
A ascensão da China como exportadora de carne de frango não é um risco iminente para a indústria brasileira, mas precisa ser encarada como um impulso para o País ser ainda mais ativo na diversificação de mercados.
Essa é a visão dos líderes das maiores indústrias brasileiras de carne de frango: Neivor Canton, presidente da Aurora; Miguel Gularte, CEO da MBRF; e João Campos, CEO da Seara.
“Não se pode duvidar do chinês. Eles já demonstraram que são capazes de coisas impressionantes”, afirmou Canton, durante o painel realizado nesta quarta-feira no Siavs (Salão Internacional de Proteína Animal), evento realizado na capital paulista e promovido pela ABPA (Associação Brasileira de Proteína Animal).
Na visão do líder da central de cooperativas catarinense, o Brasil não pode ser dependente de poucos mercados, e já vem fazendo a lição de casa ao longo dos últimos anos.
“A China já foi mais importante. A demanda diminuiu sensivelmente e acreditamos que, de fato, vai gradativamente demandar menos”, acrescentou Canton.
No ano passado, os chineses foram responsáveis por 4,8% do volume de carne de frango exportada pelo Brasil, de acordo com dados compilados pela ABPA. Em 2020, quando o país asiático tinha uma demanda de carnes ainda puxada pela epidemia de peste suína africana, a fatia chinesa era de 16,3%.
Para Canton, a redução da importância chinesa não é um movimento inédito para o setor. Durante o painel, ele lembrou que a Rússia já chegou a ser responsável por 60% da carne suína exportada no Brasil, mas hoje sequer figura entre os vinte principais compradores.
O diferencial brasileiro
Campos, da Seara, ressaltou o diferencial competitivo brasileiro — o que inclui um sistema sanitário respeitado e capacidade de responder rapidamente à demanda — como um trunfo no mercado internacional.
“Frente a uma China ou outros, precisamos alavancar nossa escala com eficiência, e o Brasil fez isso muito bem nos momentos em que fomos desafiados”, ressaltou o CEO da Seara.
Na visão do CEO da MBRF, para quem a China foi “grande notícia da última década” para a demanda de proteína animal, a proximidade com o consumidor é crucial.
“Não adianta entrar e sair do mercado. Tem de estar presente com responsabilidade, desenvolver o hábito com o consumidor”, disse Gularte. Não à toa, a dona da Sadia ingressou no mercado chinês, em 2024.
Os investimentos no golfo
Nessa agenda, a presença das indústrias brasileiras no exterior cumpre um papel relevante, notadamente no Oriente Médio.
No início do ano, por exemplo, a JBS fez uma parceria com a ENTAJ (Arabian Company for Agricultural and Industrial Investment) para produzir frango em Jeddah, na Arábia Saudita. A MBRF também fez diversos investimentos no país, e possui uma sociedade de peso com o fundo soberano saudita na Sadia Halal.
Segundo Campos, a presença local ajuda as empresas a se desenvolverem orientadas pelas demandas do consumidor.
Ao mesmo tempo, a globalização cria parâmetros que ditam tendências nas diversas regiões do mundo, o que contribui com a estratégia das marcas. “Uma dona de casa na Arábia Saudita, na Europa ou nos Estados Unidos quer a mesma praticidade”, resumiu Gularte.




