19.3 C
São Paulo
sexta-feira, junho 12, 2026

O impacto do super El Niño nas commodities: veja previsões

DEVE LER


A consolidação das previsões de um El Niño muito forte neste ano assusta o AGRONEGÓCIO, mas nem todas as commodities devem ser afetadas na mesma proporção.

A conclusão se repete em dois relatórios recentes. Um deles, da Cogo Inteligência em AGRONEGÓCIO, do especialista Carlos Cogo, estima que o fenômeno coloque 30% da produção global em risco — com a probabilidade de tornar 2027 o ano mais quente da história.

Outro estudo, do Bradesco BBI, destrincha os possíveis efeitos no agro global e no Brasil. Os analistas Henrique Brustolin e Giovanni D’Ottaviano partem de uma previsão de 63% de probabilidade, segundo a agência climática dos Estados Unidos, de um El Niño em nível muito forte, “algo raro e visto apenas quatro vezes nos últimos 45 anos”.

Os analistas partiram de dados históricos da produção global desde 1982 para identificar o comportamento das lavouras em anos de El Niño intenso e, assim, traçar possíveis cenários para a safra 2026/27. Segundo o banco, algumas das principais lavouras do País tendem a se beneficiar — como a soja e o açúcar.

Veja as previsões para cada cultura:

Soja

Na soja, o levantamento do Bradesco BBI identifica um impacto positivo do El Niño, de 1%, na produtividade global — enquanto nos anos de La Niña, o efeito foi nulo.

O potencial impacto positivo, mesmo que pequeno, “deve limitar gatilhos de alta nos preços, especialmente no contexto de área plantada maior e de oferta e demanda mais equilibradas do que em outros grãos”.

Na relação oferta-demanda, o fenômeno pode contribuir para “um equilíbrio mais confortável”. O banco agora estima superávit de 4,5 milhões de toneladas de soja no ano-safra, ante um déficit de 600 mil toneladas estimado antes das previsões de um El Niño mais forte.

No Brasil, o histórico também aponta variação positiva de 1% na produtividade. Mas regionalmente os sinais podem ser pronunciados, segundo o Bradesco BBI.

“No Sul, a produtividade tende a melhorar e a probabilidade de déficit hídrico diminui, já que as chuvas chegam mais cedo e em maiores volumes”. Por outro lado, “o El Niño está correlacionado a maior risco de seca (Nordeste) e pior distribuição das chuvas (Centro-Oeste)”. Neste caso, pode haver risco de replantios.

Na região Norte e na Amazônia, a soja pode sofrer com a estiagem, com “seca severa e rios em nível mínimo”, na análise de Cogo. Segundo o especialista, as perdas no Matopiba e no Centro-Oeste devem superar os ganhos no Sul, “com saldo negativo estimado em entre 3 milhões e 8 milhões de toneladas”.

Já nos EUA, segundo maior produtor, atrás do Brasil, a oscilação deve ser positiva, de 2%, segundo o Bradesco BBI. Na Argentina, o retrospecto sugere ganhos de expressivos 8%. Na China, por outro lado, o efeito histórico foi neutro.

Milho

Para o milho, a perspectiva é positiva, com o histórico avaliado pelo banco apontando um ganho de produtividade de 1% no mundo e no Brasil — embora o relatório ressalve que, no País, “a crescente relevância do milho de segunda safra pode tornar a série histórica menos representativa”.

Como na soja, os analistas identificam “discrepâncias regionais”. Enquanto na região Sul “a primeira e a segunda safra apresentam correlação positiva”, no Centro-Oeste “a segunda safra tende a ser mais fraca, com probabilidade maior de déficit”. Já no Nordeste, a correlação de produtividade é “marcadamente negativa”.

No milho brasileiro, há outro porém: a safrinha — que representa cerca de 80% da produção — pode ficar comprometida se as chuvas atrasarem no Centro-Oeste e reduzirem a janela de plantio, dizem os analistas.

Além disso, pode haver danos em 2027, já que “os maiores riscos criam assimetria negativa nos custos para empresas de proteína animal e usinas de etanol de milho”.

Nos EUA, maior produtor do mundo, o ganho com o fenômeno foi historicamente de 4%. Na Argentina, como na soja, chegou a 8%. Já na China, El Niños em intensidade similar à prevista para 2026 derrubaram a produtividade em 1%.

No mercado internacional, o levantamento revela influência diminuta sobre preços, diz o Bradesco BBI. Ainda assim, o banco mantém “perspectiva bullish”, graças à menor área plantada nos EUA, à crescente demanda por ração animal e biocombustíveis e ao aumento dos custos de produção.

Em termos de oferta e demanda, como na soja, o efeito estimado é positivo — mas, nesse caso, com a oferta ainda “apertada”. Nas contas do banco, o déficit nesta safra cairia para 3,2 milhões de toneladas, bem inferior ao de 22,1 milhões de toneladas projetado antes da previsão de agravamento do fenômeno climático.

Cana-de-açúcar

Na cana, o Bradesco BBI identificou um ganho de 4% na produtividade no Brasil nos episódios de El Niño muito forte. Na Índia, a tendência registrada foi de queda de 1%. O foco nos dois países se justifica pela relevância no fornecimento global de açúcar, com o Brasil respondendo por 24%, e a Índia, por 16%.

No Brasil, o histórico analisado sugere um aumento de 4% no TCH (toneladas de cana por hectare), chegando a 5% no Centro-Oeste e no Sudeste. Mas “curiosamente, o teor de açúcares recuperáveis diminuiu 2%, em média”.

Segundo o banco, o diferencial será o ritmo da colheita no Centro-Sul, que responde por mais de 90% da moagem. Nesse caso, as chuvas podem reduzir o ritmo da colheita e interromper operações, obrigando um carrego de cana para a próxima safra.

O Bradesco BBI estima ainda um ajuste no mix privilegiando o açúcar — ao encontro da queda de 23%, em abril, nos preços no mercado interno do etanol, situando o biocombustível em um desconto de 11% frente ao açúcar.

Com relação a um possível efeito altista para os preços do açúcar, o banco se diz “não tão otimista quanto a narrativa sugere”. Isso porque, segundo os analistas, “o El Niño pode pressionar a produção na Índia, mas o papel do país no comércio global já não é tão claro”.

Já Cogo considera que um El Niño muito forte na Índia e na Tailândia pode levar as cotações para US$ 0,24 por libra-peso — previsão arrojada frente ao patamar atual de US$ 0,13 por libra-peso, e cenário dos sonhos para o setor, sob margens apertadas. Ele crê que o Brasil possa se beneficiar “como fornecedor residual estratégico”.

Café

No café, que define como uma “das culturas mais sensíveis ao El Niño no Brasil e no mundo”, Cogo vê risco alto para o arábica no Cerrado mineiro e no Sul de Minas, com “floração sob seca, bienalidade positiva truncada e risco de abortamento de flores”.

Ele também identifica risco alto nas lavouras de arábica e robusta na Bahia, e nas de robusta em Rondônia, em ambos os casos sob “risco hídrico prolongado”. No Espírito Santo, Triângulo Mineiro e São Paulo, a previsão é de risco moderado.

No mundo, Cogo avalia que o risco é alto na Ásia e na África, como o robusta no Vietnã e na Indonésia e o arábica na Etiópia, Quênia e Uganda, pela seca prolongada.



Fonte Link

- Publicidade -spot_img

Mais Artigos

- Publicidade -spot_img

Último Artigo