Em menos de uma década, o Pix tornou-se o motor central do ecossistema financeiro brasileiro. No painel do Febraban Tech 2026, com o tema “Pix, cartões e além: a nova arquitetura competitiva dos meios de pagamento”, ficou evidente que a ferramenta redefiniu o comportamento do consumidor e as estratégias das instituições bancárias. A rapidez e a disponibilidade 24×7 transformaram as expectativas, forçando as instituições financeiras a irem além do processamento de transações e a focarem na orquestração de pagamentos.
Para as instituições financeiras, o impacto do Pix é definitivo. Maria Eduarda Paiva, superintendente de produtos digitais do Itaú Unibanco, destacou que “o Pix mudou muita coisa. Hoje o cliente espera que todas as transações ocorram em um clique e 24×7. A regra do tabuleiro mudou”, afirmou. Ela aponta que a vida transacional do cliente possui quatro momentos: transferir, receber, pagar e comprar, áreas onde o Pix simplificou processos e resolveu dores reais dos usuários.
Esse avanço, contudo, não decretou o fim de meios tradicionais. O boleto “continua forte e crescendo porque resolve dores reais de quem tem que receber”, caminhando ao lado do Pix. O cartão de crédito também preserva seu espaço com diferenciais que o Pix não deve trazer, como o parcelamento. “Esse jogo é menos sobre a competição entre os meios e mais sobre como eles vão evoluir para continuar trabalhando juntos”, prevê. Essa coexistência direciona o mercado para o conceito estratégico de orquestração de pagamentos.
José Henrique Simões Camargo, superintendente sênior de negócios e produtos do Bradesco Payments, apontou que o Pix trouxe uma disrupção necessária e incluiu milhões de pessoas que não tinham acesso ao sistema financeiro. O impacto também foi relevante no mercado corporativo, mudando a dinâmica de boletos e TEDs na área de Pessoas Jurídicas (PJ). “O Pix mudou a dinâmica e nos ensinou que não temos que pensar no meio de pagamento, mas na orquestração de pagamentos”, explicou. A orquestração foca no meio que o cliente precisa em cada momento para concluir sua transação, utilizando a simplicidade e a modularidade do Pix para embuti-lo em plataformas diversas, como CRM para PJ.
Uma das evoluções mais marcantes, que adiciona crédito ao ambiente de pagamentos instantâneos, é o Pix Parcelado. Embora ainda não seja regulamentado, o mercado responde ativamente à forte demanda dos consumidores por essa facilidade. Para as instituições, embutir o financiamento diretamente no ato do pagamento representa um salto de conveniência na experiência do usuário.
Maria Eduarda vê a modalidade como uma excelente oportunidade comercial. “O Pix parcelado é algo que já está dado pelo cliente. Quando ele precisa financiar uma compra, uma transferência ou um pagamento, antes ele recorria a uma transação isolada – uma linha de crédito – e fazia compra. Agora estamos reduzindo essa jornada”, analisou. Ao conectar o crédito ao fluxo transacional existente, o cliente ganha em fluidez, e o banco ganha em informações qualificadas. Embora exista preocupação com o risco de superendividamento, o setor trabalha em conjunto para que a regulação do Pix Parcelado ocorra de forma sustentável.
Camargo concorda que abrir fluxos separados para obter crédito gerava perda de tempo na experiência de compra. “Nós embutimos o crédito na jornada já existente. Esse é um formato que veio para ficar”, decretou, reforçando a urgência de regulamentar o tema. Ele destacou também que o usuário típico do Pix realiza compras racionais com perspectiva de pagamento e que a ferramenta atua como um fator de segurança ainda maior contra tentativas de ataques cibernéticos.
Barreiras no caminho
Apesar do sucesso, a expansão plena do Pix enfrenta gargalos de infraestrutura e inclusão no Brasil. O acesso à conectividade de dados é um obstáculo crítico. Mauricio Santos, liderança em Serviços Financeiros, Banking Digital, Tecnologia e Finanças, alertou que uma parcela significativa da população — composta principalmente por usuários de telefonia móvel pré-paga — fica sem internet ao final do mês. “Para chegar a eles não adianta abrir um Pix ou ter acesso ao banco, por isso essa questão precisa ser mais permeada no Brasil”, explicou.
Ele lembra que, para superar isso, as operadoras de telecomunicações investem cerca de R$ 10 bilhões anuais na ampliação de redes e que o governo atua junto às teles para oferecer planos mais acessíveis ou integrados a programas de assistência social, enquanto bancos oferecem dados patrocinados para garantir o acesso gratuito a seus aplicativos. No campo tecnológico, conexões via satélite surgem como alternativa para cobrir localidades complexas, embora apresentem limitações geográficas. Santos pontuou que tais barreiras podem ser mitigadas com soluções como o Pix offline para o pagador.
Além da barreira técnica, os bancos enfrentam a falta de letramento digital e o semianalfabetismo, especialmente entre idosos e populações de menor renda. Santos acredita que a Inteligência Artificial será a principal aliada para superar esse abismo. “Acredito muito que o uso da IA, que já temos visto, como por exemplo o Pix via WhatsApp com o uso de áudio, deve ajudar muito essas pessoas”, afirmou, lembrando que a interação por voz pode fechar definitivamente o ciclo de inclusão financeira nacional.
Neste contexto, o horizonte desenha um cenário no qual as tecnologias de transação se tornarão trilhos cada vez mais invisíveis na rotina diária. Santos sublinhou que “o Brasil está à frente de todos os países do mundo em relação a pagamentos” e que “o Pix foi a cereja do bolo” desse processo disruptivo. No futuro, o cliente não precisará parar para pensar no meio em si, escolhendo simplesmente o trilho de pagamento mais conveniente de forma transparente.
Para navegar com sucesso nesse ambiente, o Itaú Unibanco ampara sua estratégia de inovação em duas bases fundamentais. “Vemos o futuro com dois grandes pilares: confiança, sem a qual é impossível evoluir o modelo. E inteligência, em como ajudar nosso cliente a honrar seus compromissos e pagar suas contas em dia”, declarou Maria Eduarda.




