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segunda-feira, agosto 17, 2026

Na corrida do biodiesel, Grupo Potencial se arma com esmagadora

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LAPA (PR)* — O Grupo Potencial escolheu suas armas para passar de regional a nacional na corrida do biodiesel: um significativo aumento de capacidade, maior autonomia sobre as matérias-primas e circularidade.

Na primeira frente, a empresa inaugurou nesta quarta-feira (25), em seu parque fabril em Lapa (PR), sua primeira esmagadora de soja. Na ocasião, celebrou também a segunda fábrica de glicerina e mais uma unidade de biodiesel — é a terceira na planta.

Uma vez em plena capacidade, as novas instalações vão elevar a produção de biodiesel da Potencial para 1,7 bilhão de litros por ano. Atualmente, o grupo tem capacidade para produzir 900 milhões de litros/ano.

Com investimentos estimados em R$ 6,3 bilhões até 2032, o grupo caminha para se tornar uma potência dos biocombustíveis.

O ambicioso guideline mira produzir etanol de milho, além de 9 milhões de metros cúbicos de biogás. A Potencial usa uma Estação de Tratamento de Efluentes que produz biogás no processo de filtragem dos resíduos. Depois, ele é reusado para alimentar caldeiras que podem alternar entre ele e a tradicional biomassa.

Como outras empresas no setor, a Potencial também tem geração própria de energia elétrica, atualmente a custo menor que o da rede da Copel.

Com essa integração entre distintas fontes, o Grupo planeja elevar o faturamento de R$ 12 bilhões em 2025 para R$ 20 bilhões até 2032.

Em cerimônia de inauguração com a presença de autoridades, o vice-presidente de Novos Negócios, Investimentos e Relações Institucionais do Grupo Potencial, Carlos Eduardo Hammerschmidt, o Dudu, detalhou a dimensão da ambição:

“Teremos a maior planta de biodiesel do mundo e passaremos a ser uma empresa de agroenergia, completamente integrada às cadeias de grãos. O objetivo é consolidar a liderança regional e nos tornar a quarta maior fabricante de biocombustíveis do Brasil.”

Verticalização

Com sua própria esmagadora de soja, a Potencial pretende produzir “em casa” até um terço das matérias-primas. No plural, pois três insumos são usados na etapa final do processo de fabricação do biodiesel.

A rota mais preponderante usa o óleo vegetal de soja, fruto do esmagamento do grão, e responde por 75% da produção da Potencial. Para alimentar a nova usina, a empresa vai ampliar as compras de óleo, beneficiando-se de esmagadoras recém-inauguradas ou em construção no Paraná, como as das cooperativas Tradição, em Pato Branco, e C.Valle, em Palotina.

Já para alimentar a nova esmagadora, a Potencial vai passar a comprar soja in natura. O grupo fez uma primeira compra de 300 mil toneladas no final do ano passado, a R$ 700 milhões, para abastecer os primeiros meses na entressafra.

A processadora, que deve entrar em operação no fim de abril, usa um processo no qual a soja não é propriamente esmagada, mas peletizada em laminadores até ficar quase microscópica. Nesse estágio, o solvente hexano é aplicado para extrair o biodiesel.

A produção em Lapa também usa uma rota baseada em gorduras animais, como sebo bovino, óleo de vísceras de aves e graxa suína, que contribuem com 20% do total. E existe uma terceira via que parte do óleo sintético — fruto do processamento de ácidos graxos contendo glicerina, responsável por 5%.

A esmagadora deve entregar entre 20% e 30% de produção adicional de biodiesel, enquanto o aumento da capacidade de produzir glicerina deve contribuir com mais 5%.

De trás para frente

Em sua história, o Grupo Potencial fez um movimento de verticalização diferente do modelo mais recorrente em que agricultores passam a produzir biocombustíveis.

A empresa nasceu como um posto de combustíveis em 1954. Depois, nos anos 1970, evoluiu para uma rede de postos e uma distribuidora. Nos anos 1990, passou a produzir biocombustíveis, sob a liderança do pai de Dudu, Arnoldo.

“Meu pai é um cara que gosta de arriscar. Mas, no caso do óleo de soja, não era nem questão de risco, mas de sobrevivência, porque grandes tradings verticalizaram o óleo, como Cargill, ADM e Cofco. Isso nos obrigou a verticalizar, também.”

Vice-presidente de Novos Negócios da Potencial, Carlos Eduardo Hammerschmidt (esq.) e o vice-governador do Paraná, Darci Piana

Desde então, as dimensões cresceram. Além dos biocombustíveis, da distribuidora e da operação de postos, o Grupo tem um braço de logística e uma trading.

A fábrica também ficou maior. À chegada no trevo principal da BR 427 na minúscula Lapa, cidade de 45 mil habitantes a 1h30 da capital Curitiba, a planta da Potencial já desponta no horizonte com seus altos colossos nas cores verde e branco.

E com as ampliações e inaugurações em um terreno contíguo ao utilizado pela empresa atualmente, o complexo vai mais do que dobrar de tamanho.

A usina de etanol de milho, que deve ser inaugurada em 2028, vai produzir 1 bilhão de litros por ano em plena capacidade. Como referência, a Inpasa, líder no setor, tem capacidade para produzir 6,2 bilhões de litros por ano.

Com isso, diz Dudu, o grupo vai consumir cerca de 15% da produção de soja e milho do Paraná, o segundo maior produtor dos grãos do País.

Infraestrutura

Outra peculiaridade do crescimento do Grupo Potencial é o funding. Segundo Dudu, a empresa tem um valor diminuto atrelado a crédito no mercado e prefere se financiar reinvestindo os lucros.

São cerca de R$ 130 milhões no sistema bancário, além de R$ 500 milhões da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), valor que pode subir para R$ 700 milhões. Somados, os montantes representam 15% do plano de negócios.

“Meu pai tem um princípio: quase nunca tirou dinheiro da empresa. Sempre reinvestiu. E sempre achou que deixar dinheiro parado no banco só era bom para o banco.”

Na cerimônia, Dudu anunciou R$ 144 milhões em investimentos da empresa e dos governos do Estado e da cidade para pavimentar as rodovias na região, incluindo algumas estradas ainda de terra que conectam o parque fabril a Lapa.

A medida terá efeito significativo, uma vez que a empresa estima um fluxo de mais de 300 caminhões por dia quando as novas estruturas estiverem prontas — já são cerca de 75 atualmente.

Parte da frota vai carregar farelo de soja e DDGS. “Para crescer em biocombustíveis, precisa se tornar produtor de farelo. E entender esse negócio para vender com lucro, senão não fecha a conta do óleo”, explica Dudu.

A empresa exporta os subprodutos e vem buscando estreitar laços com produtores e frigoríficos, além de considerar uma iniciativa de pecuária em confinamento para caso sobrem farelo e DDGS.

O plano inclui ainda construir duas linhas de dutos ligando a fábrica a Araucária e outras cidades. A primeira, em parceria com a Compagas, vai trazer biogás para a Potencial. Já a outra linha terá dutos para escoar biodiesel, etanol e, eventualmente, também biogás, quando a empresa gerar excedentes.

Novos mandatos

Uma condição essencial para a continuidade do crescimento da Potencial é o aumento dos mandatos — do biodiesel no diesel, hoje em 15% (B15), e do etanol na gasolina, hoje em 30% (E30).

Dudu tece críticas ao que vê como uma postura vacilante do governo federal nesse âmbito. E destaca que já há tecnologia para os motores rodarem até com B18, ou mais.

“A Volvo criou um caminhão capaz de rodar com qualquer mistura de biodiesel, inclusive 100%. Compramos 60 unidades.”

Além disso, argumenta, o choque no petróleo causado pela Guerra no Irã torna ainda mais urgente que o Brasil aumente suas cotas de misturas de biocombustíveis.

“Pode escrever: vai faltar diesel no Brasil no final do mês que vem. Os importadores não são obrigados a manter um estoque de segurança, e a conta não fecha. A gente não compreende o porquê de a ANP não acelerar os mandatos”, diz Dudu.

Para o futuro, o executivo não descarta abrir o capital da empresa na bolsa. Mas, primeiro, planeja instituir um modelo de partnership, elevando colaboradores à condição de sócios, “Como a Weg fez, engajando os times”.

* O jornalista viajou a convite do Grupo Potencial.



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