“Bênção geológica” da Colômbia e Indonésia virou o mercado global de café de cabeça para baixo em menos de dez dias
Guilherme Nannini
Quando o mundo corporativo ou a geopolítica internacional abordam o tema terras raras, a mente corre imediatamente para os elementos químicos que alimentam chips, baterias de carros elétricos e turbinas eólicas. Mas, no AGRONEGÓCIO global, existe outra categoria de terra tão rara e cobiçada quanto o neodímio ou o lantânio: solos cujas propriedades geológicas únicas são capazes de entregar colheitas extraordinárias, de ótima qualidade, impossíveis de replicar no restante do planeta.
A famosa terra roxa do Paraná e do interior paulista – nascida da decomposição do basalto vulcânico – construiu o império cafeeiro brasileiro. O chernozem da Ucrânia sustenta o celeiro de grãos da Europa com sua espessa camada de húmus. Mas poucas regiões no mundo encarnam a metáfora de “solo raro” com tanta força quanto os solos vulcânicos da Colômbia e da Indonésia, conhecidos como andossolos.
Localizados sobre o Anel de Fogo do Pacífico, esses dois países foram presenteados pela natureza com cinzas vulcânicas jovens, ricas em nutrientes e renovadas periodicamente por erupções. É essa raridade do solo que dá ao café arábica lavado da Colômbia sua acidez marcante no Eixo Cafeeiro e ao café indonésio, em Java e na ilha de Flores, sua estrutura encorpada. O problema de morar sobre uma mina de ouro geológica é que a mesma tectônica de placas que fertiliza a terra pode, a qualquer instante, destruir tudo ao redor.
E foi exatamente isso que aconteceu neste mês de agosto.
No dia 10, um violento terremoto de magnitude 7,4 atingiu o oeste da Colômbia, com epicentro próximo a San José del Palmar. O abalo atingiu em cheio o “Coração do Café” – regiões produtoras essenciais como Quindío, Risaralda e Caldas. Mais do que o impacto direto nas lavouras, o sismo paralisou temporariamente as operações do estratégico porto de Buenaventura e destruiu trechos vitais de estradas e pontes, interrompendo o escoamento do maior produtor mundial de suave lavado.
Enquanto o mercado internacional tentava calcular o tamanho do gargalo colombiano, a terra voltou a tremer do outro lado do globo. No último sábado (15), um terremoto de magnitude 7,7 atingiu a ilha de Flores, no leste da Indonésia, seguido por tsunamis e milhares de réplicas. Além das perdas humanas e dos danos às comunidades agrícolas, deslizamentos cortaram a rodovia Trans-Flores, isolando pequenos produtores do acesso a insumos e aos centros de comercialização.
A reação da Bolsa de Nova York (ICE Futures US) foi imediata e fulminante. O contrato com vencimento em setembro de 2026, que havia fechado a 332,30 cents/lb no dia do primeiro tremor na Colômbia, disparou em uma escalada de prêmio de risco. Com a soma das incertezas logísticas colombianas aos bloqueios na Indonésia, a cotação rompeu barreiras até alcançar o pico de 363,40 cents/lb no fechamento desta terça-feira, 18, alta de 31,10 cents/lb, ou cerca de 9,4%, em apenas oito dias. O fenômeno, claro, não foi o único motivo para a disparada do grão, que enfrenta um cenário de aperto na oferta física imediata e nos estoques internacionais.
A alta nos preços futuros expôs a grande ironia do AGRONEGÓCIO de alta precisão: os mesmos eventos geológicos que criaram as “terras raras” da agricultura ao longo de milênios podem, em questão de segundos, fechar os caminhos que levam a bebida mais popular do mundo até a xícara do consumidor. Se o setor de tecnologia teme o monopólio da extração mineral, o mercado de café descobriu, de forma amarga, que a própria Terra tem o hábito de cobrar caro por suas raridades.




