As previsões de um super El Niño aguçaram a procura dos agricultores por apólices de seguro rural.
De acordo com a Mapfre, a demanda é maior em áreas historicamente mais afetadas, como o Rio Grande do Sul, onde a expectativa é de mais chuva, e o Mato Grosso, onde espera-se seca, mas também vem despertando o interesse em outras regiões. Goiás é um exemplo.
“Meus próximos dias vão ser por conta desse fenômeno”, brincou Fabio Damasceno, diretor técnico de seguros agrícolas da Mapfre no Brasil, durante evento na sede da empresa, em São Paulo, nesta quarta-feira.
Prestes a viajar para Goiás para avaliar a viabilidade das potenciais novas apólices, ele vê nessa tendência ao mesmo tempo um mau sinal e uma oportunidade. “Não fosse o El Niño, este seria um ano de baixa procura. Mas ele elevou a demanda em zonas onde a gente tem que ver se acertou o produto, ou se tem risco adicional.”
Segundo Damasceno, ir a campo é essencial também porque a cobertura de seguro é heterogênea mesmo em regiões com características similares.
Nas zonas novas, outro desafio é letrar o produtor para alinhar expectativas, explicou Yane Freitas, especialista em Engenharia Agrícola.
“O segurado na região Sul bate na nossa porta e já conhece o risco e a cobertura. Mas na região Centro-Oeste, como em Goiás, ele ainda estranha, pois espera receber a produção adicionada ao valor da receita, colhendo 80 sacas e recebendo 80 sacas, em vez de receber o valor garantido para o custo da produção. A forma de abordar precisa ser diferente”, ela diz.
Avaliação mais criteriosa
A venda e o desenho das apólices estão demandando processos mais criteriosos, principalmente em regiões onde os dados estatísticos dão como certo prejuízos por eventos como vendavais, secas, danos elétricos e alagamentos.
“Estou há 20 anos no mercado, e esse é o mais complexo que já vi”, afirmou Damasceno.
A situação de aperto no agro, com cadeias operando com margens exíguas ou negativas, é outro elemento que nubla o cenário.
“Quando o produtor reduz aplicação de insumos, manejos e tecnologia, a resiliência da cultura diminui e o risco aumenta”, disse Damasceno. Por isso, a seguradora se diz mais seletiva. “A gente não deixa de atender, mas a análise está mais criteriosa. E invariavelmente pode ter no meio do caminho uma mudança de preço, nível de cobertura ou produtividade segurada”.
A prioridade tem sido dada a quem tem dados que permitam aferir o risco com mais precisão — resultando em apólices mais bem amarradas. “É um problema crônico, mas tem produtor com dados de 20 anos; isso melhora o produto imediatamente.”
As informações são importantes também para orientar a distribuição e a alocação dos times da seguradora, como os vistoriadores.
Entre dois extremos
Damasceno lembra que a Mapfre, como todas as seguradoras, precisa se equilibrar entre segurado e resseguradora. Ou seja, a análise de risco deve ser atraente para o cliente se interessar, mas rigorosa o bastante para ser aprovada pelas entidades.
Com isso, o planejamento fica mais difícil. “Preciso dar ao ressegurador o conforto de que a estratégia é boa. É complexo, porque renovo o resseguro do ano seguinte sem ter ainda nem o resultado da safra de verão. Daí o desafio de pegar na mão do produtor e acompanhar de perto como está indo o pré-custeio.”
Ele destaca o potencial sistêmico do risco. “Como os resseguradores são globais e dão capacidade para várias seguradoras, a tensão é grande. Mesmo com um trabalho perfeito, se tiver impacto de mercado, todo mundo sente.”
O reflexo no dia a dia é um maior escrutínio de ambos os lados. “Não consigo assistir jornal nessa época do ano”, brinca Damasceno. “Quando vejo turistas apreciando a neve na serra Catarinense ou queimadas em Portugal, já sei que no dia seguinte vou ter milhares de pedidos de sinistro e mais trabalho para responder às resseguradoras”.
Paramétrico em 2027
Outra solução na qual a Mapfre vem investindo diante do El Niño é uma versão rural do seguro paramétrico. Após comprar a empresa suíça Blue Marble, especializada na modalidade, a empresa espera lançar no Brasil em 2027, iniciando pelo café.
Na modalidade, as indenizações são pagas automaticamente, com base em gatilhos pré-estabelecidos, como volume de chuva ou temperatura, e não de acordo com o prejuízo vistoriado no local. É alternativa para customizar coberturas, normalmente em patamar menor, e para acionar mais clientes, a um custo também menor.
“O paramétrico não consegue ser tão competitivo para os principais riscos e culturas, mas pode servir de complementação de cobertura. Ou em regiões, como algumas no Rio Grande do Sul, que já nem têm oferta de seguro, pois o risco é certo.”




