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sexta-feira, julho 17, 2026

O pulso da disrupção: como os wearables estão se tornando a porta de entrada para a saúde

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Durante décadas, a entrada no sistema de saúde foi marcada pela visita ao consultório, ao hospital ou à clínica. A jornada do paciente começava com sintomas, passava por exames e terminava com uma prescrição. Hoje, essa lógica está mudando rapidamente. O ponto de partida do cuidado cabe no pulso.

Os wearables, como relógios inteligentes e anéis conectados, transformaram-se em instrumentos capazes de monitorar continuamente sinais fisiológicos, produzindo informações que acompanham o usuário durante 24 horas por dia. Mais do que gadgets, esses dispositivos estão remodelando a forma como pacientes, médicos e empresas enxergam a prevenção e o acompanhamento da saúde.

Nos Estados Unidos, quase metade da população adulta já utiliza algum wearable de saúde, segundo a Rock Health. O smartwatch lidera esse mercado, enquanto os anéis inteligentes ganham espaço impulsionados por empresas como Oura e Samsung. O dado mais relevante, porém, é comportamental: 59% dos usuários já compartilharam as informações coletadas pelo dispositivo com seus médicos. O wearable deixou de ser um acessório para se tornar um prontuário em movimento.

No Brasil, a adoção ainda ocorre em ritmo mais lento, mas segue a mesma direção. Dados da IDC mostram que o mercado movimentou quase R$ 1 bilhão apenas no primeiro trimestre de 2023, enquanto a América Latina deve crescer a uma taxa média anual de 13,4% até 2028. Ao mesmo tempo, mais de 40% dos dispositivos vendidos no país chegam por meio do mercado cinza, evidenciando tanto a demanda quanto a barreira de preços.

O crescimento da telemedicina, dos dispositivos conectados e das healthtechs ocorre em um momento em que o Brasil reúne mais de 50 milhões de beneficiários de planos privados e um Sistema Único de Saúde permanentemente pressionado. Nesse contexto, os wearables passam a ocupar um papel estratégico ao ampliar o monitoramento contínuo e favorecer uma medicina mais preventiva.

O perfil desse novo usuário também muda a dinâmica do setor. Nos Estados Unidos, a maioria dos usuários de wearables tem menos de 44 anos, utiliza aplicativos de saúde, consulta ferramentas de inteligência artificial para interpretar sintomas e realiza exames diretamente ao consumidor. Trata-se de um paciente mais informado e participativo, que busca compreender seus indicadores antes mesmo da consulta médica.

Essa realidade também começa a ganhar força no Brasil, sobretudo entre consumidores de maior renda das grandes capitais. Clínicas voltadas à medicina preventiva, plataformas digitais de saúde e serviços de longevidade ampliam a oferta de soluções personalizadas. Ainda assim, permanece um grande desafio: reduzir a distância entre quem já incorpora essas tecnologias ao cotidiano e a maior parte da população.

A transformação, entretanto, não depende apenas do paciente. Ela exige que hospitais, operadoras e sistemas públicos consigam integrar os dados produzidos pelos dispositivos ao histórico clínico. Esse continua sendo um dos maiores gargalos brasileiros.

O índice médio de maturidade digital dos hospitais do país ainda está abaixo da metade do potencial, segundo o Mapa da Transformação Digital dos Hospitais Brasileiros. Na prática, prontuários que não se comunicam e sistemas fragmentados impedem que médicos utilizem, de forma estruturada, informações produzidas diariamente pelos wearables.

Enquanto isso, empresas nativas digitais avançam rapidamente. Nos Estados Unidos, organizações como Oura e WHOOP deixaram de vender apenas dispositivos para construir plataformas completas de saúde, integrando biometria contínua, inteligência artificial, telemedicina, exames laboratoriais e registros clínicos. A disputa deixou de ser pelo melhor hardware e passou a ser pelo controle da infraestrutura de dados do paciente.

No Brasil, healthtechs e operadoras inovadoras têm a oportunidade de construir essa integração antes dos sistemas tradicionais. Quem conseguir conectar os dados gerados pelos wearables aos prontuários eletrônicos e aos serviços médicos poderá redefinir a porta de entrada do cuidado.

A tendência aponta para três movimentos principais. O primeiro é a substituição do dado episódico pelo monitoramento contínuo, permitindo identificar alterações antes do surgimento de sintomas. O segundo é a disputa pela interoperabilidade, tornando possível compartilhar informações entre diferentes plataformas e profissionais. O terceiro desafio será democratizar esse modelo para além dos usuários mais engajados, transformando dados complexos em orientações simples e úteis para milhões de pessoas.

Há uma mudança profunda em curso. Durante décadas, a medicina baseou-se no relato do paciente durante poucos minutos de consulta. Os wearables introduzem uma nova fonte de informação: dados fisiológicos objetivos, contínuos e produzidos em tempo real.

Essa mudança redistribui poder do sistema para o indivíduo e desloca o foco da reação à prevenção. Em um país como o Brasil, marcado por um sistema público sobrecarregado e pela crescente demanda por atendimento, os wearables deixam de representar apenas tecnologia de consumo. Tornam-se parte da infraestrutura da saúde do futuro.

A porta de entrada do cuidado já não está apenas no consultório. Ela começa, cada vez mais, no pulso.

*Rodrigo Rocha é sócio da Athlete, venture builder focada em investimentos em negócios em saúde






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