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sábado, julho 18, 2026

Lázaro Ramos não quer mais provar nada para ninguém: quer exercer sua autoria

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Quando Lázaro Ramos esteve no Rio de Janeiro pela primeira vez, aos 12 anos, com o pai Ivan, apontou um conjunto de prédios na orla: “Deve ser lindo morar aqui”. Hoje, aos 47 anos, ele conta essa história para a Velvet de dentro de um desses prédios, para onde se mudou na pandemia com a mulher, Taís Araújo, e os filhos João Vicente e Maria Antônia.

Ali, um altar ecumênico dá a pista da quantidade de crenças e atividades que ele acumula. “Lázaro, você é religioso?”, eu pergunto. “Eu sou baiano”, ele já responde rindo. “Sou de tudo, de uma família de cultura religiosa. Minha tia-avó me criou no candomblé, meu avô materno era pastor da Assembleia de Deus, meu pai é agnóstico, minha mãe era espírita e eu escolhi fazer catecismo para ser católico”, completa.

Com mais de três décadas de uma carreira repleta de projetos, ele pode dizer que chegou a lugares onde jamais imaginou. Aqui, conta o início da trajetória, nos palcos de Salvador, a migração para o cinema no começo do século e a carreira (bem) pensada e de sucesso na TV.

Além disso, a vida de escritor corre em paralelo — e já são 11 livros escritos, entre infantis, biografias e obras adultas. Esse volume todo de trabalho rendeu um burnout em 2021 e o aprendizado de começar a dizer “não” para algumas coisas. “Desde então, estou fazendo tudo melhor”, ele diz.

Em meio às gravações de A Nobreza do Amor, novela das 18h da Globo, Lázaro fala nesta entrevista sobre seu primeiro antagonista, paternidade e o jeito de levar a vida.

Lázaro, é a primeira vez que você faz o vilão de uma novela, o Jendal. Como tem sido essa experiência na televisão? Você sente que ainda existe essa repercussão nas ruas com os personagens de novela?
Olha, eu mesmo estou me surpreendendo, porque em geral faço personagens muito simpáticos. Carismáticos, amigos, engraçados. E esse está diferente. É bom, porque é catártico. Muita gente diz que odeia o Jendal, mas ama o Lázaro. Eles têm memórias de cenas, de detalhes. Depois de anos sem fazer novela, fazendo mais cinema e dirigindo, na semana em que entrou no ar, já percebi o afeto de um outro público, com muito mais crianças e donas de casa. Mas é um vilão e não dá para usar tanto elemento de carisma a ponto de esquecer que o personagem está fazendo coisas reprováveis. Acho que eu encontrei um tom: eu faço o vilão, as pessoas gostam de assistir, mas têm senso crítico em relação a ele. Esse era o meu maior desafio.

Mas vamos voltar um pouco e falar de outros desafios. Você começou no Bando de Teatro Olodum. Como foi esse início artístico?
Eu era extremamente tímido e tinha grande dificuldade de comunicação quando comecei a fazer teatro na escola. A filha da diretora do meu colégio trabalhava no SBT local e às vezes precisava de crianças. Eu ia. Nunca tinha visto uma peça de teatro, mas eu me sentia bem fazendo aquilo. Porém, queria ser médico. Achava que ser médico deixava as pessoas felizes. Foi então que meu grupo de amigos do teatro foi fazer uma inscrição para o Bando de Teatro Olodum. Quando eu cheguei lá, eu vi aqueles atores… Eu lembro do primeiro dia da oficina de teatro. Aula de canto, aula de música, interpretação, tocar instrumentos. Eu achei aquilo tão precioso e parecia que era o meu lugar. É uma sensação que eu nunca tinha tido antes na vida.

Como seu pai reagiu?
Meu pai ficava preocupado porque o mercado teatral na Bahia era muito restrito. Mesmo os atores do Bando naquela época, tinham de ter outras profissões. Fiz patologia clínica para ter uma profissão, me sustentar e fazer o teatro junto.

“Eu adoro conversar. Sou muito curioso, perco o voo porque estou conversando no aeroporto. Dentro de casa, com minha família, nós sempre fomos assim”

E a fama só veio uns anos depois? Como foi sair do Bando para ser conhecido no Brasil?
Vladimir [Brichta] e Wagner [Moura], meus amigos queridos, estavam fazendo um espetáculo chamado A Máquina, em 2000. Eles me indicaram para o elenco; eu abandonei a faculdade de bioquímica e fui. E aí aconteceu a grande mágica. Nessas três semanas de espetáculos, fui chamado para fazer teste para vários filmes, como Uma Onda no Ar, O Homem do Ano, Carandiru, Madame Satã, O Homem que Copiava, Cidade de Deus e As Três Marias. E passei nos sete. Era um momento muito interessante do cinema brasileiro. Estreei no mesmo ano O Homem que Copiava e Madame Satã. Olha que privilégio. Dois personagens completamente diferentes.

Foi assim que o Brasil te descobriu. Você sempre foi seguro para esses novos desafios?
Eu cheguei apavorado, mas com muita vontade, porque eu sempre fui fanático por cinema. Vi Os Goonies e Curtindo a Vida Adoidado dezenas de vezes. O grande sonho da minha vida era habitar aquele lugar, mas eu não sabia que era um lugar possível. Essa geração de cineastas me abraçou e deu algo que mudou a minha carreira: uma quantidade de personagens diferentes. No geral, os atores com as minhas características físicas acabavam muito reclusos no mesmo tipo de personagem. Eu achava muito legal isso. As pessoas não identificavam que o cara de O Homem que Copiava era o cara de Madame Satã.

E como entra a televisão nessa história?
A televisão entra por causa de João Falcão, diretor de A Máquina, que foi fazer Sexo Frágil e convocou a turma dele do teatro. Foi um marco. E só então veio o Foguinho, em Cobras e Lagartos, um personagem que eu desejei fazer. Comecei a me tornar um ator que tinha o reconhecimento e o prestígio do cinema e a popularidade da televisão.

“Quando fui convidado para fazer A Máquina, no Rio, não aceitei. Wagner me convenceu e é por isso que eu sou tão grato a ele, porque realmente mudou a vida da gente. Fez com que virássemos uma família que pensava em teatro e arte o dia inteiro”

Em que momento você percebeu que a televisão havia mudado sua vida?
Tudo mudou, comecei a precisar andar com seguranças. Chegavam crianças e ficavam fascinadas, como se eu fosse um ídolo infantil. Isso aí para mim foi novo. Fui para Angola para ser jurado do Miss Angola e, quando cheguei ao aeroporto, tinha uma multidão para me receber. Ali tinha uns 12 meninos parecidos comigo, com bigode pintado de louro.

Mas essa identificação você seguiu notando quando fez o galã que ficava com muitas mulheres em Insensato Coração também…
Hoje em dia eu falo de Insensato Coração com muita maturidade. Porque foi o aprendizado do quanto a minha autoria é o que me faz um artista diferente. Hoje coloco a minha opinião artística no que vou produzir. Nessa novela, de Gilberto Braga, eu acreditei no presente. Lia o texto e só queria obedecer, não pensava em estratégia narrativa. Naquela época, o público não recebia muito bem alguém com o meu rosto interpretando um homem desejável. Então, no primeiro momento, fiquei muito mal. Mas a equipe de trabalho não abandonou; o autor não mudou nada no texto.

O que fez você ver que aquelas críticas não representavam todo o público?
Aos poucos, ajustei o tom do personagem e, apesar das críticas existentes, uma coisa linda aconteceu: eu estava saindo do estúdio depois de um período de muitas críticas negativas, e tinham dois jovens parecidos comigo que estavam me esperando para dizer para não ligar para quem falava mal, porque eles estavam gostando. “Porque você é nós”, falaram. Esses dois não sabem o que eles fizeram por mim. E aí eu comecei a fazer a novela para esses dois jovens. Logo depois disso fiz Lado a Lado como protagonista, e foi sem rejeição nenhuma, novela de sucesso que ganhou o Emmy.

Você sempre foi discreto, mas hoje você e Taís têm uma vida pública e formam um dos casais mais importantes do Brasil. Quando você percebeu que era importante falar de si e das questões raciais, por exemplo?
Foi uma mudança, sabia? Porque, no começo, eu não queria que ninguém soubesse nada de mim. Achava que o personagem tinha de ser o foco. Ninguém tinha de saber o que eu fazia da vida, como eu me vestia. Mas o tempo passa, a gente virou um casal referência. As pessoas ficam muito curiosas.

“Quero ser o pai presente, que vai dar bons conselhos, ajudar a esposa, dividir todas as tarefas. Isso era um conceito intelectual para mim. Quando veio pelo afeto, o prazer que eu tinha de dar banho, de cantar para ele… pensei que precisava contar para as pessoas que é massa ser pai”

Essa curiosidade acabou se concentrando muito nas questões raciais?
O que me incomodava era que, por ter opinião, por estudar e saber falar sobre as questões raciais, as únicas curiosidades eram sobre esse assunto. Mas, ao mesmo tempo, eu sentia que poucas pessoas tinham a oportunidade de ter um microfone na mão para provocar, para levar informação. Era um conflito. Se, por um lado, pouca gente tinha a oportunidade de falar, por outro lado, eu não queria só falar sobre isso.

Como você encontrou o equilíbrio?
Para equilibrar, foi com muita mandinga. Comecei a provocar durante a conversa e falar assim: “Você está reduzindo esse personagem à questão racial, mas deixa eu falar aqui sobre o processo criativo”. Por exemplo, o Foguinho é um personagem que eu estudei Charlie Chaplin para fazer.

Sim, tem muito estudo por trás de todo o seu trabalho. E você sabe dizer de onde veio essa consciência social que você tem?
Meu pai não me deu uma bicicleta, mas me deu a Barsa. Ele não falava sobre estudos comigo, mas me colocou em uma escola particular. E, quando eu entrei no grupo de teatro, conheci Zebrinha, um grande coreógrafo. Ele me apresentou teses, artistas, profissionais, perspectivas e fiquei mais politizado. A grande atuação política dele foi ver esses jovens talentosos, negros ou de periferia, e dar a eles uma injeção de ânimo e informação.

Zebrinha foi um segundo pai para você, mas ser pai também reorientou sua vida, não foi? Você sempre soube que seria bom nisso?
O meu preparo para ser pai foi, primeiramente, intelectual. Eu não tinha muita referência de qual tipo de pai eu seria. Mas tinha noção de que não poderia ser um pai ausente. Durante a gestação de Taís, eu não entendia nada do que seria ser pai. Quando João nasceu, eu pensava: “Preciso ter emprego, preciso ser um exemplo, será que vou conseguir sustentar essa criança, será que vou conseguir dar banho? Ficava apavorado com tudo. Hoje falo muito sobre paternidade responsável, presente. O tempo foi passando, fui entendendo afetivamente que lugar é esse, e foi muito legal porque veio junto com prazer. É desafiador, é difícil, põe à prova o tempo todo. Mas é legal.

E qual é a fase desafiadora do momento?
Eles agora estão entrando na adolescência e eu ainda não fiz a transição deles serem crianças para serem adolescentes. Ainda fico querendo tratá-los como criancinhas. Estou tendo um outro aprendizado, para entender as demandas, a autonomia. Outra dificuldade foi que eu achava que tinha de ensinar firmeza e resistência, mas a afetividade e o sentimento… para isso eu não tinha tanto repertório ou vocabulário. Fui desenvolvendo aos pouquinhos. Meu pai foi muito presente, mas não era um cara de abraçar, de falar sobre sentimentos.

Como era a sua relação com ele?
Ele me dava conselhos sobre ética, sobre justiça. Mas não falava sobre dúvida, sobre namoro, sobre imprecisões. E é muito bonito porque eu me lembro do dia em que a gente destravou isso. Acho que esse fato me transformou em um outro pai. Nós nunca brigamos, mas nesse dia estávamos discutindo e eu falei assim: “Mas o senhor nunca me abraçou”. Aí ele falou: “Porque eu sou tímido, eu estava esperando você me abraçar”. Dei um abraço demorado, foi tão lindo, e eu fui reconhecendo inclusive as atitudes como avô.

“Ao longo da minha carreira de criador, encontrei várias pessoas que tiveram essa generosidade de estar do meu lado para me apoiar, caso eu precisasse, mas que nunca silenciaram a minha originalidade. Isso é muito legal”

Foi esse lugar de pai que te levou a escrever literatura infantil? Como foi esse processo?
Os primeiros livros que escrevi foram para a criança que fui. Para escrever sobre os assuntos que queria ter discutido na minha infância e que eu não tive acesso. Então, o primeiro livro foi sobre o uso responsável de tecnologia. Livros para a gente se reconhecer como herói e como protagonista. Depois que meus filhos nasceram, comecei a escrever para os adultos que gostaria que eles fossem. Para plantar sementes neles. Aí é sobre amizade, criatividade, o direito e o prazer de brincar.

Foi assim que nasceu o desejo de escrever?
Eu sempre escrevi. Era tímido e a maneira de eu colocar minhas ideias no mundo era no papel, mas eu achava que o que escrevia não tinha valor e não mostrava para ninguém.

O que fez você vencer esse bloqueio?
Eu só tive coragem de mostrar um texto meu por causa do desemprego. Eu vim fazer A Máquina aqui no Rio de Janeiro e voltei para a Bahia sem espaço para mim no teatro. Não tinha nenhum trabalho e, em uma noite de insônia, escrevi uma peça de teatro inteira, baseada no movimento cultural que tem na ilha de onde vem minha família. No dia seguinte, mostrei para os amigos. Eles acharam bom e nós montamos. Se eu não tivesse ficado sem emprego, nunca teria mostrado um texto para alguém. E, a partir daí, eu comecei a escrever constantemente e a mostrar e a publicar.

Foi assim com Medida Provisória, a vontade de dirigir?
Ali eu ofereci para vários diretores amigos meus; todo mundo tinha seus projetos e ninguém queria fazer. Comecei a organizar um texto, um roteiro, e mostrei para Daniel Filho, para ele me ajudar a produzir. Ele disse que eu tinha de dirigir e ia me ajudar, mas nunca deu uma opinião. Ele só falou para me deixar seguro. O Medida Provisória é um experimento de linguagem. Ele não obedece às regras cinematográficas, mas eu tinha consciência do que estava fazendo para o momento que o Brasil estava vivendo: provocar uma discussão para a pessoa sair do cinema e conversar.

Você acha que o cinema brasileiro pós-pandemia teve uma mudança importante? O Brasil aprendeu também a ser mais mainstream?
Para mim, é algo muito positivo. A gente passou por um período de seca, principalmente após a pandemia, porque o único modo de sustento mais viável para a maioria das produtoras era ser prestador de serviço para o streaming. Muitas produtoras começaram a ser supervisionadas pelas gestões de streaming, que têm critérios específicos.

O que não pode ficar de fora dessa discussão?
Para entender a brasilidade, a gente tem de falar também sobre as comédias brasileiras. São filmes que falam sobre a nossa realidade, com excelência técnica, com ótimas atuações e que nos tocam intimamente; a gente não está querendo imitar ninguém. Cada filme tem sua linguagem de venda; temos direito de ter dois milhões de espectadores em um filme e 100 mil em outro.

Lázaro, você já disse que seu lugar é onde você sonha estar. Você está onde sonhava?
Poxa, eu estou além. Durante muito tempo, as minhas escolhas eram mais para provar algo do que para exercer com excelência a minha profissão. Hoje em dia eu não estou querendo provar nada para ninguém. Eu tenho objetivos de comunicação, temas que eu quero falar, me dedico para fazer isso, mas eu tenho uma certeza e uma firmeza muito maior. Tinha insegurança, medo da escassez, de não ter outros convites, de ninguém me chamar para mais nada. Agora estou ocupando esse lugar com essa tranquilidade; é uma experiência única.

*Christian Gebara é presidente da Vivo e diretor artístico da revista Velvet.





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