O super El Niño que está se formando no Pacífico deve chegar a um mundo mais quente, mais exposto e ainda pouco preparado para os custos econômicos da crise climática.
A Organização Meteorológica Mundial (OMM) estima em 80% a probabilidade de o fenômeno se consolidar até agosto, com chance próxima ou acima de 90% de continuar até novembro. Mesmo com incertezas sobre o pico e a duração, a maior parte dos modelos indica que o evento será, ao menos, moderado, com possibilidade de ser forte.
O El Niño não é causado pelas mudanças climáticas. Trata-se de um fenômeno natural, associado ao aquecimento das águas do Pacífico equatorial. Seus efeitos, no entanto, são agravados pelas novas condições do planeta, estas, sim, consequências das alterações no clima: oceanos mais quentes e eventos extremos mais frequentes.
As mudanças climáticas, segundo a OMM, podem amplificar seus impactos. Com isso, um fenômeno conhecido pelos meteorologistas pode virar um teste de estresse para economias inteiras. A OMM prevê temperaturas acima da média em quase todo o mundo e alerta para maior risco de calor extremo, secas, chuvas fortes e enchentes em diferentes regiões.
“A ciência é clara: o El Niño está chegando à nossa porta nos próximos meses. O mundo deve tratá-lo como o alerta climático urgente que ele é”, disse António Guterres, secretário-geral da ONU.
A Europa já fornece uma prévia da conta a ser paga. Na segunda quinzena de junho, cerca de 410 milhões de pessoas foram expostas a temperaturas acima de 35°C, mais de dois terços da população do continente. O número supera a exposição registrada na onda de calor de agosto de 2003, quando cerca de 320 milhões de pessoas enfrentaram temperaturas nesse patamar.
O calor extremo deixou de ser apenas uma emergência de saúde pública. Ele pressiona hospitais, reduz a produtividade, aumenta a demanda por energia, afeta plantações, eleva o risco de incêndios e testa a infraestrutura urbana.
Na França, em Portugal e na Espanha, incêndios recentes devastaram mais de 17 mil hectares de terra, o equivalente a 17 mil campos de futebol. A temporada de fogo começou antes do previsto, mobilizou centenas de bombeiros e levou Portugal a pedir ajuda a países vizinhos.
Para Celeste Saulo, secretária-geral da OMM, o alerta deve ser tratado como uma agenda de preparação, e não apenas de monitoramento.
“Precisamos nos preparar para um evento de El Niño potencialmente forte, que vai exacerbar secas e chuvas intensas e aumentar o risco de ondas de calor tanto em terra quanto no oceano”, disse Saulo. “Previsões sazonais avançadas e alertas precoces são vitais para salvar vidas e amortecer o impacto sobre nossas economias e comunidades.”
É aí que o El Niño deixa de ser apenas um fenômeno climático e entra na planilha de governos, empresas e investidores.
A adaptação climática, por décadas tratada como uma agenda secundária diante da mitigação, passa a ser uma forma de proteção patrimonial. Significa planejar onde construir, quais culturas plantar, como proteger redes elétricas, estradas, portos, hospitais, sistemas de abastecimento e cadeias de suprimento.
Shaun Martin, vice-presidente de adaptação e resiliência do WWF nos Estados Unidos, resumiu o problema em artigo publicado no Climate Home News, site especializado em notícias sobre o tema: “O problema não é que tenhamos ignorado as mudanças climáticas. É que calculamos mal seu cronograma.”
No mesmo artigo, Martin defende que a adaptação precisa deixar de ser uma reação a desastres e virar uma lógica de planejamento. “Risco climático não é um problema único a resolver, mas um sistema a administrar”, afirma.
Esse é o ponto econômico central. O El Niño pode pressionar safras, elevar custos de energia, aumentar sinistros, afetar a produtividade do trabalho, encarecer seguros, interromper cadeias logísticas e forçar governos a ampliar gastos emergenciais. Quanto menor a preparação, maior a conta.
Mas a política climática global ainda está longe de acompanhar a velocidade do risco.
Na rodada de negociações climáticas de Bonn, a SB64, o impasse mais sensível ocorreu justamente em torno da Meta Global de Adaptação. Países em desenvolvimento cobraram que o texto refletisse o compromisso, acordado na COP30, em Belém (PA), de triplicar o financiamento para adaptação. Sem acordo, as negociações terão de recomeçar na COP31, em novembro, na Turquia.
A Climate Action Network, rede internacional de organizações climáticas, foi direta: “Os governos chegaram a Bonn falando sobre implementação, mas frequentemente mataram tempo falando sobre processo”, diz um comunicado da rede. “Implementação sem financiamento é apenas má ficção.”
A contradição é evidente. O mundo já sabe que precisa reduzir emissões, acelerar a transição energética e adaptar infraestrutura, cidades e sistemas produtivos a um clima mais instável. Mas, quando a conversa chega ao dinheiro, a implementação volta a virar processo, indicador, força-tarefa e revisão técnica.
O super El Niño de 2026 deve testar essa distância entre discurso e entrega. Ele não será a causa isolada das perdas climáticas que podem vir pela frente. Mas pode funcionar como um acelerador de danos em um sistema já aquecido.
A pergunta, agora, é menos científica do que econômica: quanto custará continuar tratando a adaptação como promessa de conferência, e não como investimento em resiliência?




