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quinta-feira, agosto 27, 2026

Negócio da China – Broadcast

DEVE LER


Eduardo Laguna

Há algum tempo, a “invasão” dos carros chineses virou um capítulo à parte na divulgação dos resultados da indústria automotiva. Em variações do mesmo tema – sem sair do tom, como diria Herbert Vianna -, um grito de socorro parece sair quase todo mês das coletivas da Anfavea, a entidade que representa as montadoras instaladas no Brasil. Slides mostrando a disparada das importações da China, estimativas de quantos veículos teriam deixado de ser produzidos por aqui e alertas sobre o impacto em empregos e investimentos fazem parte do enredo.

Nos bastidores, porém, o tom dos executivos que comandam as montadoras costuma ser bem menos beligerante com o “inimigo chinês”. Eles até endossam o pedido por barreiras comerciais, mas também adotam um discurso mais pragmático. A China é, sim, concorrente, só que virou também um grande negócio para fabricantes que produzem no Brasil há décadas – em alguns casos, há mais de um século.

Stellantis (dona da Fiat), General Motors (GM) e Renault já têm os seus “carros chineses” rodando no Brasil, e outras montadoras ainda devem entrar nessa, seja por meio de parcerias, seja trazendo modelos das operações próprias na China. Neste ano, mais da metade do crescimento das compras de carros tem sido puxada por híbridos e elétricos, em sua maioria vindos do gigante asiático. Consultores projetam que, em dez anos – ou talvez bem antes – a China terá um a cada três carros vendidos no Brasil. As montadoras tradicionais não querem deixar esse filão só para BYD, GWM e as demais marcas chinesas que estão desembarcando por aqui.

Um executivo de uma MARCA tradicional, daquelas do pelotão de frente da indústria automotiva nacional, foi franco ao comentar comigo e um colega como as montadoras veteranas estão encarando a tal invasão chinesa: “Olha, a grande verdade é que o pessoal está gostando de trazer carro da China”.

Não por acaso, quando os dirigentes da indústria se reuniram a portas fechadas para discutir a ameaça da Anfavea de levar à Justiça as cotas de importação de híbridos e elétricos, a decisão foi simples: melhor deixar quieto.

Enquanto a Anfavea levanta a bandeira da indústria nacional, a cúpula das montadoras olha, antes de tudo, para o que traz resultado ao negócio. Em outras palavras, mas mantendo o espírito do que ouvi de alguns executivos, a lógica é: “Se é carro chinês que o brasileiro quer, é carro chinês que vamos vender”. Mesmo que isso signifique menos veículos saindo de fábricas no Brasil.



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