13.3 C
São Paulo
domingo, setembro 6, 2026

A riqueza mudou e o sistema tributário ficou para trás

DEVE LER


Ler o resumo da matéria

Os bilionários não pagam imposto de renda e nós vamos acabar com isso, do economista francês Gabriel Zucman, investiga a relação entre concentração de riqueza e desigualdade fiscal. A partir de dados de diferentes países, mostra como os ultrarricos podem acabar submetidos a uma carga tributária proporcionalmente menor que a da maioria da população.

Zucman propõe um imposto mínimo de 2% sobre o patrimônio líquido, integrado ao imposto de renda, como forma de adaptar a tributação à maneira como as grandes fortunas são hoje constituídas e valorizadas. Ao recuperar a história dos impostos sobre patrimônio e examinar paraísos fiscais e mecanismos legais de redução da carga tributária, o autor sustenta que o problema não é apenas de arrecadação, mas de justiça e equilíbrio democrático.

Para Zucman, criar mecanismos capazes de alcançar os ultrarricos é menos uma questão técnica do que de vontade política.

* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed

Há livros que chegam ao debate público no momento exato. Um deles traz um título que, à primeira vista, soa panfletário, quase como uma pichação de muro: Os bilionários não pagam imposto de renda e nós vamos acabar com isso. A obra, porém, passa longe dessa impressão. Foi escrita pelo economista francês Gabriel Zucman, especialista em tributação e uma das maiores autoridades mundiais no estudo das desigualdades fiscais.

Em meio às discussões sobre justiça fiscal e concentração de riqueza, o autor abandona o vocabulário excessivamente técnico da economia para defender uma ideia simples: os ultrarricos pagam proporcionalmente menos impostos do que a maioria da população. E isso compromete não apenas a arrecadação como a própria democracia.

Zucman considera urgente, portanto, criar novas formas de tributação. Sua proposta é um imposto mínimo de 2% sobre o patrimônio líquido, integrado ao imposto de renda. A justificativa: a arquitetura dos sistemas tributários modernos não acompanhou as transformações na forma de acumulação da riqueza.

A principal mudança ocorreu quando as grandes fortunas deixaram de se concentrar no nome de seus proprietários e passaram a ser organizadas por meio de holdings, fundos e outras estruturas jurídicas. Com isso, a riqueza pode crescer, sem necessariamente se transformar em renda tributável — quando, por exemplo, há um ganho patrimonial, mas não necessariamente uma renda realizada.

É nesse ponto que entram os 2% sugeridos pelo economista. Em vez de cobrar apenas quando esses ganhos são efetivamente recebidos, o Estado passaria a tributar o estoque de patrimônio acumulado, independentemente da forma como ele é mantido.

A argumentação do autor se fortalece quando ele recorre a dados produzidos em diversos países, como França, Brasil, Estados Unidos, Noruega e Suécia. Diferentes em seus sistemas tributários, eles registram um padrão semelhante: quanto maior a fortuna, menor tende a ser a parcela efetivamente paga em impostos

Em pouco mais de uma centena de páginas, Zucman desmonta a ideia de que os ultrarricos necessariamente contribuem mais para o financiamento do Estado apenas porque possuem mais dinheiro. Seu posicionamento, inclusive, vai no sentido oposto.

Parte importante dessa riqueza pode se valorizar sem se transformar necessariamente em renda tributável. Com isso, a carga de impostos pode ficar muito abaixo do que se poderia esperar pelo tamanho do patrimônio.

Gabriel Zucman é um dos economistas mais importantes da atualidade no combate à desigualdade e à injustiça fiscal (Foto: Editora Zahar)

Com 112 páginas, o livro custa R$ 59,90 (Foto: Editora Zahar)

Outro ponto estudado pelo economista  é a perspectiva histórica. Impostos sobre patrimônio existem há séculos, ele diz. Sua proposta, portanto, representa menos uma ruptura do que uma atualização necessária diante da economia contemporânea. A novidade, portanto, estaria menos na ideia de tributar a riqueza do que em adaptar esse mecanismo à forma como ela se concentra e se valoriza atualmente.

Em sua análise, Zucman também examina o funcionamento dos paraísos fiscais e das estruturas internacionais de evasão e planejamento tributário. Ao narrar sua pesquisa sobre bancos suíços e empresas multinacionais, mostra que a desigualdade fiscal não se produz apenas em ilhas caribenhas, na calada da noite, mas também por meio de mecanismos legais existentes dentro das próprias economias desenvolvidas.

O autor não escreve como um polemista improvisado. Professor e pesquisador, reúne anos de estudos sobre evasão fiscal, paraísos fiscais e tributação das grandes fortunas. Ao combinar rigor acadêmico, clareza narrativa e argumentos sustentados por evidências, Zucman mostra por que se tornou uma das vozes mais influentes do debate internacional sobre desigualdade.

O próprio economista reconhece que sua proposta enfrentará resistências, mas acredita que “não existe nenhum obstáculo técnico à tributação dos ultrarricos: é uma questão de vontade política”. Mais do que tentar convencer o leitor a aceitar sua proposta, consegue recolocar a tributação da riqueza no centro do debate público.

A edição brasileira aproxima o debate da realidade nacional ao trazer apresentação de Marcelo Medeiros, sociólogo, pesquisador no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) e autor de Os ricos e os pobres, entre outros títulos.

“Quem lê Os bilionários não pagam imposto de renda e nós vamos acabar com isso pode ter certeza de que foi escrito por alguém que se dedica seriamente ao que faz”, avalia.

Medeiros destaca que o livro trata de um problema sobre o qual, segundo ele, não há muita controvérsia: os ricos pagam pouco imposto de renda não por serem sonegadores, mas porque recorrem deliberadamente a mecanismos legais existentes na maioria dos países para reduzir sua carga tributária.

No prefácio exclusivo para os leitores brasileiros, Zucman resume sua tese: “O Brasil precisa tributar os ultrarricos. Isso é, em primeiro lugar, uma questão de justiça”.

A escolha da palavra “justiça” não é casual, diz. Ao longo do livro, o economista sustenta que a tributação não deve ser vista apenas como instrumento de arrecadação, mas também como mecanismo de equilíbrio democrático.

No fundo, o debate parte de uma premissa simples, mas fundamental: uma democracia saudável pressupõe algum grau de equidade na contribuição de seus cidadãos para o financiamento do Estado.



Fonte Link

- Publicidade -spot_img

Mais Artigos

- Publicidade -spot_img

Último Artigo