Por André Marinho*
Era como se Londres quisesse provar um ponto. Na semana em que a metrópole reunia o setor privado para discutir a emergência climática, na London Climate Week, uma onda de calor extremo mudou a rotina de uma cidade acostumada com o céu cinzento e temperaturas amenas.
Logo no dia em que desembarquei na capital britânica, para cobrir uma agenda da Confederação Nacional das Seguradoras (CNSeg), a longa espera na fila da imigração serviu de aviso para o que estava por vir. Sem potência suficiente, o ar-condicionado tinha efeito quase marginal em um ambiente fechado e repleto de passageiros que suavam, se abanavam com o que tinha a mão e… perdiam a paciência.
Nas ruas, os termômetros superaram a MARCA dos 35°C e quebraram múltiplos recordes. Até para um carioca que cresceu nos tórridos verões do Rio 40°, as cenas de uma Londres prostrada sob uma atmosfera fervente impressionaram.
A vasta rede de metrô, o Underground, enfrentou atrasos e paralisações, à medida que o calor dilatava os trilhos e dificultava a passagem dos trens. Embarcar no vagão era como entrar em uma sauna gigante. O famoso Mind the gap, que se ouve ao entrar no trem, estava mais para Mind the nose. Os icônicos ônibus vermelhos de dois andares circulavam com ocupação bem abaixo da capacidade, enquanto as pessoas davam preferência a bicicletas ou à boa e velha caminhada às margens do Rio Tâmisa.
Na City, o centro financeiro de Londres e da Europa, executivos tiravam o paletó e almoçavam na sombra de arranha-céus envidraçados. Durante um evento na sede local do Banco do Brasil, uma britânica resumiu o sufoco: “Esta cidade não foi preparada para dias tão quentes”.
Na jornada a pé de uma pauta para outra, na efervescência da City, a boca deste repórter secou, a temperatura corporal disparou e o coração bateu mais forte. Não foi nada mais grave que um mero susto, mas imagine a ironia de sair de um país tropical para passar mal de calor no Hemisfério Norte. As contradições de um planeta em ebulição.
Enquanto o sol brilhava forte lá fora, os engravatados executivos de seguradoras se abanavam e discutiam soluções para lidar com a emergência do clima. Na linha de frente da crise climática, o setor tem observado um volume crescente de avisos de sinistros em decorrência de eventos extremos. Um dos mecanismos em discussão é a criação de um seguro catástrofe no Brasil, que abarcaria perdas econômicas de maior porte, como as enchentes do Rio Grande do Sul em 2024.
Para amenizar um pouco do martírio, muitos londrinos recorriam a leques e ventiladores compactos que os acompanhavam como um acessório de sobrevivência. Mas dispositivo nenhum será mais efetivo do que um esforço definitivo contra a mudança climática. Afinal, como alertou o secretário-geral da ONU, António Guterres, Londres está cozinhando no calor extremo.
Que a metáfora hiperbólica convença a humanidade de que passou da hora de agir.
*O repórter viajou a convite da Confederação Nacional das Seguradoras




