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quinta-feira, agosto 13, 2026

Por que a paciência dos bancos com o produtor rural está no limite

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À espera de um milagre (leia-se, uma legislação salvadora que perdoe as dívidas), os produtores rurais estão testando a paciência dos bancos a quem, em última instância, precisam recorrer para custear a safra.

Depois de três anos ruins, os financiadores endureceram o discurso. Se até pouco evitavam críticas abertas, preferindo uma abordagem amistosa para preservar as pontes com o agricultor, agora, apontam de forma mais contundente os problemas nessa relação.

Esse tom mais direto dominou um painel voltado a discutir os impactos da recuperação judicial do AGRONEGÓCIO no tradicional congresso da Andav (Associação Nacional dos Distribuidores de Insumo Agrícolas e Veterinários).

Da dificuldade em acessar o produtor inadimplente às fragilidades de governança que ainda permeiam uma parcela relevante dos agricultores, teve puxão de orelha para todo lado.

“Se o sujeito que tem um restaurante consegue fazer contabilidade faturando menos de R$ 500 mil por mês, como alguém que faz R$ 40 milhões por ano ainda entrega nota num saco para o contador?”, disparou Pedro Fernandes, diretor de AGRONEGÓCIO do Itaú BBA, durante o painel realizado nesta quarta-feira.

O banqueiro criticou o discurso do “perdão de dívidas”, fomentado por algumas entidades de classe na defesa de legislações para a renegociação das dívidas rurais. Segundo ele, isso passa uma falsa sensação de que a crise será resolvida em uma canetada, aumentando a inadimplência.

“Essa lógica não vai resolver, não tem milagre. Então, a gente precisa falar um pouco do ambiente de negócios que a gente quer”, disse Fernandes, em reflexão sobre as consequências de longo prazo no comportamento do produtor rural.

Dados apresentados pela Serasa durante o painel ilustraram o tamanho do problema. A dívida média da população rural inadimplente disparou nos últimos três anos, saindo de um tíquete de R$ 40 mil no primeiro trimestre de 2023 para mais de R$ 120 mil no primeiro trimestre deste ano.

Subsídio não resolve a vida

Fernandes lembrou que um ambiente mais benigno de relacionamento entre produtor e instituições financeiras é um ponto essencial para assegurar financiamento ao AGRONEGÓCIO.

O executivo do Itaú BBA citou que, em 2026, os recursos controlados do Plano Safra somam R$ 150 bilhões. Os recursos livres — em que cabe aos bancos a decisão de fazer os empréstimos — somam mais R$ 140 bilhões. O estoque de CPRs, por sua vez, é de R$ 515 bilhões.

“A gente vai continuar achando que mexer em um quinto da fonte de financiamento vai resolver o todo? Não é. A gente tem que a garantir que é um bom negócio para todo mundo que está nisso. Garantir que esses quase R$ 700 bilhões estão fluindo bem”, afirmou. “Reclamar de subsídio resolve a vida de pouca gente”.

João Andrade, superintendente de agronegócios do Santander, adicionou uma camada de dificuldade ao problema de relacionamento com o produtor rural: falar com o devedor se tornou um calvário.

Por vezes, são necessárias cinquenta tentativas para conversar com o produtor, o que pode ser ainda pior se estiver em recuperação judicial. “Quando você acessa, tem que falar com o advogado. São mais cinquenta tentativas”, criticou.

Fernandes concordou. Nas contas dele, 20% dos problemas de inadimplência rural do Itaú BBA estão relacionados à recuperação judicial. O restante “é atraso de quem não responde, não está lá”, disse ele, reiterando a necessidade de melhorar o ambiente de negócios.

Além da dificuldade no diálogo, os representantes dos bancos relataram o amadorismo na gestão. Andrade, do Santander, mencionou uma conversa de um produtor que não informou corretamente o custo dos arrendamentos que possuía.

“Quanto o senhor paga de arrendamento? ‘Sete sacas’. Eu peço o contrato de arrendamento, e chega o contrato de 18 sacas por hectare. Não cabe mais esse tipo de informação errada. Não tem mais espaço”, disse.



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