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segunda-feira, junho 29, 2026

“A ideia do horista CLT é a melhor opção para modernizar o trabalho”, diz CEO da Abras

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João Galassi é considerado um empresário bem-sucedido no varejo alimentar. Sócio do Grupo Supermercados Galassi, ele preside a Associação Brasileira de Supermercados (Abras), entidade que representa um dos setores mais impactados pelas mudanças trabalhistas atualmente em discussão, como o fim da escala 6×1.

Em entrevista ao BRAZIL ECONOMY, Galassi elogiou o diálogo do setor com o governo Lula, que possibilitou a aprovação de medidas consideradas importantes pelos supermercadistas, como a autorização para instalação de farmácias completas em supermercados e a modernização do Programa de Alimentação do Trabalhador (PAT), que amplia o acesso dos trabalhadores aos alimentos. Apesar da boa relação institucional com o governo federal, lançou sua pré-candidatura a deputado federal pelo Republicanos, partido do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas.

Como o senhor vê a discussão sobre o fim da escala 6×1?
Nós vemos essa discussão com muita responsabilidade. O setor supermercadista é um dos maiores empregadores do país, está presente em todos os municípios, atende milhões de brasileiros diariamente e funciona em uma dinâmica muito própria, porque o abastecimento de alimentos não pode parar. É natural que o tema da jornada de trabalho seja debatido, especialmente quando a sociedade busca mais qualidade de vida, produtividade e melhores relações de trabalho. Mas esse debate precisa ser conduzido com equilíbrio, dados e diálogo.

Defendemos uma modernização possível, que considere o trabalhador, mas também a realidade operacional das empresas, principalmente dos pequenos e médios supermercados, que são a maioria no Brasil. Não se pode tratar da mesma forma um setor que funciona de segunda a domingo, com produtos perecíveis, abastecimento diário e atendimento direto à população. A transição precisa ser gradual, com segurança jurídica, instrumentos de flexibilidade e medidas que ajudem a compensar os impactos de custo.

A Abras não é contra discutir avanços. Pelo contrário, queremos participar da construção de uma solução responsável. O Brasil precisa modernizar suas relações de trabalho sem colocar em risco empregos, abastecimento, preços e a sobrevivência de milhares de empresas que atendem diariamente a população.

Qual é a proposta do setor representado pela Abras para solucionar essa questão?
A discussão sobre o fim da escala 6×1 precisa considerar não apenas a organização do trabalho, mas também os impactos sobre o emprego, o abastecimento da população e o preço final para o consumidor. O setor supermercadista, juntamente com a União Nacional de Entidades do Comércio e Serviços (UNECS), contribuiu para a elaboração da PEC 40/2025, de autoria do deputado Maurício Marcon, que trata do horista CLT. No entanto, a PEC 40/2025 ainda não foi distribuída na Câmara dos Deputados. Ao mesmo tempo, a PEC 221/2019, que trata do fim da escala 6×1, foi aprovada na Câmara dos Deputados e aguarda deliberação do Senado Federal. No Senado, também foi apresentada a PEC 12/2026, de autoria do senador Rogério Marinho, que segue a mesma linha do horista CLT e pode trazer uma nova perspectiva para esse debate.

Caso a escala 5×2 seja aprovada, como prevê a PEC 221/2019, isso pode causar problemas ao setor?
O setor entende que é preciso ser pragmático e racional. Por isso, além de defender o horista CLT, também debatemos alternativas para uma eventual implementação da jornada de 40 horas semanais com escala 5×2. Nesse caso, defendemos que qualquer mudança venha acompanhada de medidas compensatórias, especialmente a desoneração da folha de pagamento e uma transição gradual, com redução de 30 minutos por ano, alinhada ao cronograma de implementação da reforma tributária, que vai até 2033. O objetivo é preservar empregos, evitar aumento abrupto dos custos e garantir a continuidade do abastecimento da população. Mas acredito que a ideia do horista CLT seja a melhor alternativa para modernizar as relações de trabalho no Brasil, pois traz flexibilidade, formalização e geração de oportunidades.

O senhor considera que o atual governo federal atende às reivindicações do setor supermercadista?
A Abras mantém um diálogo institucional permanente com o governo federal, assim como manteve com governos anteriores. Nosso papel é levar ao debate público as reivindicações do setor supermercadista de forma técnica, responsável e construtiva, buscando soluções que contribuam para o abastecimento, a geração de empregos, a competitividade e a defesa dos consumidores.

Quais reivindicações atendidas o senhor destaca?
A aprovação da legislação que permite a instalação de farmácias completas dentro dos supermercados representa uma grande conquista não apenas para o setor supermercadista, mas principalmente para os consumidores brasileiros. Trata-se de uma medida que amplia a concorrência, aumenta a conveniência e fortalece o acesso da população a produtos e serviços de saúde. O setor supermercadista é altamente desconcentrado e está presente em praticamente todos os municípios do país. Ao permitir a venda de medicamentos em farmácias instaladas dentro dos supermercados, com a presença obrigatória de farmacêuticos e observando todas as exigências sanitárias, criamos um ambiente mais competitivo, que tende a ampliar as opções disponíveis ao consumidor e contribuir para preços mais competitivos.

Quais têm sido as principais conquistas?
Neste governo, tivemos ainda uma conquista importante com a publicação do Decreto nº 12.712/2025, que moderniza o Programa de Alimentação do Trabalhador (PAT). Foi uma medida construída a partir do diálogo com o setor e que atende a uma pauta defendida há muitos anos pela Abras e por diversas entidades da cadeia de alimentação. Com a implementação completa das novas regras, o trabalhador terá mais liberdade para escolher onde utilizar seu benefício. O decreto limita a taxa cobrada pelas operadoras a 3,6% e estabelece prazo de reembolso de até 15 dias aos estabelecimentos. Antes, essas taxas podiam superar 10%, o que dificultava a aceitação do vale-alimentação e do vale-refeição por supermercados, padarias, restaurantes e pequenos comércios.

Grandes empresas de benefícios, como Sodexo e Alelo, afirmam ter sido altamente prejudicadas com essa medida. Como o senhor responde a essas críticas?
É natural que toda mudança gere reação de quem estava confortável com o modelo anterior. A modernização do PAT é uma pauta que defendemos há muitos anos. À frente da Abras, tive a oportunidade de liderar esse debate junto com outras entidades do setor, sempre com o entendimento de que o programa precisava ser atualizado para cumprir melhor sua finalidade: garantir alimentação ao trabalhador, com mais liberdade de escolha, concorrência e eficiência para toda a cadeia.

Então as medidas são boas…?

São medidas que beneficiam trabalhadores, consumidores e estabelecimentos, especialmente os pequenos negócios, que antes muitas vezes não conseguiam aceitar esses benefícios em razão de taxas superiores a 10%. A nova regulamentação corrige essas distorções, amplia a transparência, fortalece a concorrência e melhora as condições para que o benefício cumpra sua principal finalidade, que é assegurar alimentação ao trabalhador. No caso dos supermercados, a lógica é simples: se o trabalhador utiliza o benefício para comprar alimentos, precisa ter acesso amplo, com segurança, eficiência e sem barreiras artificiais.

Muitas empresas do setor de benefícios vêm tentando derrubar a medida. O senhor teme algum retrocesso?
É natural que mudanças estruturais gerem reações. Algumas entidades representativas das operadoras ingressaram no Supremo Tribunal Federal questionando dispositivos do decreto. Respeitamos o direito de questionamento judicial, mas entendemos que a modernização está plenamente alinhada aos objetivos do PAT. Trata-se de uma política pública voltada à alimentação do trabalhador brasileiro, e cabe ao poder público garantir que ela funcione com mais liberdade de escolha, maior concorrência, menor custo para os estabelecimentos e mais acesso para os trabalhadores. O que temos visto é que, no campo judicial, essas resistências vêm perdendo força. As decisões têm reconhecido a legitimidade da modernização do programa, e o Ministério do Trabalho e Emprego já iniciou o processo de fiscalização para assegurar o cumprimento das novas regras.

O senhor mencionou que o setor supermercadista é altamente descentralizado. Essa característica dificulta a construção de posições convergentes entre as empresas?
A união das companhias é o que transforma uma dificuldade individual em uma agenda coletiva. Quando uma empresa fala sozinha, apresenta apenas o seu problema. Quando o setor fala unido, com dados, responsabilidade e propostas, passa a apresentar soluções para o Brasil. Foi assim em pautas importantes, como a nova cesta básica, a modernização do PAT, a instalação de farmácias completas nos supermercados, o combate ao desperdício de alimentos e tantas outras frentes. A força do setor está justamente na capacidade de reunir empresas de diferentes portes, formatos e regiões em torno de objetivos comuns.

Isso vale para os pequenos?
O pequeno supermercado do interior e a grande rede nacional enfrentam realidades distintas, mas compartilham desafios estruturais, como tributação, custo operacional, mão de obra, segurança jurídica, abastecimento e competitividade. A Abras tem buscado ser esse ponto de convergência.

Essa descentralização abre espaço para a expansão de redes estrangeiras no Brasil? Os CEOs das empresas associadas à Abras veem esse movimento com preocupação?
Eu não diria que existe temor. O que existe é atenção, porque o Brasil é um mercado grande, competitivo, complexo e muito atrativo. Se novas marcas querem entrar no país, isso demonstra justamente a força do nosso consumo, a relevância do varejo alimentar e o potencial do setor supermercadista brasileiro. Como eu disse, o mercado brasileiro é muito mais desconcentrado do que o de diversos outros países. Temos grandes redes nacionais, mas também redes regionais extremamente fortes, empresas familiares muito bem posicionadas, supermercados independentes, atacarejos, lojas de vizinhança e diversos formatos que disputam diariamente a preferência do consumidor.

As varejistas do setor conhecem bem essa preferência?
As empresas que já atuam no Brasil conhecem profundamente o consumidor, a complexidade logística, as diferenças regionais, a relação com fornecedores, a operação de perecíveis, a carga tributária e o desafio de abastecer a população todos os dias. Esse conhecimento local é um ativo muito relevante em um país de dimensões continentais. Não vejo esse movimento com medo, mas com maturidade. O setor brasileiro é forte, resiliente, desconcentrado e muito preparado. O que defendemos é segurança jurídica, isonomia regulatória e um ambiente de negócios saudável.

O senhor é pré-candidato a deputado federal. O que o motivou a entrar para a política?
Hoje sou pré-candidato a deputado federal pelo Republicanos de São Paulo. Trata-se de uma decisão pessoal, construída ao longo de muitos anos de atuação em defesa do setor produtivo, do empreendedorismo, da geração de empregos e do desenvolvimento do país. Sempre acreditei que a vida pública deve ser encarada como uma missão de serviço. Caso minha candidatura seja confirmada e receba o apoio da população, quero colocar minha experiência à disposição dos paulistas e do Brasil, contribuindo para a construção de políticas públicas que estimulem o desenvolvimento econômico, a geração de oportunidades e a melhoria da qualidade de vida das pessoas.

O senhor teme ser acusado de conflito de interesses caso seja eleito?
Minha atuação política e minha atuação à frente da Abras são atividades distintas, conduzidas com total ética, responsabilidade e respeito às instituições. A Abras continuará exercendo seu papel de representação setorial de forma técnica e institucional, independentemente de qualquer projeto pessoal.

Existe algum candidato preferido do setor supermercadista para a Presidência da República?
Não. A Abras mantém diálogo institucional com todos os governos e seguirá atuando dessa forma. O compromisso do setor supermercadista é com o abastecimento da população, a geração de empregos, a competitividade das empresas e a defesa do consumidor. Independentemente do resultado das eleições, continuaremos apresentando nossas pautas de forma técnica, responsável e propositiva.






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