GUAXUPÉ (MG) – No sul de Minas, o rally do café dos últimos anos ainda tem boa parte dos ganhos represados. E isso não afeta apenas os produtores e a cooperativa local, mas toda a economia e a administração pública.
Após oscilar entre US$ 0,80 e US$ 1,50 por libra-peso desde o início do século, a cotação do arábica na Bolsa de Nova York teve duas ondas de alta nos últimos cinco anos. No auge, o preço tocou em sonoros US$ 4,25 em fevereiro de 2025. Hoje, está cotado a cerca de US$ 2,88 por libra-peso (o equivalente a R$ 1.964 por saca de 60 quilos); abaixo do pico, mas ainda em um nível alto.
“Nunca tivemos uma cotação tão boa por tanto tempo. Foi uma fase que vai ficar na história do setor”, sintetiza Jorge Florêncio Ribeiro Neto, gerente de Marketing e Comunicação da Cooxupé, a maior cooperativa de café do País.
Mas, por um motivo curioso, nem todo o faturamento dos últimos anos foi realizado. Por um misto de cacoete e ambição, o produtor deixa para o limite a venda de seu café — o que é facilitado pela excepcional capacidade de armazenagem da Cooxupé, de 7,5 milhões de sacas.

Nesse contexto, é comum ele tentar “acertar a alta”, ou seja, segurar o café no armazém até o limite para autorizar as vendas apenas quando acredita que o preço chegou ao pico — ou quando tem contas a pagar.
“O produtor não pensa que se vender e aplicar no banco, vai render juros. Prefere deixar o café guardado esperando o preço subir”, explica João Marciano, técnico agrônomo da Cooxupé. “Nessas, muitas vezes ele só autoriza a venda no dia em que tem um boleto vencendo”.
“A maior dificuldade é vender na hora certa, porque não dá para ‘desvender’ depois”, reforça José Carlos Pelaquim, proprietário do Sítio Santa Luzia.
Para amenizar esse problema, a Cooxupé orienta os cafeicultores a “fatiar” tanto as compras de insumos quanto as vendas de café. A ideia é compor um preço médio, mais seguro do que operar com movimentos bruscos e volumosos.
O impacto no orçamento
Essa dinâmica de postergação afeta o orçamento municipal, segundo o prefeito Jarbas Corrêa Filho (PSDB), o Jarbinhas, no cargo desde 2025.
A principal receita ligada à cafeicultura na cidade é o ICMS redistribuído pelo estado, cuja incidência depende da efetiva saída da mercadoria do município.
“Estamos esperando um reflexo grande no segundo semestre, porque no ano passado nem todo o café foi comercializado. Com isso, nosso ICMS caiu”, explica o prefeito.
Em seu terceiro mandato, o descendente de sírios da região de Nova Resende (MG) e dono da rede de supermercados São João é filho de um pequeno produtor — e entende da lida.
Segundo ele, a cadeia cafeeira gera efeitos no tecido urbano: quando o preço sobe, a cidade floresce, e, na mesma medida, a vivacidade mingua quando ele cai. “É visível a olho nu, não precisa nem de pesquisa.”










“A influência é na cidade inteira, comércio, serviços, empregos. Do supermercado ao barzinho, tudo ganha ou perde movimento”, detalha Homayra Abdala de Araújo, secretária de Desenvolvimento Econômico e Meio Ambiente.


Com as receitas que espera receber, a prefeitura almeja ampliar o suporte aos produtores, como serviços de terraplanagem para terreirões e reparos em estradas.
A segurança pública também é uma questão. No ápice de preços do café, quando uma saca de 60 quilos chegou a valer mais de R$ 2,5 mil, os furtos em propriedades aumentaram.
Jarbinhas espera que as receitas fiscais o ajudem a suprir o que considera a maior fragilidade do município: a saúde pública. “Temos dificuldade de credenciar médicos especialistas. Para isso, é essencial que a economia cresça.”
Mesmo com parte das receitas postergadas, vale pontuar que a prosperidade dos últimos anos permitiu extravagâncias. Como contratar a disputada dupla sertaneja César Menotti e Fabiano para a festa de aniversário da cidade, o Guaxupé Café Festival, em junho de 2024.
Principal produto de exportação
Em 2024, o café contribuiu com R$ 51,5 milhões em receitas, o equivalente a 17,5% do total (R$ 294 milhões) em Guaxupé, segundo a Prefeitura.
A corpulência se repete no restante de Minas Gerais, com a commodity passando pela primeira vez a mineração na primeira posição da pauta de exportações em 2024. Naquele ano, o estado arrecadou R$ 81,5 bilhões em ICMS ligado ao fruto.
Mesmo fora da época da “panha” (corruptela de “apanhar”, do ato de catar os frutos nos braços da planta na colheita), pelas ruas da cidade o que se vê são sinais de uma economia vibrante.
Seja a pé ou nos carros do Te Levo, o app de transporte mais popular e cujas viagens custam R$ 12 para qualquer destino no município, o horizonte é repleto de comércios — farmácias, restaurantes, concessionárias e lojas de roupas e de eletrônicos. Principalmente na região central, nos arredores do Parque da Mogiana.




