A re.green está buscando produtores para escalar seu modelo de retorno financeiro por restauração florestal. Hoje, a empresa faz a gestão de 37 mil hectares em 14 fazendas, sendo 20 mil deles ativos, ou seja, já com árvores crescendo.
Criada em 2021, a empresa centra sua estratégia em áreas de baixa produtividade dentro de fazendas produtivas. São espaços que não podem ser usados para a agropecuária, por questões como topografia ou alagamento. Mas que podem ser recuperados com árvores nativas do bioma que habitam.
O estoque delas é vasto: em 2023, a S&P estimou em um estudo que o saldo de melhores áreas entre as terras degradadas no País era de 33 milhões de hectares. A re.green mira um total maior, de 50 milhões de hectares.
“Historicamente, a restauração foi feita em iniciativas acadêmicas, em pequena escala. Nossa tese é fazer dela um negócio replicável e uma solução viável para o desafio climático”, explica Fernando Visser, diretor de Negócios e Inovação.
As ações de restauração não competem com as atividades agrícolas das fazendas. Pelo contrário: segundo o executivo, elas melhoram aspectos como disponibilidade de água, polinização e estocagem de carbono e outros elementos no solo.
Além disso, muitas propriedades no portfólio da re.green têm também áreas a serem preservadas, diz Visser. Um exemplo é a participação na concessão da Fazenda Bom Futuro, em Rondônia, onde há 7 mil hectares de restauração e 50 mil de conservação.
Modelo de negócios customizável
Visser diz que o primeiro desafio da re.green foi aprimorar o modelo de negócios para contemplar soluções adaptáveis a diferentes realidades.
A empresa começou adquirindo propriedades, mas depois passou também a arrendar terras, hipótese em que o pagamento ao produtor é fixo, baseado em um cronograma de restauração.
Em uma terceira modalidade, a empresa negocia com os produtores uma parcela dos créditos de carbono de restauração futuros.
“A re.green entra com desenho técnico, investimentos e contratação de fornecedores, além de monitorar, emitir e comercializar os créditos. O proprietário não precisa fazer nada”, diz Visser.
Entre o quarto e o quinto ano, é possível gerar créditos para serem vendidos aos clientes — Microsoft, Nestlé e Vivo, além de uma quarta empresa a ser anunciada em breve.
A re.green está próxima de emitir o primeiro crédito de carbono, o que Visser estima que aconteça ainda neste ano.
Sem divulgar resultados, a re.green diz ter mais de 7,5 milhões de toneladas em compromissos de vendas, em contratos que se estendem por prazos entre 20 e 30 anos. Desse total, em hectares, cerca de metade já foi captada, diz o executivo.
O fechamento dos contratos, precedido de due dilligences fundiárias, leva entre três e seis meses. A partir daí, o plantio começa em até 12 meses.
Os acordos têm prazos de 40 a 50 anos, assegurando estabilidade e previsibilidade. “É um fluxo de caixa interessante, muitos têm visto como produto de aposentadoria.”
Concessões públicas
A re.green também tem ofertado seu modelo em concessões públicas, como na Floresta Nacional (Flona) de Bom Futuro, em Rondônia. Em março, a empresa venceu o leilão da restauração de áreas degradadas em uma das duas unidades de manejo da Flona.
Com investimento estimado em R$ 87 milhões, a área concessionada tem 6 mil hectares para restauração, além de 34 mil hectares de floresta em pé.
O modelo, estruturado pelo BNDES, inclui a exploração de créditos de carbono, com estimativa de gerar mais de 1,3 milhão de toneladas de CO2 equivalente no período.
No mercado voluntário, um crédito fica em um para um com a tonelada de CO2. A re.green não divulga a receita projetada, mas, na estimativa de uma especialista no tema, o saldo desses créditos deve valer ao menos R$ 130 milhões.
À caça de terras
A concepção e os primeiros resultados renderam à empresa o prêmio Earthshot em 2025, um dos mais relevantes do meio, chamado de “Oscar da sustentabilidade”.
Antes disso, a ideia já tinha atraído membros da academia, como Ricardo Rodrigues, professor da Esalq/USP — cofundador do viveiro de mudas nativas Bioflora, em Piracicaba (SP), que já viabilizou o restauro de 30 mil hectares em 30 anos.
A tese angariou R$ 390 milhões em investimentos em uma rodada Série A em 2023, reunindo gestoras como Lanx Capital, BW Capital, Gávea, Principia Capital e Dynamo.
A empresa também obteve funding público, como em duas captações junto ao Fundo Clima: uma, de R$ 187 milhões, para um projeto cobrindo Mata Atlântica e Amazônia, e outra, de R$ 250 milhões, para restauração e silvicultura de espécies nativas em 19 mil hectares nos mesmos biomas.
A visão da re.green, segundo Visser, é saltar para entre 100 mil e 150 mil hectares em dois anos. No extremo, a ambição é grandiosa: restaurar um milhão de hectares — embora a empresa afirme não ter uma data para alcançar esse patamar.
Para crescer, porém, será preciso encontrar terras e engajar parceiros.
No primeiro caso, a empresa tem usado inteligência artificial para analisar imagens de satélite e identificar regiões com maior vocação para a restauração.
“No início, a prospecção era uma planilha e o processo demorava dias. Hoje, é em dez segundos, incluindo uma estimativa de quanto posso vender em créditos de carbono. Nosso banco têm mais de 3 milhões de hectares mapeados”, explica Visser.
São cinco as regiões mais visadas. Uma no sul da Bahia, entre Eunápolis (BA) e Salvador. “É uma das regiões com o maior índice de biodiversidade do mundo.”
O Vale do Paraíba, entre São Paulo e Rio de Janeiro, também está na mira. As outras regiões são na Amazônia: o oeste do Maranhão, perto de Maracaçumé; o leste do Pará, próximo de Paragominas; e Querência, no Mato Grosso.
Setorialmente, os principais alvos são pastagens de baixa produtividade e áreas marginais de talhões de soja, “mais declivosas, que não têm o ângulo para o maquinário manobrar e sempre estiveram sem uso econômico relevante”, explica.
Na busca por mais produtores, Visser reconhece um obstáculo cultural, ligado à educação sobre o crédito de carbono, “um ativo novo e muito diferente de uma saca de soja ou uma arroba de boi”.
Para vencer resistências, a estratégia passou a incluir parcerias com produtores que recebem comissões por originar terras. (COLABOROU KARINA SOUZA)




