O deputado Ricardo Salles (Novo-SP), candidato a uma das duas vagas ao Senado por São Paulo, se orgulha de ser fiel a suas ideias desde o início da sua carreira política. Fundador do grupo Endireita Brasil em 2006, ele defende, desde então, as ideias liberais na economia e conservadoras nos costumes, que emergiram com força no país nos últimos anos. Salles foi ministro do Meio Ambiente nos dois primeiros anos do governo Bolsonaro, um dos principais propulsores da pauta conservadora no País.
Na disputa ao Senado, o candidato tem competidores de peso dos dois lados. No campo progressista, disputa uma das duas vagas ao Senado com outra ex-ministra do Meio Ambiente, Marina Silva (Rede-SP). Pelo campo conservador, concorre com o deputado federal Guilherme Derrite (PL-SP) e com o deputado estadual André do Prado (PL-SP), presidente da Assembleia Legislativa. Este último ganhou a pecha de “intruso” do candidato do Novo por considerar que se trata de um conservador de ocasião.
Mas Prado, assim como Derrite, tem a bênção do candidato à presidência do PL, Flávio Bolsonaro, além do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP). Salles não se intimida. “André do Prado é facilmente desconstruído na direita, por todo o seu histórico de alianças oportunistas”, disse ele.
Nesta entrevista ao NeoFeed, critica tanto o tarifaço de Trump quanto o governo Lula por não ter negociado mais, para evitar que o Brasil fique à mercê da China.
De sua passagem como ministro, reconhece o aumento do desmatamento, e fala de sua mudança de percepção sobre o papel das Forças Armadas. “Antes de ser ministro, tinha uma visão mais romântica, e hoje eu tenho uma visão muito crítica”, afirma ele, que defende uma revisão no papel da instituição, que deveria estar focada na fronteira para evitar o tráfico internacional.
Defensor da posse de armas e da classificação do Comando Vermelho e do PCC como organização terrorista pelos EUA, prega um diálogo permanente sobre segurança pública para que o tema avance de fato. Vencer as resistências da esquerda que hostiliza a polícia, e focar na contaminação interna do sistema de segurança pública é condição “sine qua non” para uma boa política de combate ao crime.
Após a realização da entrevista, o Ministério Público Eleitoral pediu que o TRE-SP (Tribunal Eleitoral de São Paulo) indefira o registro de candidatura de Salles ao Senado. A alegação é de que o candidato não apresentou certidão dos processos judiciais em andamento.
Em pronunciamento, Salles afirmou que a certidão apresentada no registro da candidatura estava incompleta por um erro do cartório, que não detalhou o status de uma ação que teria saído da esfera estadual para a federal. “Amanhã, portanto, vai ser juntado a certidão com o status detalhado da ação.”
Confira, a seguir, os principais trechos da entrevista e assista na íntegra no vídeo acima.
Competição na direita por vaga ao Senado
André do Prado é um intruso. Os bolsonaristas, que têm a capacidade de leitura de quem é ele, já o descartam de cara. Não representa, em nenhuma medida, aquilo que a direita chamada bolsonarista defende. Eu lancei a minha candidatura antes, inclusive até antes do próprio [Guilherme] Derrite, que é meu amigo. Estou na frente do André do Prado, nas pesquisas relevantes. Tenho 20 anos de militância na direita. Quando fundei o Movimento Endireita Brasil, em 2006, de lá para cá, toda a minha trajetória na política foi sempre sob a mesma cartilha, a mesma visão liberal na economia, conservadora nas questões de costume.
Posse de armas e segurança pública
Eu sou totalmente favorável ao direito à legítima defesa, ao que o cidadão de bem tenha arma para se defender, porque o bandido tem arma livre. Você pode até ter um desvio ou outro de armas legais que caem nas mãos do crime. Mas o grande volume de armas do crime organizado vem do Paraguai, dos países estrangeiros que mandam fuzis para cá, granada, metralhadora e tudo mais.
“A mentalidade da esquerda, de certa forma, infantiliza o bandido, dizendo que ele é vítima do processo social e criminaliza a polícia, dizendo que ela é repressora”
O cidadão de bem está refém da criminalidade. O que nós acompanhamos nos últimos 20 anos, talvez até mais, é que a mentalidade da esquerda, de certa forma, infantiliza o bandido, dizendo que ele é vítima do processo social e criminaliza a polícia, dizendo que ela é repressora. Isso foi se traduzindo em mudanças legislativas que tornaram a vida do bandido cada vez mais confortável, com saída, com progressão de pena.
Nenhum problema de segurança pública tem solução simples. Olha o que [o presidente Nayib] Bukele fez em El Salvador. O Brasil é um país de tamanho continental, com 210 milhões de pessoas e uma cultura completamente diferente. Mas não quer dizer que a gente não possa se inspirar no modelo de endurecimento sobre a população carcerária, como fez o Bukele.
Ou no modelo de tolerância zero do ex-prefeito Rudolph Giuliani, em Nova York, [entre 1994 e 2001]. Ele precisou fazer uma faxina nas instituições, porque você realmente não consegue impor a lei se a própria instituição, a quem compete o cumprimento das normas, estiver contaminada. E esse eu acho que é o grande problema hoje da segurança pública no Brasil. Há uma contaminação interna do sistema de segurança pública, que é condição sine qua non e, portanto, antecedente para ter uma boa política de combate ao crime da porta para fora.
Nem “coitadinho”, nem “libera para matar”
O bandido de distintivo é pior que o bandido porque ele usa o distintivo para cometer crime. Os excessos, quando existem, têm que ser coibidos. Mas a gente está usando os excessos como regra. Tem que ter uma linha clara do que é a legalidade. A dicotomia que se estabeleceu impede uma construção coerente e construtiva. Não é essa visão de “Libera para matar todo mundo”. Mas também não é uma visão de “coitadinho”. Depois de 14 estupros, nove assaltos e 18 estelionatos, nós vamos tentar uma reconstrução dessa pessoa? Não temos tempo nem dinheiro para ficar recuperando gente que não vai se recuperar. No Senado, há discussões mais razoáveis, menos acaloradas de um lado e do outro.
Papel das Forças Armadas na segurança
Com 81 senadores, você tem condição de fazer um diálogo efetivo, uma discussão mais séria, tanto na Comissão de Relações Exteriores quanto na de Defesa Nacional. Você vai chamar os comandantes das três Forças Armadas e pedir que cumpram seus papéis. Para plantar árvores e cuidar de dente de criança na Amazônia, eu não preciso das Forças Armadas. Eles só sabem cobrar orçamento. A mentalidade das Forças brasileiras está voltada para isso. Ou para projetos megalomaníacos que demoram 30 anos para ficar de pé, ou tarefas que sobram, quase infantis. Eu me lembro da operação de garantia da Lei e da Ordem, a primeira que nós fizemos no governo Bolsonaro, em agosto de 2019, quando estavam tendo as queimadas lá na Amazônia.
“Para plantar árvores e cuidar de dente de criança na Amazônia, eu não preciso das Forças Armadas. Eles só sabem cobrar orçamento”
E tinham queimadas criminosas. Era eu quem tinha que me explicar. Se você quer combater o garimpeiro, o madeireiro ilegal, o cara que está pondo fogo, significa pegar o seu fuzil, cercar o cara e, se ele atirar em você, atira nele. Para plantar árvores, a gente não precisa. Seria deles um papel de fronteira. A nossa guerra não é na Ucrânia, nem no Irã. A nossa guerra é diária na fronteira com o Peru, com a Bolívia, com a Colômbia.
Tarifaço de Trump incoerente e desmatamento
O desmatamento é um problema grave no Brasil e decorre basicamente da ausência de alternativa econômica. Não vou aqui dizer que não aconteceu no nosso período, mas tem que entender porquê. Nós não éramos favoráveis ao desmatamento. O problema é que, acima da discussão ambiental, você tem que colocar as pessoas da Amazônia. Você tem 26 milhões de brasileiros que vivem na Amazônia sem oportunidade de emprego e renda. Onde é que esse cara vai trabalhar? Você está morrendo de fome. Tem uma oportunidade de cortar madeira ilegal? Você vai.
Aí você soma isso à entrada do crime organizado naquela região. Trump não está nem aí para o desmatamento. Isso é conversa mole. Por que eu estou te taxando? Por causa do trabalho escravo? Do desmatamento? Alguém acredita que o Trump, com aquela turma que está ali em volta, está preocupado com algum desses itens? Ele usou isso de pretexto para taxar o Brasil.
Claro, ele tem uma antipatia com Lula e o PT. Mas eu acho que ele ia fazer o tarifaço, de qualquer forma, como fez contra todos os países praticamente. O grau de coerência é zero. Ele queria uma negociação. E o governo brasileiro, nesse aspecto, falhou, por diversos motivos. Anteviram que poderiam tirar proveito. Todo nacionalismo dá voto, ainda que de maneira efêmera, até porque mexe com o nosso brio. Realmente uma imposição de uma tarifa unilateral e injusta, que eu, que sou de direita, não concordo. Sou a favor do livre mercado. Não tem como defender. Isso vai prejudicar o Brasil e vai prejudicar os Estados Unidos também.
“A atitude do Eduardo Bolsonaro, num primeiro momento, colocou a bola no pé do Lula para o gol, e ele chutou. Depois ele [Eduardo] percebeu a besteira que fez e mudou a sua posição”
Interferência dos Bolsonaro e China
A atitude do Eduardo Bolsonaro, num primeiro momento, colocou a bola no pé do Lula para o gol, e ele chutou. Depois ele [Eduardo] percebeu a besteira que fez e mudou a sua posição. Comemorou o tarifaço, assim como o Tarcísio colocou o boné do Trump na cabeça.
Não acho que isso influenciou absolutamente em nada no tarifaço. Trump ia impor o tarifaço ao Brasil, com ou sem Eduardo. Os americanos, espertamente, deram essa roupagem ideológica da perseguição, Bolsonaro e tudo mais.
Se o diálogo do governo brasileiro com os americanos tivesse sido: ‘olha, neste tema aqui, dessas indústrias aqui do setor A, B e C, nós estamos juntos com a China. Trago aqui um pouco de tecnologia americana em detrimento da chinesa. Vamos nos juntar aqui para pôr um freio na China’. Mas a gente não precisava se colocar ainda mais de joelhos. A negociação brasileira tinha que ter sido mais cuidadosa, tinha que ter sido mais colaborativa e não como foi.
Senado e o impeachment de ministros do STF
Eu acho que não é uma questão de defender ou não [impeachment de ministros do STF]. É um instrumento que está previsto na Constituição e é a consequência prática do crime de responsabilidade por ministros do Supremo. Agora, veja como é interessante. Sou advogado de formação e tenho muitos amigos advogados criminalistas, a maioria de esquerda. Quando, na Lava Jato, eles criticaram a operação, o [ex-juiz Sergio] Moro, criticaram o [então ex-procurador] Deltan Dallagnol por desrespeito ao devido processo legal.
Pula para os processos do 8 de janeiro. Claro que são situações diferentes, mas as mesmas críticas de ausência de contraditório, de não observância do devido processo legal, são críticas absolutamente pertinentes também na história do 8 de janeiro, do golpe e tudo mais. Fiz essa digressão porque, em relação ao processo de apuração de crime de responsabilidade, tem que fazer o que não se fez: observar estritamente o devido processo legal, ampla defesa e o contraditório. Para você poder dar o exemplo, inclusive de pacificação da sociedade. A esquerda se indignou quando estavam prendendo o Lula. A direita se indignou quando prende o Bolsonaro. E aí fica essa indignação seletiva. Defendo que o Senado dê o exemplo de respeito ao devido processo legal, ampla defesa e o contraditório.
“A esquerda se indignou quando estavam prendendo o Lula. A direita se indignou quando prende o Bolsonaro. E aí fica essa indignação seletiva”
Tentativa de golpe
Reconheço que um coronel [na verdade, o general da reserva Mário Fernandes] e mais meia dúzia de militares elaboraram um plano completamente absurdo, o tal do Punhal Verde e Amarelo [que previa assassinato de autoridades]. Arrisco a dizer que foi a coisa mais ridícula do mundo, nenhuma medida contemplada foi implementada.
Não estou defendendo isso. Mas garanto: numa reunião do MST, numa reunião do PSOL, se puser uma mosquinha lá para ouvir, a coisa mais leve que você vai ouvir é gente dizendo que vai pegar esse Bolsonaro e cortar a cabeça dele.
Você vê o nível de infantilidade desses militares. O cara fazer um plano, coloca até os nomes. Se os generais brasileiros quisessem ter dado um golpe e fossem gente brava de verdade — não essa turma que eu falei aqui no começo, preocupada com o salário, gratificação, motorista —, eles cercavam o Supremo, põem a tropa toda lá em volta e prendiam todo mundo e acabou. Mas isso não é golpe. A mulher que pôs batom na estátua toma 14 anos de prisão. Que negócio é esse? Que país nós estamos vivendo?
Ricardo Salles X Marina Silva
Nós temos origens muito diferentes. A Marina do Acre tem uma visão da história da floresta, da Amazônia. Basicamente ela fala de duas coisas: floresta amazônica e mudança do clima.
Eu sou um cara de São Paulo, próximo ao setor privado. Sou advogado de várias empresas, de diferentes segmentos da economia. Cresci, estudei, moro em São Paulo. A minha visão é a importância do setor privado para diversas coisas, inclusive o cuidado ambiental. Qual é o maior problema ambiental brasileiro para mim? A maior agenda ambiental urbana é a falta de tratamento de esgoto e má gestão do lixo, ou seja, dos resíduos sólidos. A Marina não está nem aí para esse assunto.
Não fez nada, nem pela solução do problema de falta de tratamento de esgoto no Brasil e muito menos do lixo, ao contrário. Eu, quando fui secretário de Meio Ambiente em São Paulo, do governo Geraldo Alckmin, criei um programa chamado Lixão Zero. Nos deparamos com uma situação em que havia 111 municípios dos 645 com situações ruins de lixo e criamos o programa Lixão Zero.
“A maior agenda ambiental urbana é a falta de tratamento de esgoto e má gestão do lixo, ou seja, dos resíduos sólidos. A Marina não está nem aí para esse assunto”
Quando eu virei ministro, fiz a mesma coisa, o programa Lixão Zero no Brasil inteiro. De 1000 e tantos, baixamos para 500. E o Marco Legal do Saneamento, para quem é do mercado financeiro, é uma baita oportunidade.
O Congresso aprovou com o voto contra da esquerda. O partido da Marina votou contra o marco legal, o PT, o PSOL. Ainda assim, passou. Começou a atrair investimento. Faz a Cedae (Companhia Estadual de Água e Esgoto, do Rio de Janeiro, privatizada em 2021). Você lembra das Olimpíadas (2016)? Ninguém queria nadar na Baía da Guanabara. A quantidade de dejetos que tinha lá… Cedae foi um sucesso. Aí começa o governo Lula, e o senhor [ministro da Casa Civil] Rui Costa, representante do lobby dos funcionários públicos da empresa de saneamento lá da Bahia, convenceram o Lula a assinar um decreto praticamente aniquilando o Marco, não como norma, mas como conteúdo, porque a lei determina que a regulamentação é toda feita por decreto.
O que diz a dona Marina Silva contra a destruição do marco legal pelo senhor Lula? Nada. Nem uma única palavra. Sorte que nós fizemos na Câmara, no Congresso, um PDL, um Projeto de Decreto Legislativo, anulando o decreto do Lula. Isso resultou na recente privatização da Sabesp e da Copasa em Minas Gerais.




