Estou neste negócio há muitos anos. Fui criado na Fazenda Guanabara, distrito de Cristal do Norte, no município de Pedro Canário, extremo norte do Espírito Santo. Meu avô, Octaciano Gomes, chegou à fazenda em 1958. Meu pai, Eudis Bahia, formou-se em Medicina Veterinária e foi trabalhar no negócio em 1979 — ano em que nasci.
Desde então, já ouvi a palavra “crise” dezenas de vezes. O produtor rural é um empresário que aprendeu a reclamar. É raro ouvir um produtor dizer que ganhou dinheiro. É da natureza. É orgânico. É quase cultural.
Até dezembro de 1984, com o fim da “conta movimento”, extinta no contexto de reformas do sistema financeiro, o financiamento do agro era integralmente com dinheiro público. Foi nesse ambiente que o produtor aprendeu a falar em crise. Precisava ser ouvido por Brasília. Queria renegociações, prazos maiores, juros menores, Plano Safra mais robusto.
Depois disso, iniciou-se a transição para o financiamento privado. Hoje, mais de 95% do funding do setor tem origem em recursos privados. Mas o discurso da crise permaneceu na linguagem do produtor.
Eu já vi muita gente quebrar. Nos anos 2000, vi a usina de álcool Cridasa fechar. Ela gerava 80% dos empregos do meu distrito. Foi um desastre.
Mas também vi muita gente enriquecer. Vi amigos meus, filhos de retirantes do sertão da Bahia, se transformarem em homens de sucesso, graças ao agro.
Hoje, o norte do Espírito Santo tem algumas das terras mais caras do Brasil — algo em torno de R$ 150 mil por hectare. Na minha avaliação, metade dos 50 maiores níveis de liquidez entre os capixabas pertence a produtores de café. Isso era impensável há menos de dez anos.
O que vivi no Espírito Santo não é diferente do que aconteceu no Brasil. Desde os anos 90, o que observamos? Recordes sucessivos de produção e produtividade.
Vamos aos números:
Nos anos 2000, a balança comercial do AGRONEGÓCIO gerava cerca de US$ 15 bilhões de superávit. Hoje, aproxima-se de US$ 150 bilhões. Enquanto isso, os demais setores da economia saíram de um déficit de US$ 15 bilhões no início do século para mais de US$ 80 bilhões atualmente.
Nos principais complexos exportadores — soja, carnes, florestal, café e sucroenergético — exportávamos cerca de US$ 42 bilhões no início dos anos 2000. Em 2025, exportamos aproximadamente US$ 130 bilhões nesses mesmos segmentos.
O AGRONEGÓCIO brasileiro fechou 2025 com recorde histórico: US$ 169 bilhões em exportações e US$ 149 bilhões de superávit. O setor respondeu por quase metade das vendas externas do Brasil.
E estamos em crise?
A produção de grãos cresceu mais de 500% desde a safra 1985/86, enquanto a área plantada apenas dobrou. Graças à produtividade, economizamos cerca de 147 milhões de hectares, segundo Marcos Fava Neves.
Nas pastagens, o efeito “poupa-terra” acumulado chega a quase 400 milhões de hectares nos últimos 25 anos. O Brasil possui 851 milhões de hectares. Apenas 31% do território é destinado à agropecuária: 19,4% pastagens, 10,8% agricultura e 1,1% silvicultura.
Segundo José Roberto Mendonça de Barros, o agro é o setor que mais cresceu na economia brasileira nos últimos 20 anos, inclusive atravessando crises como 2008, 2015 e a pandemia.
Então onde está a “crise”?
O que houve foi um ciclo de forte expansão que exigiu capital intensivo. Um ciclo que já dura 40 anos. São muitas as oportunidades. O produtor se empolga. A demanda por recursos superou a capacidade fiscal do Estado. Hoje, o Plano Safra só financia um terço da demanda de financiamento ao AGRONEGÓCIO nacional.
Parte dos produtores se alavancou excessivamente.
O principal argumento de quem fala em crise são as recuperações judiciais (RJs).Até 2020, praticamente não existiam RJs no agro. A mudança veio com a Lei nº 14.112/2020 (Lei de Falência e Recuperação Judicial), que reformou a Lei 11.101/2005 e consolidou o entendimento de que a atividade rural pode acessar o regime de recuperação judicial.
Ou seja: as RJs no agro “nasceram” estatisticamente a partir de 2021.
Desde então, segundo a Serasa:
• 193 RJs em 2021
• 232 em 2022
• 534 em 2023
• 1.272 em 2024
• 1.582 até o 3º trimestre de 2025
Fora de contexto, o número impressiona. Mas, considerando cerca de 1 milhão de produtores tomadores de crédito, aproximadamente 3 mil RJs acumuladas representam menos de 0,3% do universo.
Estou dizendo que as RJs não atrapalham? Não. Que não existem problemas? Jamais. Mas precisamos olhar os números num contexto adequado.
Outro ponto é a inadimplência bancária.
Cresceu? Sim. Machuca o sistema financeiro? Muito. Está fora de controle? Não. Existe um problema estrutural? Jamais.
No 2T25, o Banco do Brasil apresentou inadimplência acima de 90 dias de:
• Agro: 3,94%
• Pessoa física: 5,59%
• Pessoa jurídica: 4,18%
No balanço mais recente:
• Pessoa física: 6,56%
• Pessoa jurídica: 3,75%
• Agro: 6,09%
As razões são conhecidas:
- Mudanças nas regras de contabilização de perdas determinadas pelo Banco Central;
- Redução na rolagem de custeio após o aumento das RJs;
- Alavancagem excessiva de parte dos produtores.
Gilson Bittencourt, vice-presidente de Agronegócios do Banco do Brasil, afirmou recentemente em The AgriBiz: “Os agricultores ainda terão um ano duro pela frente, mas a tendência é os resultados sejam melhores do que os 2025. Não estamos em crise de produção.”
Na entrevista, fica claro para mim que ele toca no ponto central dos desafios de alguns produtores: alavancagem.
Três frases resumem o momento e dialogam com a entrevista do Gilson:
• “O problema do agro não é rentabilidade, é liquidez.”, Celso Armando Fugolin Junior, CEO da Petrovina.
• “Quando há fluxo de caixa adequado, você não quebra. Pode ganhar, perder, enfrentar dificuldades, mas não morre”, Elie Horn, fundador da Cyrela.
• “Produtor quebra em ano bom, não em ano ruim”, Antonio da Luz, economista da Farsul.
Os desafios hoje estão concentrados em soja e milho. O café conilon opera com margens elevadas, superior a 50% de ebitda. O frango vive seu melhor momento em décadas.
Em poucos anos, o ciclo pode inverter. A soja estará com margens boas e o café com margem apertada. Sempre foi assim. Trabalhamos com commodities.
Historicamente, na média, as lavouras de ciclo curto dão entre 20 e 30% de margem operacional. E as lavouras de ciclo longo, entre 30 e 40%.
O agro nunca esteve em crise estrutural. Tem produtores em dificuldade? Sim. Talvez 10 mil. Não custa lembrar que a quase totalidade (84%) da produção agropecuária está nas mãos de 400 mil produtores. Quem está em dificuldade é proporcionalmente irrelevante.
Quem são? Os que se alavancaram quando a soja bateu R$ 180,00 a saca. Os que arrendaram terra cara. Os que foram excessivamente corajosos. Ou imprudentes.
Os últimos anos estão proporcionando um processo de amadurecimento.
Bancos ficarão mais criteriosos. Produtores ficarão mais técnicos. A gestão financeira virou ativo. Financiamento em dólar, hedge, auditoria, disciplina de capital e governança passarão a fazer parte da rotina.
A grande maioria dos produtores sairá mais forte. E os que erraram? Sairão do jogo.
As terras migrarão para quem operou com produtividade e alavancagem adequada. Isso não é crise. É ciclo. Muitas fazendas mudarão de mão.
Os juros altos é um ponto sensível. Com a diminuição da relevância do Plano Safra no funding total do produtor rural, o custo médio dos juros subiu. Se o governo federal fizesse o dever de casa, gastando menos do que arrecada, a trajetória da Selic cairia mais rapidamente. Precisamos de juros estruturais mais baixos. Já disse dentro do Congresso Nacional: se possível fosse, eu trocaria todos os incentivos e isenções dos títulos e dos fundos de agro por uma Selic máxima de 8%.
Estamos próximos do pico da inadimplência. Vai começar a cair em breve. E quando cair, surgirá outro argumento para sustentar a narrativa da crise — clima, China, geopolítica.
Mas a trajetória estrutural é clara. O agro continuará sendo o setor mais relevante, resiliente e determinante da economia brasileira.
O futuro do agro está contratado.
***
Octaciano Neto é fundador da Zera. Foi secretário de Agricultura do Espírito Santo na gestão Paulo Hartung.




