com documentos fiscais eletrônicos, conciliação e rastreabilidade. Quando dados estão fragmentados ou a parametrização é inconsistente, o problema deixa de ser só fiscal e vira financeiro, por exemplo, com atrasos de crédito, retrabalho, riscos de divergência e pressão sobre capital de giro.
Esse ambiente de alta fricção ajuda a explicar a dimensão do contencioso tributário brasileiro, que segundo estimativas da Fundação Getulio Vargas já alcança cerca de R$ 5,9 trilhões, aproximadamente a metade do PIB do país. O volume evidencia o custo sistêmico da complexidade, da insegurança jurídica e da baixa padronização operacional, reforçando porque a reforma precisa ser lida também como um projeto estrutural de dados, processos e rastreabilidade, não apenas legislativo. Além disso, o movimento do Brasil segue uma tendência global de digitalizar o fato gerador para reduzir fricção e aumentar a rastreabilidade.
Um exemplo é a Alemanha que passou a exigir, desde 1º de janeiro de 2025, o uso regular de e-fatura estruturada em operações B2B domésticas, com regras de transição. Na União Europeia, o pacote VAT in the Digital Age (ViDA) propõe reporte digital em tempo real, baseado em e-invoicing, para operações transfronteiriças. A direção é consistente: menos discussão depois do fato, mais validação e rastreio perto do momento em que a transação acontece.
Há ainda uma vantagem adicional com a tecnologia fiscal mudando o comportamento organizacional. Estudos publicados pelo periódico da London School of Economics and Political Science sobre o ELSTER (Elektronische Steuererklärung), principal plataforma digital de arrecadação da Alemanha, observam efeitos como aceleração de decisões, aumento de formalização e mudança na forma como o trabalho administrativo é executado quando processos passam a ser mediados por sistemas.
No Brasil, a implicação é direta: 2026 não deveria ser tratado como “apenas um ano de adaptação”. É um ano para testar em ambiente real, corrigir dados, ajustar rotinas e treinar equipes, aproveitando o caráter educativo descrito pelo governo. O portal e a infraestrutura recém-lançados ajudam a reduzir assimetria de informação, mas não substituem o trabalho interno de parametrização, governança e desenho de processos.
A agenda de software se conecta diretamente com a agenda de negócios. A reforma tende a acelerar a modernização de empresas com legados, não só para cumprir a regra, mas para ganhar previsibilidade e reduzir custo de compliance. Fato que se torna ainda mais relevante frente aos números do relatório Paying Taxes 2024, do Banco Mundial e da PwC, que indicam que empresas brasileiras gastam, em média, 1.483 horas por ano apenas para cumprir com obrigações tributárias – o maior tempo do mundo e quase nove vezes acima da média da OCDE.
Do ponto de vista dos grandes fornecedores de ERP – e posso afirmar com a experiência de quem está trabalhando, desde o início, lado a lado com o governo e está 100% pronto para viabilizar a transição –, a responsabilidade é absorver complexidade e acelerar a curva de aprendizado do mercado. A reforma, portanto, não é só um tema fiscal. Ela reorganiza a forma como empresas e governo lidam com dados transacionais em escala. Em 2026, quem tratar a transição como projeto de dados e não como “troca de sigla” vai garantir menos riscos, mais eficiência e mais controle até 2033.
*Rui Botelho é presidente da SAP Brasil




