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Em 2022, aos 16 anos, Kane Parsons lançou no YouTube a websérie de terror “Backrooms”. Foi um sucesso tão grande que chamou a atenção de Hollywood.
No ano seguinte, produtora A24 apostou no jovem diretor e entregou a ele um projeto de US$ 10 milhões.
Lançado em maio, Backrooms se tornou um fenômeno de bilheteria, arrecadando US$ 118 milhões no primeiro fim de semana e consolidando-se como o maior sucesso comercial da história da A24.
O longa preserva a estética que marcou a criação de Parsons na internet — câmera tremida, granulação de VHS e estilo found footage — enquanto transforma o labirinto dos “backrooms” em uma metáfora para medos, traumas e a deterioração da saúde mental.
A repercussão levou a A24 a lançar uma edição ampliada do filme, com 15 minutos de cenas inéditas produzidas por Parsons. A nova versão acaba de chegar aos cinemas brasileiros.
A disputa pelo jovem cineasta entre grandes estúdios revela uma mudança na indústria: plataformas digitais passaram a funcionar como celeiros de novos autores, capazes de chegar ao cinema com linguagem própria e comunidades já formadas.
* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed
Kane Parsons tinha 16 anos quando, em 7 de janeiro de 2022, publicou no YouTube o curta de terror Backrooms. Bastaram 48 horas para que o filme de 9 minutos e 14 segundos ultrapassasse a MARCA de 1 milhão de visualizações. Com o sucesso, veio a websérie homônima e, com ela, um fenômeno cultural.
O que, à primeira vista, parecia uma brincadeira de adolescente na internet logo chamou a atenção dos estúdios. De vídeo viral a blockbuster global, Backrooms é símbolo de uma transformação em curso no cinema — uma indústria cada vez mais aberta a descobrir nas plataformas digitais novos talentos e novas histórias.
Aos 21 anos, Parsons é hoje um dos nomes mais disputados de Hollywood. A virada aconteceu em 2023. Entre as várias propostas recebidas, o jovem assinou com a produtora A24. Uma das empresas mais influentes e inovadoras do cinema contemporâneo, a companhia fez uma aposta incomum.
Em vez de entregar o projeto de US$ 10 milhões a um diretor experiente, confiou o trabalho a Parsons — então com 17 anos, o estudante californiano do ensino médio ainda dependia da mãe para levá-lo das aulas às reuniões com os executivos do estúdio.
A escolha da A24 não poderia ter sido mais acertada. O lançamento de Backrooms, em maio, foi um estrondo — e deu a Parsons o título de cineasta mais jovem da história a levar um filme ao topo das bilheterias mundiais.
Em seu primeiro fim de semana, a produção arrecadou US$ 118 milhões em todo o mundo. Foi a melhor estreia de um longa de terror original, superando com folga títulos como Nós e Um Lugar Silencioso.
Youtubers que viram cineastas já existem (conheça alguns deles na sequência de fotos abaixo). Raro ainda é uma obra nascida no ambiente digital ganhar escala de grande produção sem abandonar seu DNA original.
Estão lá em Backrooms a câmera tremida, a granulação de VHS, os chiados de fundo e o estilo found footage — quando a história é apresentada como se fosse uma gravação real descoberta por terceiros.
Deu certo. Até agora, o longa movimentou quase US$ 385 milhões, segundo os dados mais recentes da plataforma Box Office Mojo. Ao se firmar como o maior sucesso comercial da A24, deixa lá atrás o recordista do estúdio — Marty Supreme, com seus US$ 192 milhões e suas nove indicações ao Oscar.
Uma creepypasta
No fim de junho, a companhia anunciou o lançamento de Backrooms: Everything Must Go Edition, com 15 minutos de cenas inéditas produzidas por Parsons com computação gráfica. A princípio, apenas o público americano teria acesso à “edição do diretor”.
Como assim só os Estados Unidos? Diante da pressão dos fãs, a A24 correu para fechar acordos com distribuidoras locais para levar o novo filme a outros países.
No Brasil, a versão ampliada acaba de chegar aos cinemas. Sem o corte final, o longa está disponível em plataformas de streaming, como Prime Video.
Como as negociações não foram possíveis em vários lugares, Parsons se comprometeu a disponibilizar os 15 minutos extras gratuitamente em seu canal no YouTube, onde ele é conhecido como Kane Pixels.
Toda essa movimentação revela a força da comunidade construída em torno de Backrooms na internet. O público continuou mobilizado mesmo depois da estreia nos cinemas.
Mais da metade dos presentes ao lançamento do filme no mercado americano foi ao cinema por causa da websérie de Parsons, informa o site Deadline. E a imensa maioria tinha menos de 35 anos — o espectador que os grandes estúdios têm lutado tanto para conquistar.
Antes de chegar a Hollywood, os backrooms existiam como uma creepypasta — histórias de terror criadas coletivamente na internet. Em 12 de maio de 2019, alguém publicou em um fórum anônimo de compartilhamento de imagens a fotografia de um escritório vazio, com a seguinte mensagem:
“Se você não tomar cuidado e atravessar a realidade nos lugares errados, vai acabar nos backrooms, onde tudo o que existe é o cheiro de carpete velho e úmido, a loucura do amarelo monocromático, o ruído interminável de lâmpadas fluorescentes zumbindo no volume máximo e aproximadamente 960 milhões de quilômetros quadrados de salas vazias segmentadas aleatoriamente, nas quais você ficará preso. Se ouvir algo vagando por perto, que Deus o ajude: aquilo com certeza já ouviu você”.
A descrição se inspira no conceito de espaços liminares: ambientes hiperfuncionais, como corredores, saguões, salas de espera, escolas, hotéis e hospitais, projetados para o fluxo constante de pessoas. Quando desertos, ao perder sua função, podem provocar desorientação espacial e temporal.
A internet transformou esse desconforto em terror. Um inferno “entre” uma origem e um destino, os backrooms formam um labirinto de espaços vazios que se repetem de forma tão indefinida e indistinta que as lembranças se confundem e a sensação de estranhamento se intensifica. Tudo vira um “não-lugar”, para usar a expressão criada pelo antropólogo francês Marc Augé, nos anos 1990.
Até Parsons criar a websérie, a lenda era apenas uma coleção de imagens soltas de espaços liminares com histórias desconexas escritas por internautas. O jovem usou esse universo para criar um enredo de sci-fi.
No filme, o labirinto serve de metáfora para a deterioração da saúde mental. Um espelho dos medos, traumas e frustrações de Clark, vivido pelo britânico Chiwetel Ejiofor, e de Mary, interpretada pela norueguesa Renate Reinsve — ambos indicados ao Oscar; ele, por 12 Anos de Escravidão, e ela, por Valor Sentimental.
“A maior parte dos horrores que as pessoas encontram lá dentro são elas mesmas projetando seu próprio mundo interior, tentando desesperadamente extrair significado de vazios e ruídos aleatórios”, diz Parsons em entrevista à revista Variety.
Talvez seja justamente essa a força de Backrooms. O diretor transformou em pavor o sentimento cotidiano de toda uma geração: o de vagar por espaços familiares, hiperconectados e, ainda assim, profundamente solitários.
A A24 estaria negociando com o cineasta um contrato de exclusividade de três anos — US$ 65 milhões por uma sequência de Backrooms e um novo longa original, informa a plataforma Puck News. Warner Bros., Universal Pictures e Sony Pictures também já teriam sondado Parsons.
A disputa pelo jovem cineasta acontece no momento em que Hollywood busca reinventar a forma de encontrar seus próximos sucessos. Pressionados pela concorrência do streaming e pela dificuldade de transformar histórias originais em grandes bilheterias, os estúdios apostam cada vez mais em propriedades intelectuais já conhecidas, para reduzir riscos financeiros e atrair espectadores, sobretudo os mais jovens.
Backrooms oferece justamente isso. Parsons levou para a A24 mais do que a ideia de um filme. Levou um fenômeno em movimento — e junto milhões de seguidores.




