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sábado, agosto 8, 2026

CRA ou debênture incentivada? A oportunidade nos títulos do agro

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A aversão dos investidores por títulos ligados ao AGRONEGÓCIO chegou a tal ponto que abriu uma oportunidade. Hoje, alguns CRAs dão mais retorno do que debêntures incentivadas voltadas ao financiamento de projetos de infraestrutura para os mesmos emissores. Ambos os títulos, não custa lembrar, são isentos da cobrança de Imposto de Renda para o investidor.

“Nosso diagnóstico é que os fundos de infraestrutura começaram a captar bastante desde o ano passado e têm obrigação de comprar debêntures incentivadas. Isso acaba destruindo preço e a remuneração do ativo por conta do aumento da demanda, que vai perdendo força”, explica Márcio Takaya, gestor de AGRONEGÓCIO da Sparta.

Para conseguirem enquadrar os fundos dentro do benefício fiscal, gestores de fundos de infraestrutura têm um período de seis meses a dois anos para alocar 67% do patrimônio líquido em debêntures incentivadas. Depois de dois anos, esse percentual passa para 85%.

A assimetria entre as debêntures e os CRAs apareceu em detalhes na carta mensal da gestora, divulgada dias após o fim do Carnaval. No texto, a casa destaca que a conclusão vem de uma análise de emissores high grade, como Klabin, Jalles Machado, Cerradinho, Zilor, Santa Fé e Eldorado.

Comparando os dois tipos de título para cada um desses emissores, a conclusão é que a remuneração do CRA supera a da debênture incentivada em pelo menos 80 pontos-base ao ano. “Tem empresas com uma diferença até maior, chegando a mais de 100 pontos-base”, explica Takaya.

É um prêmio de liquidez, ao que tudo indica, associado puramente ao instrumento — sem uma correlação clara com uma deterioração dos riscos de crédito. Aparentemente, o retorno é maior simplesmente pelo formato de CRA e não de debênture incentivada.

“Na teoria, as pessoas físicas poderiam vender debênture de infra e comprar CRAs, mas não é um movimento tão simples, dados os custos de operar”, lembra um analista.

A diferença não significa, entretanto, porteira aberta para sair comprando CRAs. A Sparta segue cautelosa com emissores de maior risco, definidos pela gestora como aqueles títulos com spreads acima de 300 pontos-base sobre os indicadores de referência.

Não há valor, para a gestora, em capturar prêmio apenas esticando o perfil de crédito. “A oportunidade que identificamos está concentrada no segmento high grade, onde o prêmio do instrumento permanece elevado frente à qualidade dos emissores”, destaca a gestora, na carta da semana passada.

Também não significa que todo CRA tenha um correspondente em debênture incentivada. Projetos para compra de terras, financiamento de safra, máquinas e equipamentos isolados, por exemplo, não podem ser financiados via debêntures desse tipo.

Esses títulos, por outro lado, podem ser usados para projetos justamente ligados a infraestrutura, como o financiamento de estruturas de armazenagem, irrigação, terminais portuários de grãos e projetos para usinas.

Daqui para frente

Mesmo com esse cenário de spreads comprimidos para as debêntures incentivadas, uma quantidade nada desprezível de ofertas deve vir a mercado neste início de ano.

Nas contas do research do Banco ABC, fundos de debêntures incentivadas terão de alocar R$ 53 bilhões até o final de 2026, sendo 62% desse valor até abril.

Desse total, R$ 38,5 bilhões se referem ao aumento do patrimônio líquido e de percentuais de enquadramento, enquanto outros R$ 14,7 bilhões são de vencimentos das debêntures nas carteiras, apontam os analistas Odilon Costa e Roberto Dumke, do ABC.

“O que esse ano tem de especial? Eleição, alta volatilidade. Quem hoje tem bons ratings de crédito, consegue levantar dinheiro, porque existe muita liquidez no mercado”, explica Ricardo Rocha, diretor de DCM do Banco ABC.

Nas estimativas de bancos, pelo menos R$ 30 bilhões em emissões devem sair nos primeiros meses de 2026, já que os fundos têm de enquadrar ainda no primeiro trimestre algo em torno de R$ 40 bilhões a R$ 50 bilhões.

“A posição de caixa dos gestores está muito grande, alguma coisa entre 20% e 50%, dependendo do fundo. As pessoas precisam colocar o dinheiro para trabalhar. O que está fazendo os spreads voltarem a fechar? O mercado está comprando”, completa Samy Podlubny, chefe da área de dívida do UBS BB.

***

Em 2025, as debêntures incentivadas tiveram o maior volume anual da série histórica iniciada em 2018, segundo dados da Anbima. A captação atingiu R$ 177,97 bilhões, superando o recorde anterior de 2024 (R$ 135,11 bilhões). Os principais setores a emitir esses títulos foram transporte e logística (34% do total) e saneamento, com quase 10%.

No ano passado, o volume de CRAs emitidos também foi recorde, embora em um mercado ainda bem menor. Foram R$ 46,2 bilhões em novas ofertas, aumento de 11% em relação ao ano passado.



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