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O fotógrafo brasileiro Christian Cravo passou duas semanas na fronteira entre México e Estados Unidos buscando mostrar a beleza perturbadora do muro que se estende por 3.140 quilômetros e separa os dois países.
Ele deseja que as pessoas vejam o muro não apenas como algo horrível, mas também como uma imagem bela, provocando reflexões sobre o que é “que é feio, belo, moral e imoral”.
Suas fotos fazem parte da série “Paisagens Antrópicas”, que investiga a intervenção humana na natureza.
Christian construiu boa parte de sua trajetória trabalhando essencialmente em preto e branco. Mas, nesse projeto, ele recorreu à cor para transmitir a gravidade de desastres ambientais.
A cor, como explica ao NeoFeed, carrega informação.
O fotógrafo busca imagens que sejam trágicas e belas, como as de Acra, Gana, onde resíduos têxteis se acumulam.
Para ele, a arte deve ser paradoxal, estimulando diálogos e reflexões sobre questões sociais e ambientais.
* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed
No meio do deserto, acompanhando as ondulações do relevo, um muro divide o território. A construção rasga a paisagem. A luz dourada projeta uma longa sombra que acentua o abismo imposto por aquela barreira. A imagem é sedutora. Seria uma instalação de arte? Uma imagem criada por inteligência artificial?
Um observador desavisado talvez se faça essas perguntas. A fotografia, porém, é real. São imagens do muro que divide o México dos Estados Unidos, feitas pelo fotógrafo brasileiro Christian Cravo.
Christian passou cerca de duas semanas na fronteira, registrando o muro que percorre 3.140 quilômetros, entre os dois países. “O que me instiga nesse projeto é compreender o papel dos artistas em apresentar determinadas situações”, diz Christian ao NeoFeed.
“Não quero que as pessoas simplesmente olhem para aquele muro e vejam apenas algo horrível, carregado de um julgamento moral. Quero provocá-las a olharem e, paradoxalmente, perceberem aquilo como uma imagem linda. Quero que as pessoas tenham essa confusão em relação ao que é feio, belo, moral e imoral.”
Christian alcança esse objetivo. Suas fotografias capturam a luz dourada do começo ou do fim do dia e exploram contrastes intensos, transformando a estrutura de cinco a nove metros de altura — feita principalmente por vigas verticais de aço, painéis de concreto e coroada por arame farpado — em composições de forte apelo gráfico. A beleza das imagens, no entanto, torna-as ainda mais perturbadoras.
Essas fotografias integram a série Paisagens Antrópicas, na qual Christian investiga as marcas da intervenção humana sobre a natureza — também chamada de “antropia”. Elas mostram como a humanidade transforma a paisagem, seja por meio de tragédias ambientais, seja pelos impactos da guerra, do consumo ou da exploração dos recursos naturais.
Herança de família
Bastavam poucos minutos parado para fazer uma foto para que surgisse um agente da patrulha de fronteira entre o México e os Estados Unidos, disposto a fiscalizar o que o fotógrafo estava registrando.
Christian reconhece que circulou por aquele território com um privilégio difícil de ignorar: ser homem branco, com passaporte europeu e fluente em inglês. Essa vantagem social o ajudou a entrar e sair dos Estados Unidos com relativa facilidade. “Isso com certeza afetava a forma como eles me tratavam.”, afirma.
Filho do consagrado fotógrafo Mário Cravo Neto e da dinamarquesa Eva Christensen, Christian viveu nos Estados Unidos e, depois, na Dinamarca, dos oito aos 22 anos. A fotografia acabou se tornando também sua forma de expressão.
Assim como o pai, construiu boa parte de sua trajetória trabalhando essencialmente em preto e branco. Paisagens Antrópicas MARCA sua primeira série realizada em cores.
“Para mim, a fotografia sempre foi uma linguagem em preto e branco. Eu brinco que ele evoca a nossa visão primitiva, ancestral, quando enxergamos em preto e branco”, diz o fotógrafo.
A fotografia sem cor, entretanto, traz uma dramaticidade que Christian não queria para esse projeto. “Queria apresentar a destruição e o desequilíbrio ambiental, de uma forma mais neutra. Aí tinha de ser a cores”, explica. “A poluição é colorida.”
Em muitos dos desastres fotografados por Christian, a cor deixa de ser um elemento estético para se tornar um dado da própria tragédia.” “Eu tenho de mostrar a cor”, afirma o fotógrafo. Sem abandonar o rigor na construção da luz e da sombra que MARCA seus ensaios em preto e branco, Christian passou a explorar esses mesmos contrastes na fotografia colorida.
A diferença é que, agora, a cor também carrega informação. “Eu preciso mostrar o preto dos pneus sobre a areia quase branca do deserto do Kuwait, o colorido artificial do lixo nos aterros da Índia, a poluição têxtil em Acra”, explica. “A cor faz parte da história que estou contando”, explica.
Provocação e conversa
Hoje, Christian percorre o mundo em busca de imagens paradoxais: trágicas e, ao mesmo tempo, belas e inquietantes. Um dos ensaios da série foi realizado em Acra, capital de Gana, um dos principais destinos de roupas usadas e excedentes da indústria da moda.
Estima-se que cerca de 111 mil toneladas de resíduos têxteis cheguem ao país africano todos os anos. A cidade consegue coletar e processar apenas 30% desse volume. Os 70% restantes acabam despejados ilegalmente em lixões a céu aberto, nas praias ou são queimados, agravando a poluição ambiental.
À primeira vista, as fotografias de Christian lembram um editorial de moda. Mas as pessoas retratadas são integrantes do coletivo WonBeeGaBa, que atua na limpeza das praias e no desenvolvimento de soluções para a reciclagem de plástico.
Além de recolher resíduos plásticos, o grupo também enfrenta montanhas de roupas e tecidos que chegam diariamente ao litoral. É justamente esse lixo têxtil que carregam nas imagens.
“A proposta do artista precisa ser, acima de tudo, paradoxal”, reflete. “Se você quer estimular o diálogo e o pensamento sobre a obra, ela precisa provocar. A provocação é o começo de uma conversa. E isso é muito importante.”




