O Supremo Tribunal Federal (STF) convidou 26 influenciadores e personalidades da internet para o evento “Leis e likes: o papel do Judiciário e a influência digital”. Durante dois dias desta semana, os produtores de conteúdo participam de debates com o objetivo de “trocar experiências e conhecimentos entre personalidades do universo digital e quem faz parte do mundo do direito”.
Os participantes tiveram a oportunidade de conversar com os ministros Luís Roberto Barroso, Flávio Dino e Alexandre de Moraes.
Moraes, inclusive, protagonizou uma cena curiosa ao se encontrar com Mizael Silva, produtor de conteúdo com mais de 4 milhões de seguidores. Ele interpreta nas redes sociais o personagem “Advogado de Alexandre de Moraes” em vídeos bem-humorados.
Diante do personagem, o ministro brincou falando que Mizael “ficou bem de advogado” e perguntou se ele falava inglês para defendê-lo nos Estados Unidos, fazendo referência à sanção pela Lei Global Magnitsky, imposta a ele pelo governo Trump.
Simultaneamente ao evento, o STF divulgou um pacote de figurinhas do WhatsApp com pets com o mote de “democracilovers”, com mensagens do tipo “Eu amo a Constituição”, “Alerta de fake news” e “tô com o STF”.
Estratégia é falha, diz especialista
Para Marco Ruediger, diretor da FGV Comunicação, a estratégia do STF falha de maneira surpreendente, atuando de maneira ineficaz para lidar com as dificuldades da polarização política vivida no Brasil atualmente.
Ruediger entende que o Supremo precisaria desenvolver uma estratégia permanente de comunicação, e não apenas uma ação pontual, como levar influenciadores a Brasília para tentar reverter uma crise de comunicação.
“Chamar influenciadores para fazer algum tipo de publicização dos posicionamentos do das instituições demonstra claramente que há uma incompreensão da necessidade de travar essa luta todo dia”, explica Ruetiger. Para ele, pautas de interesse nacional e polarizantes precisam de um trabalho permanente de gestão para promover engajamento em massa.
O professor entende que uma estratégia de comunicação pontual como convidar influenciadores diante de uma crise de imagem soa como inorgânica e que as próprias instituições precisam ter uma potência comunicacional independente e permanente.
“As instituições devem entender que essa realidade não é episódica, ela não se dá por conta de um julgamento especial. Ela vai continuar. Não é um tsunami pontual e depois o mar se acalma. Depois vão vir outros tsunamis, e a única forma de lidar com isso é organizar e preparar sua praia”, diz Ruetiger
O professor pontua que a Corte não parece acostumada com esse papel de comunicação, mas que as instituições têm papel social que precisa se adaptar à nova realidade das redes e da opinião pública, que dependem de esclarecimento em tempo real.
Segundo pesquisa da Genial Quaest, realizada em julho, 48% da população brasileira desaprova a atuação do Supremo e de Alexandre de Moraes, contra apenas 41% que aprovam.
A reprovação vem, principalmente, das pessoas que votaram em Bolsonaro no segundo turno das eleições presidenciais de 2022. Entre esse público, 74% desaprovam a atuação da Corte. Já entre os eleitores de Lula, a posição é praticamente oposta: a aprovação é de 63%.
A estratégia de comunicação chega em um momento delicado na história do Supremo, que se tornou alvo principal da extrema-direita brasileira, principalmente em decorrência da atuação do ministro Alexandre de Moraes contra Jair Bolsonaro (PL) e seus aliados.
Como relator dos inquéritos das fake news, das milícias digitais e da tentativa de golpe de Estado, Moraes se tornou figura central da política brasileira por condenar e suspender vários perfis de influenciadores e personalidades da política, principalmente do espectro da direita brasileira.
Com a proximidade do julgamento que pode condenar Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado, Moraes também passou a ser alvo de pressão internacional pelos Estados Unidos, após articulação de Eduardo Bolsonaro (PL-SP) com o governo Donald Trump.
Primeiro, Moraes teve seu visto americano cassado, junto de outros ministros do Supremo. Depois, foi sancionado com a aplicação da Lei Global Magnitsky, que impede que o ministro mantenha vínculos com quaisquer empresas americanas.




