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sexta-feira, agosto 28, 2026

especialistas lembram como o Brasil se tornou referência em meios de pagamento

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O caminho que transformou o Brasil em referência global de pagamentos não foi fruto da sorte. Atualmente, o país registra 240 bilhões de transações bancárias por ano, sendo 83% delas em canais digitais. O Open Finance já ultrapassou 154 milhões de consentimentos, segundo dados citados na Febraban Tech 2026.

A visão dos especialistas é que não houve salto e sim uma construção, que teve início décadas atrás, com o primeiro brasileiro com cartão de crédito no bolso, em 1956.

Mas afinal, como será escrita a história da inovação financeira no médio e longo prazo? Quando alguém lembrar da década atual quais serão os maiores erros e acertos? Especialistas lembraram alguns dos momentos que marcaram a história dos meios de pagamento no Brasil.

Cashback ou milhas: qual compensa mais na hora de usar o cartão de crédito?

Abrir o mercado sem quebrar quem já estava nele

Carlos Yamaguti, sócio-fundador e Conselheiro da Afinz, comentou os aprendizados quando assumiu a Redecard, logo depois da abertura do mercado de adquirência.

Para ele, o efeito mais visível de mudança naquela época foi o preço, com os estabelecimentos ganhando poder de barganha nas taxas. Mas ele lembra que o preço, sozinho, não era o principal. “Simplesmente ter como estratégia redução de preço ia impedir a nossa sobrevivência”, comenta.

A solução naquela época foi anunciar US$ 500 milhões em investimentos (capex) para renovar o parque de maquininhas. Com isso, os novos equipamentos deixaram de ser um terminal preso ao caixa e viraram, nas palavras dele, “uma espécie de robozinho”, um avanço que não existia ainda nos Estados Unidos. Foi assim que as maquininhas passaram a ficar na mão de cada garçom e rodar em programas de fidelidade.

A lógica do compartilhamento da Elo               

Outro acontecimento que marcou a história dos pagamentos brasileiros foi a criação da Elo, bandeira que nasceu pela necessidade de abertura de capital da Visanet, quando a Visa deixou a sociedade e os sócios tinham que trocar o nome da empresa.

Jair Delgado Scalco, sócio-administrador da construtora Bacaba e ex-presidente da Elo, lembra que criar uma bandeira nacional, com apenas 10% do faturamento vindo de transações fora do país, foi um desafio. Para o executivo isso gerava um incômodo estratégico. “Quando a gente tinha parceria com as bandeiras internacionais, sempre ficava refém. Às vezes, era preciso ter primeiro a aprovação da bandeira. E isso atrasava, dificultava”, conta.

Logo depois do surgimento da Elo, a MARCA passou de 10% das transações totais. Para Scalco, a principal lição aprendida naquela época – e que se aplicaria aos dias de hoje – é que nem tudo precisa ser construído dentro de casa.

Inflação e crédito

José Tosi, sócio-fundador da Tokeen Tecnologia e que já trabalhou na Credicard, Fininvest e Mastercard lembra dos tempos em que a inflação corroía qualquer recebível. Na Febraban Tech, ele desvendou um mito: a crença de que o crédito parcelado sem juros tinha sido criado como defesa contra inflação, quando na realidade foi desenvolvido para combater o cheque pré-datado.

Tosi comenta que o que manteve o cartão de crédito em pé naquele cenário foi o prazo de 30 dias para pagar os estabelecimentos. “O funding era uma questão fundamental e muito difícil de ser resolvida se a administradora do cartão tivesse que bancar esse custo de carregamento”, diz.

Os dados por trás do crédito

Durante a Febraban Tech 2026, os executivos também lembraram a trajetória da infraestrutura da informação, com os birôs de crédito nascendo em 1958 para o varejo e em 1968 para os bancos. Tadeu Silva, presidente da Acrefi e que atua há mais de quatro décadas com crédito, contou que no passado o crédito era totalmente relacional, com o histórico de compras no bairro e relacionamento de família. Ele mesmo lembrou que quando era office boy, ia para o SPC com uma ficha, recebia um carimbo verde ou vermelho e ligava do orelhão para o gerente.

A grande mudança aconteceu com o big data e as operações de cartão. “A proximidade relacional não desapareceu, só mudou de lugar”, afirma.

O erro que o Brasil corre o risco de repetir

Diante de todas essas histórias, os executivos refletiram sobre o que não pode ser repetido no próximo ciclo. Para Silva, da Acrefi, o erro está na qualidade do crédito. Ele destaca que mais de 96% da população adulta é bancarizada, mas essa inclusão financeira não foi feita com qualidade.

O erro é perceptível em 82% das famílias brasileiras estão endividadas atualmente, o que mostra que houve um excesso de oferta de crédito para um mercado que ainda não amadureceu como tomador.

“Ficou muito fácil conceder crédito e a gente está colhendo o resultado de toda essa abertura”, avalia Silva. Ele defende que a correção deste erro passa por instituições mais conscientes, educação financeira e pelo Open Finance como ferramenta.

Observando a questão de governança nos meios de pagamento, Dorival Dourado Jr, que é conselheiro independente do Banco BMG, Omni Financeira Graac e TQI Tecnologia, defende uma postura ambidestra, equilibrando resultados do presente e inovação no futuro.

Dourado lembra que muitas pautas nos conselhos mudaram, foram além das demonstrações financeiras e embarcaram na cibersegurança e IA generativa. Para ele, os melhores projetos de inovação falham na execução, mesmo com uma matriz de risco equilibrada.

A revolução do pedágio até o PIX

O pedágio facilmente seria considerado o primeiro pagamento invisível em massa do Brasil, que nasceu fora da indústria bancária, financiado por concessionárias de rodovias.

Este método carecia de infraestrutura, liquidação em tempo real. “O negócio funcionou e mostrou que a confiança das partes envolvidas naquele pagamento era a peça fundamental. Não era nem tanto a tecnologia”, avalia Carlos Zanvettor, vice-presidente da Corpay e criador do Sem Parar Mais.

Ele afirma que a taxa de pedágio levou quase duas décadas para se consolidar, enquanto o PIX acabou crescendo aceleradamente entre os brasileiros. Mas, na visão Zanvettor, há ainda uma lacuna de internacionalização. Ele destaca que o PIX é um sistema robusto e moderno, mas pouco integrado com infraestruturas globais de pagamentos e dependente de mecanismos antigos como o Swift.

Novas tendências

Questionados sobre o que deve marcar a história da próxima geração dos meios de pagamento, os especialistas acreditam que o caminho será guiado por três pilares: meios configuráveis, previsíveis e transparentes.

Silva, do Acrefi, considera que a inteligência artificial no crédito deve impactar menos o acesso e mais a avalição de risco do cliente. Enquanto Tosi, da Tokeen, enxerga o real digital e a tokenização como degrau natural, mas alerta que ativos digitais podem gerar uma desintermediação bancária entre fornecedores e consumidores.

Já Yamaguti, da Afinz, acredita que o diferencial para o próximo ciclo de pagamentos será oferecer uma experiência personalizada e integrada, em um modelo em que a infraestrutura comum colabore com a experiência do cliente e serviços.

Os especialistas destacaram ainda a importância de inovar e evoluir com governança e cuidando das pessoas no processo. Para o conselheiro Dourado, o erro seria não inovar por medo ou excesso de zelo pelo risco.

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