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quinta-feira, junho 25, 2026

Por que o açúcar desabou mesmo com estoque apertado? A Datagro explica

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Um aparente contrassenso MARCA o mercado de açúcar: mesmo com previsões de déficits de produção nesta safra e na próxima, os preços em Nova York seguem em baixa — no menor patamar desde dezembro de 2020, quando foram afetados por uma queda na demanda e nos preços do petróleo em meio à pandemia de Covid-19.

Após cair 24% em 2025, a commodity continuou em baixa neste ano, encerrando fevereiro em US$ 14,30 por libra-peso. Ontem, caiu ainda mais, para US$ 13,93 por libra-peso — abaixo, portanto, do piso estimado por analistas no início deste ano para a curva de preços no primeiro semestre.

Essa realidade, que desafia a ideia intuitiva de que estoques mais apertados deveriam refletir em preços mais altos, se explica por um “descasamento de visões de mercado”, segundo Plínio Nastari, fundador e presidente da consultoria Datagro.

“Neste momento, não vemos conexão entre fundamentos e preço”, disse Nastari em apresentação para jornalistas nesta quarta-feira. A especulação tem pesado mais. “Os preços estão muito influenciados por posições especulativas de fundos de investimento na bolsa de Nova York”, afirmou.

Segundo a Datagro, os fundos de hedge expandiram suas posições vendidas para níveis recordes — em 24 de fevereiro, a posição líquida vendida chegou a 257.863 lotes.

Os preços também não têm reagido às estimativas de déficit no mercado global por uma influência de um comportamento relativamente novo no mercado físico. A eficiente entrega de açúcar de curto prazo pelo Brasil, o chamado ‘just in time‘, teria permitido às refinarias em todo o mundo operar com estoques menores.

“O mundo ficou acostumado com a entrega ‘just in time’ brasileira muito eficiente. Para que manter estoques altos e imobilizar capital de giro?”, afirmou. “Em várias refinarias que usam açúcar VHP do Brasil, que representa 75% das entregas de açúcar cru no mundo, os estoques estão “thin” (magros, em inglês). Refinarias que tinham 120 mil toneladas estão operando com 30 mil”.

Com as compras da mão para a boca tornando-se um comportamento quase padrão, o nível baixo dos estoques nas refinarias deixou de ser um fator altista para os preços, explicou Nastari.

Além disso, o aumento da produção na Índia, Tailândia e América Central na comparação com a safra passada, “em paralelo com o abrandamento da procura física, exerceu pressão descendente sobre os preços [até aqui] em 2026”.

No mercado físico brasileiro, o preço está cerca de 32,5% menor que a média de cinco anos, o que inspira cautela entre os produtores, pois está abaixo do custo médio de produção no Centro-Sul — ainda que, neste momento, seja o mais baixo do mundo.

Compensação

Por outro lado, há fatores “compensatórios” que, segundo a Datagro, estão impedindo preços ainda menores. Um deles é o provável mix mais alcooleiro nos primeiros meses da safra atual no Centro-Sul, em paralelo com uma perspectiva de redução de estoques no País.

O outro é um possível agravamento do conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã no Oriente Médio. “O resultado dessas variáveis pode ser um ponto de atenção com a segurança alimentar”, disse Nastari.

Segundo ele, o único mercado sob risco de abastecimento é Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, cujas entregas passam pelo estreito de Ormuz, hoje fechado em meio ao conflito entre americanos e iranianos. Para outros compradores, como Argélia, Marrocos e Egito, a exportação do Brasil não deve encontrar problemas, já que o trajeto nesses casos passa pelo Mar Vermelho, livre para navegação.

Outro fator que traz volatilidade ao mercado é o El Niño, que, segundo as estimativas mais recentes dos meteorologistas, pode se pronunciar na forma de menos chuvas de monções na Índia entre julho e setembro.

Mais déficits pelo mundo

O fundador da Datagro detalhou as estimativas da casa de déficits globais de 800 mil toneladas em 2025/26 e de 2,68 milhões de toneladas em 2026/27.

No Brasil, a moagem no Centro-Sul deve crescer de 610,5 milhões de toneladas em 2025/26 para 635 milhões de toneladas em 2026/27, “mas com um mix menos açucareiro, de 50,7% para 48,5%”.

O etanol deve seguir remunerando mais, cotado no fim de fevereiro a cerca de 17,25 centavos de dólar por libra-peso (em açúcar equivalente). Já o preço de exportação do açúcar VHP (“very high polarization”, açúcar com alto teor de sacarose, que é a forma mais vendida pelo Brasil), no porto de Santos, ficou em 14,72 centavos de dólar no mês passado.

Por isso, o mix das usinas deve ser mais alcooleiro nos primeiros meses da safra, agravando a questão de estoques, que devem atingir o nível mais baixo em junho.

Em contrapartida, o consumo de etanol hidratado deve subir de 21,23 bilhões de litros em 2025 para 24,18 bilhões de litros em 2026, com a proporção de veículos flex abastecidos com etanol subindo para mais de 30%, contra 26,4% em janeiro.

E esse saldo pode ser ainda melhor, diz Nastari, a depender do comportamento do consumidor-motorista. “Se o abastecimento retomasse a proporção de 2019, que foi de 36,7%, teríamos um consumo 37% maior, com um aumento de 8 bilhões de litros.”

Na Índia, a Datagro reduziu a estimativa para a produção de açúcar de 32,1 milhões de toneladas para 31 milhões, contra 26 milhões de toneladas em 2024/25.

Sob o peso do clima, a produção de açúcar em Maharashtra, a principal região produtora no país, foi revisada de 11,5 milhões de toneladas para 10,20 milhões. A estimativa de rendimento médio também foi reduzida, de 85 toneladas por hectare para 78 toneladas por hectare.

A Tailândia deve fechar a safra 2025/26 com 10,58 milhões de toneladas de açúcar, abaixo da estimativa anterior, em dezembro, de 11,16 milhões de toneladas. “Para 2026/27, estamos assumindo uma queda adicional de 9,72 milhões de toneladas”, detalhou Nastari.

Na União Europeia, o cenário também será de queda, de 16,58 milhões de toneladas em 2024/25 para 15,72 milhões de toneladas em 2025/26. O principal vetor deve ser uma redução de entre 7% e 8% na área plantada de beterraba, para o menor nível em 55 anos.

Já na América Central, a maioria dos produtores devem ver aumentos nos volumes em resposta à melhora nas condições climáticas, embora o peso da região no mercado global seja baixo.



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