Para voltar a ser uma empresa saudável, a Raízen precisa cortar um terço das dívidas, o equivalente a R$ 24 bilhões. Esse é o montante necessário para reduzir o índice de alavancagem para 3 vezes, um dos principais objetivos da companhia nas negociações da recuperação extrajudicial.
Em dezembro, a alavancagem da Raízen estava em 5,3 vezes, com uma dívida bruta de R$ 70 bilhões. Boa parte desse total (R$ 65 bilhões) entrou na recuperação extrajudicial.
Ficou de fora o passivo financeiro de caráter operacional, como algumas linhas de financiamento à exportação, além das obrigações com fornecedores e clientes — necessários para manter o negócio de pé.
Dos R$ 24 bilhões que a Raízen precisa cortar, R$ 4 bilhões virão dos acionistas. Na semana passada, a Shell e o empresário Rubens Ometto se comprometeram a capitalizar a companhia com esse montante, o que contempla R$ 3,5 bilhões da petroleira e o restante do fundador da Cosan.
Esse aporte, no entanto, estará atrelado às concessões que os diversos credores terão de fazer no âmbito do processo de recuperação extrajudicial. A Raízen terá três meses para chegar a um denominador comum.
Depois dos R$ 4 bilhões que entrarão no caixa, a Raízen ainda terá R$ 20 bilhões para reestruturar com os credores. Parte disso certamente vai ser convertido em ações. Se considerarmos os 40% da possível conversão que circulam no mercado, estaríamos falando de R$ 8 bilhões transformados em equity, restando R$ 12 bilhões a resolver.
A queda de braço deve ser mais intensa na discussão desses R$ 12 bilhões. De um lado, a Raízen vai tentar alongar o máximo possível desse passivo, o que resultaria em um haircut implícito significativo.
Com as negociações ainda em fase inicial, os credores ainda possuem muitas dúvidas. Ainda não está claro se haverá algum haircut explícito nas negociações.
A razão de conversão das dívidas em ações é outra incógnita. Se o passivo for convertido em equity abaixo do preço de tela (e não R$ 1 para R$ 1), estaria configurado um desconto explícito.
Os maiores credores
Um sinal positivo para a Raízen é a disposição demonstrada pelos principais bancos e financiadores de encontrar uma solução para a companhia. Na última semana, os principais executivos do grupo estiveram com os CEOs dos maiores bancos do Brasil, o que ajudou a alinhavar a recuperação extrajudicial.
No pedido feito à Justiça, a Raízen informou que 47% dos credores sujeitos à renegociação aderiram ao processo, o que corresponde a R$ 30,7 bilhões.
A lista dos principais credores que aderiram ao processo é encabeçada por um grupo de bondholders (R$ 7,5 bilhões), seguido pelo banco francês BNP Paribas (R$ 4,2 bilhões), Santander (R$ 2,2 bilhões), Rabobank (R$ 2,2 bilhões) e Bradesco (R$ 2 bilhões).
O banco japonês Sumitomo, por sua vez, tem R$ 1,9 bilhão a receber. Itaú, Bank of America e Nova Scotia têm cerca de R$ 1,5 bilhão a receber cada um. MUFG, BBVA e Banco do Brasil possuem R$ 1 bilhão.
JP Morgan, Morgan Stanley, HSBC, Citi e Crédit Agricole, que também aderiram às negociações, possuem um montante menor a receber.
Na lista dos não aderentes, há R$ 33,2 bilhões. O topo é liderado pelos detentores de bonds que estão pulverizados no mercado americano, com R$ 19,6 bilhões. Depois, aparecem os credores do mercado de capitais brasileiros, também pulverizados, em CRAs (R$ 7,3 bilhões) e debêntures (R$ 6,3 bilhões).
Para homologar o plano de recuperação extrajudicial, a Raízen precisa do aval de credores que representem 50% mais um das dívidas. Como a companhia já obteve 47% nesta fase inicial de negociações, os prognósticos são favoráveis.




