ITAGIMIRIM (BA)* — “Abraçar árvore” não faz parte do vocabulário de Virgínia Camargos, gerente de meio ambiente da Veracel Celulose. “A gente tem que partir para a ação”, defende a bióloga e doutora em Botânica, enfatizando a importância de gerar valor na conservação florestal.
Sob a batuta da executiva, estão hoje iniciativas como a RPPN Estação Veracel, uma reserva florestal de 6 mil hectares na divisa entre Eunápolis e Santa Cruz Cabrália, reconhecida pela Unesco como Sítio do Patrimônio Mundial Natural. Um bálsamo para os olhos, além de um “laboratório” a céu aberto no sul da Bahia.
Camargos também atua em iniciativas de conservação florestal e reflorestamento na Veracel Celulose. Não é pouco trabalho. Hoje, dos 200 mil hectares em que a empresa atua, metade está destinada à conservação florestal (a outra metade, ao plantio de eucalipto).
É bem mais do que as normas exigem. Pela Lei da Mata Atlântica, empresas precisam manter a preservação de 20% de propriedades localizadas nesse bioma como reservas legais. Parte do porquê de ter mais áreas preservadas, no caso da Veracel, se explica pela própria característica geográfica da região.
No sul da Bahia, onde a empresa concentra sua atuação em 11 municípios, os terrenos têm uma característica de platôs cercados por vales. Essas faixas de terra nos declives, resumidamente, também se tornam áreas de proteção adicional — entre outros fatores, pela dificuldade do plantio de eucalipto nelas.
Em média, a Veracel tem uma meta de restaurar em torno de 400 hectares de pasto por ano, com 40 espécies de árvores. Parte dessas terras, que já eram mapeadas e preservadas pela Veracel, ganhou um brilho adicional recentemente, impulsionada pela geração de créditos de carbono.
“Por que não trazer quem tem expertise em restauração para a geração desse tipo de crédito? Assim, ela acontece junto com o que a gente já faz, quando a área que a gente adquire não tem uma floresta estabelecida”, conta Camargos.
A partir dessa ideia, começou, em 2023, um namoro com a Biomas, empresa criada a partir da união de esforços de seis acionistas (Suzano, Vale, Itaú, Rabobank, Santander e Marfrig, hoje MBRF) de olho em restauração ecológica e conservação focada em crédito de carbono.
O namoro virou casamento com o Projeto Muçununga — nome dado em referência ao ecossistema da Mata Atlântica que só ocorre nessa região. Inaugurado no ano passado, o projeto de restauração de florestas nativas também tem a participação da Carbon2Nature, uma empresa do grupo Iberdola que atua como uma “corretora” de créditos de carbono neste projeto.
A iniciativa envolve a restauração de 1.242 hectares no sul da Bahia (ou 320 polígonos cercados por esses vales) a fim de gerar créditos de carbono, com divisão dessa receita entre as três empresas. Pelo menos 500 hectares já foram plantados nesse primeiro ano.
Trata-se de um projeto de longo prazo: a Veracel transferiu a posse das terras para a Biomas por 100 anos, com previsão de gerar créditos de carbono nos próximos 40.
De onde vem o dinheiro?
Existem dificuldades estruturais para um projeto como esse. Por ser uma área com presença humana há séculos, uma dificuldade é classificar onde já teve floresta antes e onde não. Outro desafio inicial é entender quais são as melhores espécies para cada talhão, controlar capim e formigas, por exemplo.
Dá para beber do conhecimento de empresas como a própria Veracel, além da Suzano, que mantêm programas de décadas focados na restauração ecológica e na silvicultura comercial — mas não deixa de ser um investimento massivo em curto prazo.
“É uma lógica parecida com a de um projeto de infraestrutura, com até 90% do capital alocado nos três primeiros anos. A primeira receita vem depois do terceiro ano, que é quando se faz a primeira medição de carbono, mas a floresta começa a performar mesmo do décimo ano até o vigésimo”, conta Marcelo Pereira, diretor na Biomas.
Para financiar essa alocação de capital, o projeto já contava com um aporte de R$ 15 milhões da Biomas e da Carbon2Nature e, em maio deste ano, captou R$ 87 milhões junto ao Fundo Clima, do BNDES.
A Biomas também mantém um contrato de desenvolvimento de serviços florestais, recebendo um fee periodicamente da Carbon2Nature por essa atividade nas florestas.
“A gente tem que quantificar a ideia, o pioneirismo, o arranjo. A Biomas fez um papel importante de trazer a Veracel, que a Carbon2Nature dificilmente conseguiria. Tudo isso tem seu valor, além da gestão efetiva em campo. Não é simples de precificar”, afirma Lucas Fontes, engenheiro de projetos de carbono na Carbon2Nature.
O destino dos créditos
Por enquanto, os créditos de carbono ainda não estão vendidos — uma vez que o plantio das primeiras árvores acabou de completar um ano. Mesmo assim, os títulos já parecem ter endereço certo.
Os principais compradores, conta Fontes, são as grandes empresas de tecnologia. “Elas lançam editais de compras de crédito e estamos dentro de um desses. Mas, à medida que o projeto vai amadurecendo, fica mais fácil de comercializar”, completa.
Um dos fatores que pode gerar mais valor aos créditos, ao longo do tempo, é a diversidade de espécies empregadas nesse reflorestamento — mais de cem. Para referência, segundo a Biomas, menos de 1% dos projetos voltados para restauração com crédito de carbono utiliza mais de dez espécies.
Outro fator que pode valorizar os créditos é o relacionamento com comunidades. O trio de empresas fez um diagnóstico social de comunidades num raio de até 20 quilômetros dos polígonos e selecionou 14 delas para implantar projetos capazes de beneficiar 800 famílias. O dinheiro para o investimento nesses projetos vem do aporte de R$ 15 milhões dos sócios da Biomas.
*A jornalista viajou a convite da Ibá (associação que reúne a cadeia produtiva de árvores plantadas)




