Apesar da agenda esvaziada de indicadores no Brasil, o Ibovespa abriu a sexta-feira, 14, em tom de cautela. O humor mais contido no exterior se soma à reação do Brasil aos Estados Unidos, anunciada ontem à noite.
Às 11h17 desta sexta, o Ibovespa cedia 1,11%, na mínima aos 165.250,03 pontos, vindo de abertura na máxima em 167.099,46 pontos, estável. Petrobras (PETR3;PETR4) subia entre 0,72% (PN) e 0,71% (ON). Vale (VALE3) cedia 0,7%. As ações de bancos recuavam até 2% (BB – BBAS3). Só Unit de Santander (SANB11) subia (1,07%).
O governo abriu processo para aplicar a Lei de Reciprocidade contra os EUA, em resposta à tarifa de 25% imposta a produtos brasileiros por supostas práticas comerciais desleais. Ainda ficam no radar balanços, como Braskem (BRKM5), Raízen (RAIZ4), entre outros.
A resposta do Brasil eleva mais a parcimônia recente dos agentes financeiros. Ontem, o Ibovespa caiu pela oitava sessão consecutiva, elevando a perda na semana para 3,14% e o recuo em agosto para 6,12%, em meio a receios fiscais ampliados pela disputa eleitoral. Esse ambiente tem afastado investidores da Bolsa, sobretudo estrangeiros. Desta forma, pode acumular o segundo recuo semanal seguido.
“O mercado não está precificando apenas a reciprocidade, mas o risco de uma escalada”, diz Cleiton Souza, sócio-fundador da Private Investimento. Conforme ele, enquanto a medida funcionar como instrumento de negociação, o impacto tende a ser administrável. “O problema para Bolsa e câmbio começa se a negociação der lugar a uma guerra comercial efetiva”, afirma Souza.
Já Ricardo Trevisan, CEO da Gravus Capital, o anúncio pelo governo brasileiro da abertura da Lei de Reciprocidade é mais um movimento de sinalização diplomática do que de retaliação imediata. “Ainda não há contramedida na mesa, há um instrumento de pressão negocial sendo acionado. O rito passa pela Camex e leva tempo, o que dá espaço para acordo antes de qualquer sobretaxa efetiva”, avalia.
De todo modo, o quadro é de cautela aqui, apesar do viés positivo em Nova York, após sinais de manutenção dos juros pelo Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) esta semana.
Investidores seguem saindo da B3. Na sessão da última quarta-feira, houve retirada de capital externo R$ 1,632 bilhão da B3, aumentando o total de saídas neste mês para R$ 13,561 bilhões. No acumulado do ano, o fluxo de capital externo está positivo em R$ 22,846 bilhões.
De acordo com o analista Gabriel Mollo, da Daycoval Corretora, o principal tema para os ativos brasileiros continua sendo a combinação entre risco fiscal e incerteza eleitoral. “A percepção de que o próximo governo terá dificuldades para promover um ajuste fiscal consistente começa a se transformar em prêmio de risco nos preços dos ativos”, afirmou.
“A preocupação aumenta com a proximidade das eleições e com a saída acelerada de capital estrangeiro”, acrescentou Mollo.
“O mercado deve continuar acompanhando de perto o resultado das eleições, já que ele poderá influenciar os rumos da política fiscal nos próximos anos”, afirmou o Bank of America em relatório a clientes. “A confiança na condução das contas públicas tornou-se o fator decisivo”, acrescentou.
“Criamos os nossos próprios problemas. O copo meio cheio é que se você tiver caixa para comprar, vale a pena. O mercado está disfuncional”, diz Thiago Salomão, fundador e CEO do Market Makers.
Conforme Salomão, nesta semana houve indícios claros de que o Brasil pode enfrentar uma crise de crédito antes do que o esperado, após bancos como BTG Pactual (BPAC11) e Banco do Brasil (BBAS3) informarem aumento da inadimplência no sistema financeiro. “Dados de inadimplência trouxeram dados preocupantes CNC – Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo. Quando saem resultados ruins de empresas listadas em Bolsa, preocupa mais”, afirma o CEO do Market Makers.
Para Eduardo Carlier, codiretor de gestão da Azimut Brasil, o mercado segue em “modo verificação”, com investidores buscando confirmar a trajetória de dados no Brasil e no exterior antes de assumir posições mais direcionais.
Na leitura do gestor, o impacto mais direto de alta para a Bolsa viria de um ciclo “sustentável” de queda da Selic, mas o cenário ainda depende da consolidação dos indicadores. Carlier afirma que a ata do Comitê de Política Monetária (Copom) ajuda ao endereçar a comunicação e “normalizar” parte das expectativas, mas reforça que a conclusão central permanece, a de que a política monetária segue dependente de dados, inclusive lá fora. “O melhor cenário é a trajetória de dados permitir um corte mais extenso de juros”, resume.
Ontem, o Ibovespa fechou em baixa de 0,23%, aos 167.100,95 pontos. Foi o pior resultado desde agosto de 2023.
O petróleo cedia marginalmente e o minério de ferro fechou em alta de 0,42% (Dalian) e de 0,26% (Singapura).
(com Reuters e Estadão Conteúdo)




