Em um país latino-americano exportador de petróleo, um governo de esquerda tenta a reeleição contra um candidato de extrema direita.
A política econômica do mandato que está terminando foi marcada por estímulo à demanda praticamente constante (via, entre outros instrumentos, aumentos anuais do salário mínimo acima da inflação), que segurou a atividade econômica mas desaguou em um crescimento acelerado da dívida pública, dificuldades para o banco central atingir a meta de inflação e os juros mais altos em décadas.
As pesquisas de intenção de voto indicam um empate técnico nas simulações de segundo turno, e a potencial reação do mercado à vitória de qualquer um dos principais candidatos parece ser diametralmente oposta.
O candidato do governo promete continuidade e não reconhece a urgência de um ajuste fiscal; a oposição fala em cortar gastos públicos e atrair investimento privado. Além da economia, a percepção de insegurança pública e o combate às facções envolvidas em tráfico internacional de drogas são preocupações latentes dos eleitores.
Estamos falando da Colômbia, que vai às urnas hoje. As semelhanças com o Brasil, porém, são tantas que fazem desta eleição um experimento a ser observado com atenção – um teste para várias teses que vêm sendo debatidas sobre o futuro político do país.
Começamos pela manipulação do ciclo econômico pelo governo visando benefício eleitoral, algo pelo menos tão antigo quanto o trabalho clássico de William Nordhaus, de 1975. Na Colômbia, o Governo Gustavo Petro concedeu, em dezembro, um aumento de 23% para o salário mínimo, totalizando uma alta de 75% durante os quatro anos do mandato. A expectativa de mercado e do banco central era uma alta pouco maior que 10%.
A medida foi uma injeção de adrenalina para a taxa de aprovação do governo, que estava abaixo de 40% e chegou, em fevereiro, perto de 50% (depois recuou um pouco e está em 46% segundo a pesquisa mais recente).
Como consequência, o indicado para a sucessão (como o México, a Colômbia não permite reeleição presidencial), Iván Cepeda, tornou-se um candidato competitivo. Segundo o Polymarket, sua probabilidade de vitória saiu de menos de 20% para algo entre 40% e 50% – compatível com o que diriam os modelos que estimam as chances de um sucessor pela popularidade do governo atual.
Como esperado, a medida provocou um salto nas expectativas de inflação (para 2026, de 4,6% para 6,4%) e obrigou um banco central que já estava com dificuldades em trazer a inflação de volta ao centro da meta (como aqui, 3%) a retomar altas de juros. Entre janeiro e março, a taxa básica subiu 2 pontos para 11,25%, revertendo boa parte do afrouxamento pós-pandemia. Os juros muito provavelmente teriam subido ainda mais se não fosse a configuração do comitê de política monetária e a atuação do governo.
No BC colombiano, o Ministro da Fazenda não só tem um voto nas decisões de juros como também preside o comitê – pela lei, as reuniões não podem acontecer sem ele. Depois da decisão, por maioria, de aumentar os juros em 1 ponto em março, o ministro German Ávila, que vinha votando por cortes de juros, retirou-se em protesto da reunião e ameaçou não comparecer à reunião de abril – a última agendada para antes do primeiro turno da votação.
O suspense quanto à realização da reunião ficou no ar até a última hora. No fim, o ministro apareceu e conseguiu arrancar uma concessão inesperada, que manchou a independência do comitê: os juros foram mantidos por unanimidade.
Depois, a imprensa noticiou um acordo entre o banco central e o governo, sob a ameaça do Presidente Petro de anunciar um novo aumento do salário mínimo caso os juros voltassem a subir.
O legado macroeconômico do Governo Petro lembra muito o do Lula 3, guardadas as devidas proporções e a menor disposição do nosso presidente de bater de frente com o Congresso e os mercados.
Nos dois casos, houve uma opção clara por políticas de estímulo ao consumo, com um verniz de combate à desigualdade. Nos dois casos, a conta veio rapidamente no custo da dívida pública – coincidentemente, títulos pré-fixados de dez anos em moeda local dos dois países pagam cerca de 14% ao ano, uma bonança para os poupadores (“rentistas”) que destrói a capacidade de investimento e anula as boas intenções de redistribuição.
Por fim, nos dois casos a reação do mercado só não é pior porque há uma probabilidade percebida relevante de reversão dessas políticas sob um novo governo – da mesma forma, reeleições provavelmente implicariam algum grau de crise fiscal, a ser debelada logo no início do próximo mandato com custos recessivos.
No cenário eleitoral, as semelhanças na polarização esquerda-direita, com pouco espaço para o centro tradicional, escondem algumas diferenças fundamentais.
Abelardo de la Espriella, o favorito para ser o próximo presidente (ao menos pelo Polymarket, que coloca sua probabilidade de eleição em mais de 60%), tem credenciais de outsider mais legítimas que as de Jair Bolsonaro em 2018.
Espriella nunca ocupou cargo público, é um fenômeno das redes sociais, e importa descaradamente o discurso “linha dura” e o visual (a ridícula barba desenhada) do líder populista e autoritário de El Salvador, Nayib Bukele.
Aqui, seria como se Renan Santos conquistasse a maioria do voto da direita. Na Colômbia, se Espriella passar ao segundo turno, o mais provável é que o Centrão de lá (que hoje tem como candidata Paloma Valencia) passe a apoiá-lo.
A eventual vitória de um outsider bukelista contra a máquina de um governo de esquerda – equilibrando-se em uma economia inflada e insustentável, em meio a uma crise de segurança pública – pode animar a “direita alternativa” latino-americana e fornecer um exemplo a ser explorado na campanha brasileira, sobretudo se o início do novo mandato – em agosto – for bem-sucedido em seduzir os mercados e, assim, melhorar a percepção das condições econômicas.
A favor de Lula contam uma condução da política econômica, ainda que na mesma direção da colombiana, menos esculhambada (sobretudo quanto à preservação da independência do banco central), a possibilidade de reeleição e a ausência de um nome na direita que combine viabilidade eleitoral e o discurso anti-política que tem seduzido a região.
Isso ainda pode mudar até outubro – até porque mudanças dramáticas no cenário eleitoral estão longe de ser raras na nossa história. Enquanto isso, vamos assistir na votação de hoje o que a The Economist chamou de “talvez a escolha mais polarizada de qualquer eleição no mundo na memória recente”.
Luciano Sobral é economista-chefe da Neo Investimentos.




