O PicPay sofreu com duas headlines preocupantes em menos de uma semana: uma class action movida nos EUA por alguns dos investidores do IPO, e uma investigação do Ministério Público.
As duas notícias jogaram o papel ainda mais para baixo. Desde a quinta-feira passada a ação cai mais de 10%, e agora negocia cerca de 50% abaixo do IPO.
A class action foi movida pela FirstFire Global Opportunities, uma gestora americana que investiu no IPO e que está sendo representada pelo Bragar Eagel & Squire, um escritório especializado neste tipo de ação.
A gestora alega que o PicPay omitiu informações relevantes no prospecto, já que em março o banco digital dos irmãos Batista anunciou uma reclassificação de quase R$ 600 milhões em créditos de estágio 2 para 3 (alto risco de perda).
Isso levou a companhia a reportar um aumento de R$ 88 milhões nas provisões, impactando os resultados do quarto tri.
Como a reclassificação foi reportada junto com os resultados do quarto tri do ano passado – e o IPO aconteceu em janeiro deste ano –, a FirstFire alega que os executivos já sabiam dessas informações durante o roadshow e optaram por omiti-la dos investidores.
Na ação, a gestora diz ainda que o PicPay apresentou uma taxa de formação de créditos de estágio 3 superior a 7% no quarto tri, que também não havia sido divulgada anteriormente, “desviando-se substancialmente dos resultados históricos e das tendências apresentados nos documentos da oferta.”
“Os documentos do IPO superestimaram de forma relevante a qualidade e a capacidade dos modelos de crédito e dos dados de usuários do PicPay para orientar suas práticas de concessão de crédito, bem como para permitir que a empresa monitorasse, avaliasse e identificasse de maneira tempestiva e eficaz eventos adversos de crédito, riscos de crédito e deterioração da qualidade de crédito em toda a sua carteira,” diz o processo.
A FirstFire está buscando a adesão de outros investidores, e os interessados têm até 4 de agosto para se juntar a ela.
Este tipo de class action é relativamente comum nos EUA: muitas empresas cujas ações caem muito depois de um IPO acabam sofrendo com esse tipo de situação.
Um analista que cobre o PicPay disse ao Brazil Journal ser plausível que a diretoria ainda não tivesse certeza das reclassificações na época do IPO.
“Muitas vezes a empresa pode até já estar discutindo isso com o auditor, mas não tem certeza que vai ter que fazer a reclassificação e isso fica certo só muito perto da divulgação do resultado,” disse ele. “Antes de ter certeza, nenhuma empresa vai tornar esse tipo de informação pública.”
Uma fonte próxima ao PicPay disse ao Brazil Journal que a reclassificação aconteceu por conta de mudanças de metodologia impostas pela resolução 4966 do Banco Central, que mudou a forma como os bancos devem provisionar as perdas esperadas.
“Mas foi uma reclassificação muito pequena, equivalente a só 2,5% da carteira, e que não teve impacto nenhum no resultado,” disse essa fonte. “O PicPay tinha passado um guidance no IPO de entregar um lucro de R$ 128 milhões a R$ 143 milhões no quarto tri, e entregou R$ 188 milhões, 40% acima do meio da faixa. Além disso, todos os outros indicadores de qualidade dos ativos ficaram estáveis.”
Essa fonte notou ainda que a formação de créditos de estágio 3 – que subiu de 3,7% para 7,1% no quarto tri – já voltou ao patamar histórico no primeiro tri deste ano, fechando em 3,8%, uma prova de que o número do quarto tri foi um one-off.
“Todos os fundamentos do negócio estão vindo acima do guidance que estava no prospecto. A ação caiu muito desde o IPO? Caiu! Mas isso teve a ver também com a conjuntura macro, já que desde o IPO tivemos a guerra no Irã e uma rotação grande de todos os setores para AI. Mesmo nos pockets de emerging markets teve uma rotação grande para mercados como a Coréia e Taiwan.”
Mas a class action talvez seja o menor dos problemas da empresa.
Na semana passada, o CEO Eduardo Chedid foi alvo de uma investigação envolvendo a folha de pagamento de servidores públicos do Distrito Federal.
Chedid, que está na empresa desde 2021, é um executivo respeitado e um veterano do mercado de meios de pagamento. Depois de 15 anos entre a Visa e a Credicard, foi CEO da Elo – a bandeira de cartões do Bradesco, Banco do Brasil e Caixa – por seis anos, além de passar outros seis na Cielo.
A suspeita do MP é de que o PicPay fez descontos indevidos nos contracheques de servidores.
A origem da história remonta a 2024, quando o PicPay ganhou uma concorrência para oferecer um produto de antecipação de salário aos servidores do GDF. Este produto movimentou cerca de R$ 80 milhões entre 2024 e 2025, quando a companhia parou de oferecê-lo.
Segundo o MP, o PicPay oferecia a antecipação do salário dos servidores como um produto gratuito, mas cobrava uma tarifa se os recursos fossem creditados em outro banco – cobrando uma espécie de ‘juros disfarçado’.
O BRB também está sendo investigado na operação – batizada de Juros Zero – porque o banco era o responsável pela gestão da folha de pagamento dos servidores.
A fonte próxima ao PicPay disse que o banco não cometeu irregularidades, e que a acusação faz uma confusão sobre o funcionamento do produto.
“É uma leitura completamente errada; estão tentando aproximar do consignado um produto que não tem nada a ver com isso,” disse a fonte, segundo a qual o produto do PicPay era uma espécie de ‘vale eletrônico’.
“O que acontece em muitas empresas do Brasil é que, quando chega no meio do mês, alguns funcionários precisam de parte do salário antecipado e pediam um vale para o dono da empresa.”
O produto do PicPay é uma automatização desse vale. O banco digital fazia acordos com empresas e órgãos públicos e antecipava parte do salário dos servidores pelo aplicativo. Ao fazer isso, havia duas alternativas: os recursos podiam cair num cartão-benefício emitido pelo PicPay, ou numa conta corrente de outro banco.
Se caísse no cartão-benefício a antecipação era gratuita, já que o PicPay ganhava com o interchange rate cobrado nas transações com o cartão. Mas se o cliente optasse por receber os recursos numa conta corrente em outro banco, havia a cobrança de uma taxa de antecipação.
“Mas essa não é uma transação com juros ou que pode ser considerada empréstimo. É uma antecipação de recebíveis,” disse a fonte. “Além disso, não tem como alguém ter contratado esse produto sem saber que estava contratando, porque o PicPay nunca vendeu esse produto com intermediários, já que era tudo digital, e o cliente tinha que fazer a biometria facial para contratar.”
Independentemente do mérito da class action e da investigação, as duas notícias – num intervalo curto de tempo – adicionam um componente de incerteza sobre uma ação que já vinha sofrendo.
Um analista de sellside disse que vê upside no PicPay porque a empresa tem uma estratégia clara de monetização e uma base grande de clientes, e porque o papel está negociando com múltiplos descontados. Mas “certamente é uma tese que vai estar sempre com essa nuvem de governança por conta dos controladores. Acho que eles sempre vão ter um desconto de governança.”
Depois da queda, o PicPay vale US$ 1,28 bilhão na Nasdaq, e negocia a cerca de 8x o lucro estimado para este ano.
A performance do PicPay pós-IPO não é um caso isolado. A ação do Agibank, que fez seu IPO na Bolsa de Nova York em fevereiro, cai 37%.




