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terça-feira, agosto 18, 2026

Febre por proteína dá fôlego aos M&As de laticínios

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Uma onda de fusões e aquisições se formou no setor de laticínios ao longo do último ano. Foram às compras nomes conhecidos do consumidor — como Piracanjuba, MARCA-regina-e-fabrica-da-barbosa–marques-pela-tirolez.htm” target=”_blank” rel=”noreferrer noopener”>Tirolez e Italac — num movimento que mescla a busca por uma presença maior em segmentos altamente demandados, com maior valor agregado e diversificação regional. Mas, afinal, por que agora?

Parte dessa explicação pode ser atribuída à recente febre por proteínas. A busca desenfreada de consumidores por alimentos proteicos tem colocado o soro do leite — um subproduto da fabricação de queijos — em um lugar de protagonismo diante de investidores locais e internacionais.

“O soro é, cada vez, mais uma fonte importante de receita para a indústria láctea que produz queijos”, diz Valter Galan, sócio da MilkPoint, uma das principais consultorias ligadas ao setor de lácteos no Brasil.

Dados compilados pela MilkPoint ilustram a relevância que o subproduto vem ganhando. Em julho, o preço do soro em pó era de R$ 9,54 por quilo, um aumento de quase 35% em relação ao mesmo mês do ano anterior.

A busca por esse subproduto tem motivado M&As até mesmo fora do Brasil. Em janeiro, a cooperativa multinacional holandesa Royal FrieslandCampina comprou a norte-americana Wisconsin Whey Protein — justamente focada nesse mercado.

“Hoje, 71% dos consumidores priorizam ativamente a ingestão de proteínas, um aumento notável em relação aos 59% em 2022 e 67% em 2023”, afirmou a FrislandCampina, em comunicado. Segundo a empresa, o mercado de whey protein deve crescer a uma taxa de 6,6% ao ano até 2030.

De quebra, vai o queijo

O fato de o soro do leite ter se tornado uma espécie de galinha dos ovos de ouro contribui para atrair olhares ao setor de queijos no Brasil — dando um suporte recente a outros fatores estruturais que tornam esse mercado atrativo no País.

Segundo dados da Abiq (Associação Brasileira das Indústrias de Queijo), o consumo per capita está em sete quilos por ano — ainda muito abaixo de nações como a Argentina, que consome cerca de 12 quilos por ano, e também inferior ao de países europeus como a Grécia e França.

Além de uma avenida de crescimento em volume, o mercado de queijos também oferece espaço para a diversificação. Mais de um terço do consumo brasileiro é de queijos commodities, como a muçarela, que entrega uma margem Ebitda na casa de 4% a 6%, segundo a MilkPoint.

Queijos finos tendem a ter margens maiores — e despertam interesse. A aquisição da mineira Básel Lácteos pela Piracanjuba, em janeiro deste ano, é um exemplo desse movimento, que ultrapassa as fronteiras nacionais, segundo Carolina Reis, sócia associada da IGC, boutique de M&A.

“Principalmente para investidores estrangeiros que não estão aqui, queijos especiais, a própria burrata, queijo gruyére, provolone etc, têm chamado a atenção”, diz.

Um dos fatores que pode estimular essa demanda está na elasticidade do consumo em relação à renda (quanto mais o salário melhora, mais o consumo de queijo tende a aumentar).

Outro ponto é a busca por saudabilidade aliada ao consumo de proteínas — já que o queijo entrega proteína e cálcio de largada. “Tem uma questão até de novas ocasiões para as pessoas consumirem queijos como snacks”, completa Reis.

Da porteira para dentro

Ao mesmo tempo em que o consumidor continua ávido por alimentos ricos em proteína, da porteira para dentro a fragmentação do setor de laticínios no Brasil oferece um suporte adicional às fusões e aquisições.

“Existem muitos players regionais. Os cinco principais não representam nem 50% da captação de leite. É essa cauda longa que alimenta as fusões e aquisições”, resume Reis.

Por meio de M&As, as empresas podem acessar outras bacias leiteiras — ou seja, polos de diferentes regiões produtoras. “Quando alguma empresa grande compra outra regional, costuma manter a equipe de compras, muda muito pouco nessa relação”, diz Galan.

No Sudeste e no Sul estão as maiores bacias leiteiras do País, mas o Nordeste vem ganhando protagonismo com um crescimento acelerado ao longo dos últimos anos na produção de lácteos — o que tem despertado a atenção de empresas de fora.

Entre 2014 a 2024 (a edição mais recente da PPM, a pesquisa mensal de pecuária do IBGE), o Nordeste foi a única região que efetivamente cresceu em produção de leite no Brasil.

A região teve um aumento de 65% nesse intervalo, para 6,4 bilhões de litros. O País como um todo, nesse período, ficou praticamente estável (crescimento de 1,7%) com uma produção de 35 bilhões de litros.

Segundo Galan, da MilkPoint, o avanço vem da superação de condições mais desafiadoras de produção, com o aumento da produção de grãos na região do Matopiba e da interligação entre sistemas de irrigação e compost barn (uma espécie de confinamento para a pecuária leiteira).

O investimento na região também é motivado pela demanda. “O Nordeste é, talvez depois do Sudeste, o principal mercado consumidor de lácteos do Brasil. E tem um déficit de produção grande”, afirma Galan.

Para dar uma dimensão do déficit, só em 2025, a produção nordestina de leite cresceu 14% em relação ao ano anterior, com aumento em praticamente todos os estados da região. Mesmo assim, o déficit comercial cresceu mais de 10% no mesmo período, como mostra um estudo feito pela pesquisadora Kamilla Ribas Soares para o Banco do Nordeste.

“Temos escutado compradores com interesse em entrar na região para diversificar a base de cooperados e ter um poder de barganha melhor com clientes. Se você adiciona novos produtos, no fim também consegue uma presença mais forte na gôndola”, diz Reis.



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