(Imagem: sasirin pamai’s Images)
O mercado pode estar superestimando o tamanho do aperto monetário que será necessário nos Estados Unidos, na avaliação do ASA. Embora os choques geopolíticos do início do ano tenham levado investidores a retirar apostas de cortes de juros e a incorporar um cenário mais duro para o Federal Reserve durante o ano, a instituição financeira trabalha com apenas duas altas na taxa de juros americana.
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A avaliação é da Andressa Durão, economista da instituição financeira, que afirmou em coletiva de imprensa nesta terça-feira (4), que os dados da economia americana ainda não mostram uma deterioração que justifique um ciclo mais agressivo de aperto monetário. Para ela, a guerra no Oriente Médio elevou o risco de inflação, mas esse efeito ainda não se materializou de forma relevante nos indicadores dos Estados Unidos.
“Então, pensando em efeitos da guerra de fato nos dados, a gente não enxerga motivos para que o Fed precisasse correr para apertar a política monetária”, afirmou.
Segundo Durão, a economia americana continua resiliente, enquanto o mercado de trabalho está equilibrado e não apresenta sinais de pressão adicional sobre a inflação. O núcleo da inflação também não teria incorporado, até o momento, o impacto da alta dos preços de energia provocada pelo conflito.
“É óbvio que o aumento do preço da gasolina nos Estados Unidos bate no bolso do consumidor americano, mas a gente não vê o núcleo de inflação subindo. A gente não vê algum efeito secundário”, disse.
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A economista acrescentou que os salários estão desacelerando e que não há, atualmente, uma pressão relevante vinda do mercado de trabalho. “Salários totalmente equilibrados, desacelerando, não tem nenhuma pressão vindo de salário”, afirmou.
ASA vê apenas duas altas de juros
Nesse cenário, o ASA projeta que o Fed elevará os juros em 0,25 ponto percentual em setembro e repetirá a dose em outubro. A expectativa é mais branda que a de parte dos economistas, segundo Durão, que afirmou que a casa está em uma posição relativamente mais dovish ao projetar duas altas, enquanto a maioria trabalha com pelo menos três.
A diferença, segundo ela, está menos na direção da política monetária e mais na intensidade do ajuste. Para o ASA, as duas altas seriam suficientes para levar a taxa a um nível efetivamente restritivo e ajudar na convergência da inflação à meta ao longo de 2027.
“É mais uma calibragem no sentido de deixar o nível da taxa de juros do Fed em um nível restritivo, de forma que você dê conta dessa inflação acima da meta e ano que vem haveria uma convergência”, afirmou.
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Durão ressaltou que o cenário não significa que a guerra tenha deixado de ser um risco para a inflação. O problema é que, até agora, o choque de oferta ainda não se espalhou pela economia americana de maneira suficiente para exigir uma resposta monetária muito mais forte.
“O risco relacionado ao conflito do Oriente Médio é de fato um risco. Ele ainda não se materializou, pelo menos pensando em inflação americana”, disse.
Por isso, a economista avalia que o Fed não precisaria “apertar muito” os juros.
‘Efeito Warsh’ perde força
A mudança na percepção sobre o tamanho do aperto também passa, segundo Durão, pelo chamado “efeito Warsh”. A chegada de Kevin Warsh à presidência do Fed havia alimentado no mercado a expectativa de uma política monetária mais branda, principalmente por ele ter sido indicado pelo presidente Donald Trump.
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Antes dos choques recentes, enquanto a curva chegou a precificar cortes de juros, o ASA mantinha uma visão diferente e não esperava redução da taxa. Na avaliação de Durão, parte dessa divergência vinha da percepção de que o mercado atribuía um viés político à chegada de Warsh ao comando do banco central americano.
“Como ele era o indicado do Trump, o mercado esperava que ele viesse com um tom mais dovish e acabaria entregando esses cortes de juros”, afirmou.
A primeira comunicação de Warsh, contudo, teria frustrado essa expectativa. Segundo Durão, ao sinalizar que faria o necessário para levar a inflação à meta, o presidente do Fed conseguiu reforçar a credibilidade da instituição e provocou uma queda nas expectativas de inflação e alívio nos juros dos Treasuries de 10 anos.
“A primeira coletiva dele foi muito importante para garantir credibilidade”, afirmou.
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A leitura, porém, mudou posteriormente. Para Durão, a comunicação mais recente de Warsh sugeriu que parte do trabalho de política monetária já estaria sendo realizada por meio da própria credibilidade do Fed, reduzindo a necessidade de utilizar a taxa de juros de curto prazo de maneira tão agressiva.
“Ele deu a entender que a credibilidade no banco central era parte do instrumento de política monetária, então que o instrumento taxa de juros de curto prazo do Fed seria só uma parcela do efeito para a política monetária que o Fed pretendia fazer”, disse.
A reação do mercado foi negativa. Segundo a economista, houve abertura dos juros longos e aumento das expectativas de inflação.
“O Warsh acaba perdendo um pouco essa credibilidade e essa confiança no mercado de que ele de fato vai entregar alta de juros”, afirmou.
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Para o ASA, essa perda de força da comunicação de Warsh reforça a visão de que o Fed pode promover um aperto relativamente limitado, em vez de embarcar em um ciclo mais agressivo de altas.
Guerra ainda é risco para inflação
Apesar da projeção mais moderada para os juros, o ASA não considera que o cenário externo tenha se tornado benigno. A guerra entre Estados Unidos e Irã elevou o prêmio de risco geopolítico e mudou a perspectiva para os preços do petróleo.
Antes do conflito, havia uma expectativa de petróleo mais próximo de US$ 70 por barril ou até abaixo desse nível. Agora, segundo Durão, o cenário mais provável é de preços acima de US$ 70, caminhando para algo próximo de US$ 90 em média nos próximos meses.
“O ideal agora é imaginar que ele fica acima de 70 no mínimo e passa para algo mais perto de 90 como média para os próximos meses”, afirmou.
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Esse novo ambiente, na avaliação da economista, mantém os bancos centrais desenvolvidos mais atentos a qualquer sinal de contaminação inflacionária. A diferença é que, no caso americano, os dados ainda não justificariam uma reação muito mais forte.
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