As filas de caminhões em Miritituba (PA), no coração do Arco Norte, expõem nesta semana a persistência de um gargalo estrutural que vem elevando custos de escoamento na safra 2026 de grãos. O congestionamento chega no pico do embarque de soja pelo Tapajós, momento em que a fragilidade da BR-163 e das instalações portuárias volta a testar a competitividade brasileira frente aos concorrentes sul-americanos e a determinar o prêmio pago ao produtor do Centro-Oeste e da Amazônia Legal.
O quadro logístico se soma a um segundo movimento observado no mercado da soja: os produtores brasileiros vêm retraindo a comercialização e mantendo estoques à espera de preços internacionais mais favoráveis, segundo levantamento do Canal Rural. Esse comportamento pressiona o giro de capital de cooperativas e armazéns e amplia a dependência do escoamento via Arco Norte quando as vendas voltarem ao ritmo normal, provavelmente entre setembro e outubro. A conjunção — infraestrutura sobrecarregada, retenção estratégica de produto e sazonalidade concentrada em quatro meses — indica que o segundo semestre de 2026 corre risco real de reproduzir episódios de estrangulamento observados em 2021 e 2023, quando o custo por tonelada em Miritituba superou com folga a referência de Santos e comprometeu o resultado de exportadoras que apostaram integralmente no corredor norte para escoar a safra.
A leitura de médio prazo é que o Brasil segue produzindo mais rápido do que investe em corredores logísticos permanentes. Enquanto a Argentina recupera participação em mercados sanitários e a China acelera capacidade avícola própria, o custo de escoamento se torna variável decisiva para preservar prêmio brasileiro em soja, milho e proteína animal, todos sensíveis ao frete até o porto. A abertura de mercados anunciada pelo MAPA para Malásia e Cuba, e a mobilização para proteger US$ 1,8 bilhão em vendas de carne para a União Europeia, só ganham tração efetiva se o produto conseguir chegar ao destino com custo competitivo em relação ao concorrente. A CONAB, ao abrir esta semana o recebimento de documentos para o Programa de Sustentação de Preço do pirarucu, mostra que o Estado ainda mantém instrumentos ativos de política agrícola setorial, mas nenhum programa emergencial substitui investimento estrutural em duplicação de rodovias, ferrovias e capacidade portuária no arco amazônico.
Da Redação
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