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sábado, agosto 22, 2026

O futuro do trabalho acontecerá em qual sociedade? | Carreira

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Nessa última semana participei no Congresso Nacional de Gestão de Pessoas (CONARH) de um painel sobre o futuro do trabalho e percebi que, em vários ambientes, o burburinho sobre os impactos das novas tecnologias fervia. O que podemos dizer sobre o trabalho e sobre o futuro?

Na cena clássica do filme “2001, Uma Odisseia no Espaço”, com o osso utilizado como uma ferramenta por um hominídeo, as relações entre os humanos e o uso de instrumentos foram imortalizadas – apenas para reforçar, na materialidade do cinema. A condição humana está inextricavelmente ligada à técnica. E estas, assim como o osso e a energia nuclear, podem ser usadas para o bem ou para o mal, para a sobrevivência ou para a morte.

Não é de hoje que a vida em sociedade é marcada por uma íntima relação entre humanos e não-humanos. Os “autômatos”, que fascinaram as cortes europeias desde o século XIII, o livro de Julien Offray de La Mettrie, “L’homme-machine”, com a ideia de um homem-máquina, publicado em 1747, e filmes clássicos como “Robocop”, “O Exterminador do Futuro”, “Blade Runner”, entre outros, mostram que o imaginário humano está permeado pela ideia de que, no futuro, seremos ciborgues, seres híbridos, que combinam materialidades com partes orgânicas, o artificial com o vivo, e nos levam para o mundo do pós-humano.

Não é possível viver sem os artefatos tecnológicos – o humano e o pós-humano convivem há décadas. A noção de pós-humano ganhou notoriedade com a publicação do “Manifesto Ciborgue”, de Donna Haraway, nos anos 1990: as biotecnologias interagem com o corpo ininterruptamente. Nessa mesma década surgiu também o conceito de cyberorganization: humanos e não humanos estão interconectados e não é possível trabalhar sem essa imensidão de objetos que povoam o mundo do trabalho. A vida em sociedade está atravessada pela materialidade e não só pelas interações humanas. Trata-se de uma nova visão sobre o social, que significa não somente as conexões entre as pessoas, uma vez que humanos e não humanos já interagem continuamente. As práticas organizativas do nosso cotidiano estão constituídas por múltiplas tecnologias, são sociais e materiais.

A IA generativa provoca, de modo mais intenso, o pensamento sobre esse híbrido, num futuro ainda incerto. Uma mudança tão radical como foi passar do mundo aristocrático feudal para o mundo do capitalismo industrial. O que é possível dizer sobre esse futuro: teremos novas subjetividades, novas formas organizacionais e uma nova sociedade. Como estamos no meio do olho do furacão, talvez não seja possível antecipar esse novo cenário completamente. Seremos outros humanos, ciborgues talvez, com capacidade de experimentar drásticas mudanças de temperatura dada as mudanças climáticas extremas.

Colunista escreve que, no futuro, teremos novas subjetividades, novas formas organizacionais e uma nova sociedade — Foto: Nenetus

E o que é possível dizer sobre o trabalho? Não há mais limite físico para a realização do trabalho. A questão que se coloca aqui, já experimentada atualmente, é a administração do estresse. Os limites da condição humana permitirão acompanhar a ausência de limite da IA generativa? Como recompor as energias? E sobre a tomada de decisão? A agência estará não somente nas pessoas, mas nas relações entre humanos e não humanos. Quem se responsabilizará pelas consequências das decisões? A questão que resta é: que futuro e para qual sociedade?

Maria José Tonelli é doutora em psicologia social, professora titular na FGV–EAESP, e especialista em diversidade e desenvolvimento de lideranças.



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