Um ano que começou tenso para as indústrias de frango do Brasil com a guerra no Oriente Médio, um dos principais mercados para o setor, vem se mostrando positivo. As empresas conseguiram driblar as disrupções logísticas e manter as exportações à região, enquanto os custos de produção seguem controlados e a demanda interna, firme.
A margem das vendas no mercado doméstico — estimada pela diferença entre os custos e os preços — está perto da média histórica, em torno de 35%, segundo cálculos da consultoria agro do Itaú BBA.
As exportações aquecidas e o consumo interno, favorecido pela forte competitividade da carne de frango, mantêm a rentabilidade dos frigoríficos em níveis confortáveis. Mesmo com a produção aumentando, a indústria garante que a relação entre oferta e demanda está equilibrada.
“O que se produziu a mais foi porque havia demanda lá fora, e ela é consistente. Prevemos um crescimento da produção de 5,6%, mas para uma exportação que cresce 10,3%”, diz Ricardo Santin, presidente da ABPA (Associação Brasileira de Proteína Animal). “O mercado está equilibrado até aqui.”
A forte demanda de exportação acaba beneficiando a competitividade do frango no mercado interno, ao reduzir o custo por unidade produzida em operações que são complementares, explica Santin.
Num ambiente de alto endividamento das famílias — que favorece a migração para proteínas mais baratas —, a perspectiva é que a demanda no mercado doméstico permaneça firme em meio aos preços convidativos.

Sem grandes sobressaltos este ano, as atenções se voltam mais para 2027, com as preocupações sobre os efeitos do El Niño na oferta de milho e de farelo de soja, principais ingredientes da ração animal, que corresponde a cerca de 60% dos custos de produção.
“O risco é para o custo de produção”, resume César de Castro Alves, gerente da consultoria agro do Itaú BBA. “Estamos preocupados com os efeitos do El Niño no ano que vem. Se eu fosse produtor de frango, eu aumentaria o estoque de milho. Deixaria maior do que o normal para o ano que vem”, afirma.
El Niño traz riscos
No Brasil, a maior preocupação em relação ao El Niño está na safrinha de milho. Os modelos meteorológicos indicam que o fenômeno climático deve atingir o pico entre novembro e o segundo trimestre de 2027, ou seja, durante o desenvolvimento da segunda safra. No Cerrado, que concentra a produção de milho safrinha, o El Niño normalmente torna as chuvas mais irregulares e menos volumosas.
Além do risco de um tempo mais seco no período chave para a segunda safra, existe a possibilidade de o fenômeno climático provocar atrasos ao plantio ou colheita da soja, retardando a janela de plantio da safrinha e amplificando os riscos climáticos.
“Para o milho, o desenho para o ano que vem é bem perigoso”, diz Alves, do Itaú BBA.
As empresas vêm se preparando para enfrentar um ano mais incerto para a oferta de grãos. “Estamos trabalhando com posições alongadas em grãos. Não necessariamente com compra física, mas contratos a termo, para tentar mitigar os riscos e assegurando os níveis de preços que temos visto neste ano”, disse Miguel Gularte, CEO da MBRF, durante teleconferência com analistas este mês.
Mas nem todas as empresas têm condições financeiras para fazer o mesmo. “Se dependesse de vontade, todo mundo alongaria [as posições em grãos]. O problema é que está faltando caixa”, diz uma fonte do setor. O cobertor está mais curto principalmente entre os que também produzem suínos, segmento que opera com margens baixas ou até negativas.
Para a ABPA (Associação Brasileira de Proteína Animal), os estoques de passagem de milho e de farelo de soja trazem um certo conforto à perspectiva de oferta. “Estamos atentos aos efeitos do El Niño. Pode ser que em algum local tenha comprometimento [de safra], mas a princípio não deve ter tanto efeito”, diz Santin.
Em encontro com jornalistas no final do mês passado, ele citou dados da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) que mostram o estoque de passagem da safra 2025/26 de milho em 14 milhões de toneladas, “um dos maiores dos últimos tempos”. Os estoques de farelo de soja, em torno de 6,4 milhões de toneladas, também estariam confortáveis, mostrando um crescimento de aproximadamente 70% em um ano.
Ameaça europeia?
Antes de eventuais impactos do El Niño, a avicultura brasileira pode enfrentar alguns desafios ainda este ano, mas com um potencial menor de destruição de valor.
A partir de 3 de setembro, a União Europeia deve barrar a entrada da carne brasileira, inclusive de frango, sob o argumento de que o País não estaria cumprindo o protocolo antimicrobiano exigido pelos europeus.
No setor, ainda há esperanças de que o embargo possa ser evitado após uma auditoria dos europeus prevista para esta semana. E, mesmo que ele entre em vigor, os danos devem ser contornáveis.
“Se a Europa barrar, não necessariamente teria um impacto relevante no agregado. O frango tem tanta liquidez que os exportadores podem redirecionar esses volumes para outros destinos”, avalia Alves, do Itaú BBA. “Não acredito que isso possa criar uma pressão de preços.”
A União Europeia respondeu por cerca de 7% dos embarques brasileiros de carne de frango até julho deste ano, segundo dados do Ministério da Agricultura. O Oriente Médio respondeu por aproximadamente 25% volume exportado, enquanto a Ásia, puxada pela China e pelo Japão, ficou com 30% do total.
Gripe aviária
Um outro fator a ser monitorado pelo mercado é o risco de o Brasil registrar algum caso de gripe aviária em granja comercial, como aconteceu no ano passado. “Estamos muito rigorosos com a biossegurança, mas isso é imponderável”, diz o analista do Itaú BBA.
No primeiro semestre, 67 países reportaram mais de 3.600 casos de influenza aviária, segundo a ABPA. A maioria dos episódios foi registrada na Europa, mas a estatística inclui o Brasil (apenas registro em aves silvestres e de subsistência).
O dado pode ser encarado como um alarme para a sanidade brasileira. Por outro lado, caso as granjas brasileiras consigam se manter longe do vírus, isso pode significar novas oportunidades comerciais. “O ambiente global sugere que o Brasil será mais chamado ainda [a exportar]”, disse Santin.
“Se não tivermos surpresas negativas, o setor está bem defendido por custos, demanda e cenário externo”, concluiu Alves.




