Numa indústria de Fiagros dominada pelo financiamento a usinas e à cadeia de grãos, um fundo recém-criado traz para o mercado uma tese inédita: financiar produtores de frutas, flores, legumes, verduras e ovos (FFLVO).
Criado no fim de abril, o Fiagro Planta 1, da Ecoagro e da Planta Pay, já tem R$ 125 milhões em compromissos de investimento. São R$ 100 milhões na cota sênior, que vai remunerar a CDI+2%, aproximadamente, e os demais R$ 25 milhões divididos em mezanino e júnior (dinheiro dos sócios responsáveis por colocar esse projeto de pé).
Por enquanto, o fundo opera em modo piloto, apenas com o dinheiro dos sócios rodando dentro da operação. “É algo muito novo, vamos criar esse track record e ter segurança com o dinheiro de terceiros”, afirma Moacir Teixeira, fundador da Ecoagro, ao The AgriBiz.
O principal motor para a criação desse fundo foi a experiência da Planta Pay, uma plataforma que facilita a gestão financeira do setor de FFLVO. Antes da criação do fundo, a fintech já tinha originado mais de R$ 40 milhões em recebíveis da cadeia, que estão espalhados em FIDCs de “barriga de aluguel” (multisacados que compravam os recebíveis).
A originação desses recebíveis veio da experiência de mais de cinco anos de Pedro Signorelli, fundador da Planta Pay, entendendo como funcionavam os fluxos financeiros em grandes centrais de abastecimento de hortifruti — começando pelo Ceagesp.
“Fui estudar e entendi o tamanho do desperdício que ocorria no maior entreposto da América Latina, no ano passado, faturou R$ 17,8 bilhões. O que o Nubank fez para a pessoa física é o que queremos fazer dentro de um Ceasa”, explica Signorelli, ao The AgriBiz.
Num trabalho que começou quando ele ainda estava na Turbo Aceleradora (focada na cadeia alimentícia), o empreendedor percebeu os efeitos da informalidade e do descasamento de prazos na cadeia, formada por produtores, distribuidores e varejistas.
Havia uma série de buracos nessas relações. Produtores, por vezes, recebiam menos do que esperavam ao vender seus produtos para os distribuidores. Estes, por sua vez, penavam com o fluxo de caixa descasado entre o recebimento pelas vendas ao varejo e os pagamentos aos produtores.
Signorelli decidiu organizar esse fluxo, criando uma plataforma financeira que concentra em um único local os recebíveis — tanto dos produtores contra os distribuidores como destes contra o varejo.
A Planta Pay saiu do papel oficialmente em 2024 com essa missão (financiada pela própria Turbo Aceleradora) e, de lá para cá, passou também a adiantar esses recebíveis, tanto para distribuidores quanto para produtores.
O dinheiro veio, a princípio, da própria captação com a Turbo, mas depois, essas boletas passaram a ser vendidas para FIDCs de barriga de aluguel (multisacados que compravam esses recebíveis, pagando à fintech um fee pela originação).
Neste último ano e meio, foram originados R$ 40 milhões em recebíveis, com uma inadimplência nula, segundo Signorelli. “O máximo que tivemos foram alguns casos pontuais de atrasos de pagamentos do varejo aos distribuidores, mas não tivemos inadimplência”, explica.
O próximo passo
Para conseguir avançar nessa proposta, a Planta Pay agora passa a ter um Fiagro próprio, em parceria com a Ecoagro (responsável pela gestão do veículo). A assessoria financeira para tirar o projeto do papel veio do VBSO Advogados.
“O Brasil é um país difícil. Os distribuidores têm limites baixos nos bancos, o que dificulta o acesso ao crédito. O que a Planta Pay fez foi baratear custo, dar um preço justo e injetar dinheiro no produtor rural”, diz Teixeira.
Agora, os recebíveis que ficavam espalhados por esses FIDCs passam a vir para o Fiagro próprio da gestora. Hoje, ao todo, a Planta Pay já tem mais de R$ 3 bilhões em recebíveis selecionados, em um mercado com um potencial muito maior.
“São R$ 78 bilhões nas 74 Ceasas espalhadas pelo País. Ao todo, já mapeamos mais de R$ 150 bilhões em recebíveis dentro desse mercado”, detalha Signorelli.
Mais do que um montante financeiro grande, os gestores destacam que a diversificação de ter múltiplas safras ao longo do ano também é um diferencial dessa cadeia em relação às cadeias habitualmente financiadas pelos Fiagros.
“Alface tem 20 safras por ano, sabe? O que estamos fazendo é educando esse produtor financeiramente, organizando para diminuir o desperdício, acaba melhorando a cadeia de valor para todo mundo”, diz Signorelli.
Num exemplo dos resultados conquistados até aqui, o empreendedor afirma que a empresa foi convidada por uma multinacional que atua na parte de sementes de melancia porque os fluxos de pagamento dos produtores que faziam parte da Planta Pay haviam melhorado.
Além disso, existem efeitos, segundo Signorelli, na redução de desperdício de comida — uma vez que o produtor, sabendo quanto vai receber e adiantando isso, cuida mais da carga.
“Mensurando, nesse tempo todo, diminuímos em 12% o desperdício de alimentos. Isso me dá muita satisfação porque é comida na mesa”, afirma o empreendedor.





