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sábado, agosto 8, 2026

A gente ainda confunde chefe duro com líder forte – Money Times

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A gente ainda confunde chefe duro com líder forte


(Imagem: Devonyu/iStock)

Tem uma cena que se repete em toda mesa de bar de gente que trabalha em empresa: alguém conta, meio orgulhoso, meio traumatizado, do chefe que “não passava a mão na cabeça de ninguém”. Fala isso como quem descreve um personagem de filme de guerra. E os outros da mesa concordam com a cabeça, como se aquilo fosse, de alguma forma, uma virtude.

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Eu cresci profissionalmente ouvindo essa história com variações. Rádio, TV, mercado financeiro — em todo lugar que passei teve uma versão do chefe-que-grita, do executivo que trata bronca como ferramenta de gestão. E o pior: minha geração, os chamados millenials, aprendeu, sem perceber, a admirar isso. Achávamos que dureza era sinônimo de competência.

Eu mudei de ideia rápido depois que um desses chefes me levou ao estresse pós-traumático. E construí minha carreira na gestão (faço isso desde 2016) de uma maneira completamente diferente.

O mundo também mudou. Se você já ouviu qualquer fala ou comentário de estereótipos sobre a Geração Z no mercado de trabalho, sabe disso.

E há números que coadunam com essa mudança. O Brasil registrou, em 2025, mais de 8,5 milhões de pedidos de demissão voluntária — recorde na série histórica. E, segundo levantamento do Ministério do Trabalho e Emprego com mais de 53 mil trabalhadores, 16,2% desses pedidos tiveram como motivo problemas com a chefia imediata.

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Não é a concorrência, nem o salário baixo, não é falta de plano de carreira. É o chefe. Diretamente.

E o dado fica mais desconfortável quando cruzamos com uma pesquisa da Gallup: 70% da variação no engajamento de uma equipe é explicada pela qualidade da liderança direta. Ou seja, quando o time capenga, na maior parte das vezes o problema não está lá embaixo. Está em quem manda.

Foi refletindo sobre isso que encontrei “Bases Fortes”, livro novo da Brené Brown, socióloga texana que passou a carreira estudando vergonha, vulnerabilidade e coragem — e que virou, sem querer, uma espécie de terapeuta de executivo do mundo inteiro. Se você não leu “Coragem para ser imperfeito”, o livro dela que virou um fenômeno (e um talk show na Netflix) deveria.

O novo livro de Brené chega justamente para atacar essa normalização da liderança agressiva, arrogante, às vezes cruel, que a gente aprendeu a confundir com força.

A tese de Brené é simples de enunciar e difícil de praticar: dá para ter alta performance sem abrir mão da vulnerabilidade.

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Não é papo de autoajuda fofa — ela recorre a décadas de pesquisa com executivos de verdade para argumentar que times lideram melhor quando o chefe admite erro, pede ajuda, mostra incerteza sem perder a direção. Conexão, disciplina e responsabilidade — nessa ordem — é o tripé que ela propõe no lugar do medo.

E aqui mora a virada que me interessa: a gente trata “duro” e “forte” como sinônimos, mas são coisas bem diferentes. Duro é rígido, quebra sob pressão, não escuta. Forte é o que aguenta o peso e ainda flexiona. Uma ponte de concreto maciço rachou sob terremoto; uma ponte projetada para balançar segue de pé.

Liderança é isso. A base rígida quebra. A base forte cede um pouco, aprende, se ajusta — e continua de pé.

Brené é ousada numa definição que faz no início do livro: não estamos indo tão bem na tarefa de sermos humanos. “No sentido coletivo, eu diria que estamos nos sentindo desconectados, desconfiados e emocionalmente desregulados”, ela diz, antes de elencar os impactos desse momento da humanidade na construção de lideranças e times.

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Então da próxima vez que alguém contar, com orgulho, a história do chefe que nunca afrouxava — vale perguntar baixinho: e quantas pessoas boas esse chefe perdeu pelo caminho?

Bases Fortes

Autora: Brené Brown
Editora: Bestseller (Grupo Editorial Record)

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